Esta é a edição de lançamento da Deriva, uma publicação independente com dois grandes temas centrais: psicanálise e cultura, um guarda-chuva no qual pretendemos incluir assuntos correlatos, como literatura, cinema, filosofia, antropologia, teoria social e artes. Como de excesso de informação estamos todos bem servidos, a frequência será semestral. A ideia é trazer textos longos e mais reflexivos, para ler sem pressa.

No dicionário, a palavra deriva assume diferentes conotações. Eis algumas:

1. Desvio do caminho de uma embarcação, causada por ventos ou correntes.
2. Desvio em relação ao estado normal de um aparelho ou instrumento.
3. Ação de derivar, de fluir a partir de.
4. À deriva: ao sabor do acaso.

Todas nos interessam: a Deriva tem origem na experiência de um projeto anterior, a Confeitaria, sendo um desdobramento do que começamos em 2012, embora a partir daqui ganhe vida autônoma.

Estar em movimento é precisamente o que nos interessa. Embora a Deriva seja fruto de um ano de planejamento e trabalho, também foi e será afetada pelo acaso diversas vezes. Queremos preservar a beleza dessa interferência, garantir que exista espaço para o assombro.

Em relação à linha editorial, farei antes uma digressão. Na antologia Arte, Literatura e os Artistas (parte da coleção Obras Incompletas de Sigmund Freud, publicada pela Editora Autêntica), os organizadores Gilson Iannini e Pedro Heliodoro Tavares reuniram a maior parte dos textos escritos por Freud a respeito da criação artística e do efeito das obras de arte sobre o espectador/leitor. São mais de 300 páginas que demonstram a importância do tema para Freud.

“Aonde quer que eu vá, descubro que um poeta esteve lá antes de mim.”

 

A citação atribuída a Freud seria uma síntese do que o autor escreveu em Delírios e Sonhos na Gradiva de Jensen (1907): “(…) os poetas são aliados muito valiosos, cujo testemunho deve ser levado em alta conta, pois costumam conhecer uma vasta gama de coisas entre o ceú e a terra com as quais a nossa filosofia ainda não nos permitiu sonhar. Estão bem adiante de nós, gente comum, no conhecimento da mente, uma vez que se nutrem de fontes que ainda não tornamos acessíveis à ciência”.

Ao longo de toda obra de Freud, dois autores se destacam: o escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe, especificamente por Fausto, e o dramaturgo inglês William Shakespeare, uma bússola que o acompanhou durante todo seu percurso como clínico e como escritor de psicanálise. Em Alguns Tipos de Caráter Encontrados no Trabalho Psicanalítico (1916), Freud primeiro reflete sobre alguns personagens shakesperianos emblemáticos, como Ricardo III e Lady MacBeth, para então concluir: “após essa longa digressão pela literatura, retornemos à experiência clínica — mas apenas para estabelecermos em poucas palavras a inteira concordância entre elas”. É sobre essa relação de inteira concordância que gostaria de me deter aqui. O que queremos explorar na Deriva é como diferentes saberes e visões de mundo podem se complementar, influenciando-se mutuamente, e continuam dialogando, expandindo a compreensão.

Talvez não seja exagero afirmar que através da arte temos a oportunidade de nos aproximar intimamente da complexa natureza humana. Podemos olhar para temas que nos ocupam desde sempre e que a ciência tradicional, com sua estrutura lógica, jamais será capaz de tocar da mesma forma. Nesse sentido, o escritor Milan Kundera argumenta:

“Aqueles que dizem (…) que o conhecimento é a única moral do romance são traídos pela aura metálica da palavra ‘conhecimento’, comprometida demais por seu vínculo com as ciências. É preciso pois acrescentar: todos os aspectos da existência que o romance descobre, ele os descobre como beleza”.

 

 

Depois, esclarece que beleza na arte seria uma “luz subitamente acesa ao jamais-dito”. Faço aqui uma analogia com o que a psicanálise chama de inconsciente, como essa dimensão e esse material que estão na sombra (o “jamais-dito”), e sobre o qual possa se incidir uma “luz subitamente acesa”.

Não é esse o caminho da psicanálise? Uma jornada que permite nos aproximar de nossos desejos, que nos possibilite construir um olhar criativo sobre nosso psiquismo e sobre nossa história?

Ao comentar um trecho do romance A Insustentável Leveza do Ser, Kundera relembra a passagem em que a personagem Tereza se olha no espelho e se pergunta o que aconteceria se seu nariz crescesse um milímetro por dia. No final de quanto tempo seu rosto se tornaria irreconhecível? E se seu rosto não se parecesse mais com Tereza, seria ela ainda Tereza? Onde começaria e onde terminaria o eu? Kundera conclui:

“Veja você: nenhum espanto diante do infinito insondável da alma. Antes, um espanto diante da incerteza do eu e de sua identidade”.

 

Vale lembrar também uma das máximas de Freud: “o Eu não é senhor em sua própria casa”. A arte, como a psicanálise, parece capaz de apreender essa constatação preservando o espanto.

Em uma visão pragmática, a psicanálise consiste fundamentalmente na relação entre analista e analisando através da escuta e interpretação de conteúdos inconscientes que acompanham as palavras, ações e produções imaginárias de um indivíduo. A singularidade é um elemento essencial do método psicanalítico. Não se trata, portanto, do sentido que essas palavras, ações e produções imaginárias ocupam no dicionário, nem do nome universal que recebem, mas sim da representação ou do deslocamento subjetivo.

“Rejeito a própria noção de sinônimo: cada palavra tem seu sentido próprio e é semanticamente insubstituível”.

 

A citação é de Kundera, mas bem poderia ser de Lacan, para quem o estudo da linguagem foi essencial como instrumento psicanalítico.

Podemos fazer um parênteses para dizer que a tradução (de um texto, de uma palavra) não é apenas interlingual, é também intralingual. No sentido proposto por Kundera, a dificuldade de encontrar sinônimos não existe apenas entre idiomas diferentes, mas dentro de um mesmo idioma, uma vez que temos uma relação singular com as palavras. Cada um possui seu próprio dicionário.

Na primeira edição da Deriva, essa questão da tradução e dos sentidos das palavras surge em dois textos: Do Copo Para o Quase-Copo, matéria que reflete a respeito de alguns dilemas contemporâneos da tradução literária, para a qual foram entrevistados seis tradutores com diferentes visões e experiências; e um artigo de Pedro Sette-Câmara, um dos tradutores de Alice Munro no Brasil, contando um pouco de sua experiência de ler e traduzir a escritora canadense vencedora do Nobel de Literatura em 2013.

Ainda em A Insustentável Leveza do Ser, Kundera dedica um bonito trecho — chamado de As Palavras Incompreendidas à diferença de vocabulário entre dois personagens do romance, Sabina e Franz. Nessas páginas, o narrador tenta simbolizar o desencontro entre eles através de um dicionário que demonstra o quanto uma mesma palavra poderia carregar representações semânticas e afetivas muito diferentes para cada um, e como essa distância, no caso dos personagens, tornou-se intransponível.

Esse é um dos grandes dilemas da condição humana: só é possível chegar ao outro, construir uma ponte, se nos submetermos à cultura, isso é, a um código comum que inclui a linguagem. De outro lado, nunca perdemos nossa relação subjetiva com as palavras e os significados que representam para cada um.

Ao examinar o código existencial de Franz e o de Sabina analisando algumas ideias (a mulher, a fidelidade, a traição, a música, a obscuridade, a luz, a beleza, a pátria, o cemitério, a força), o narrador demonstra que cada uma corresponde a um universo diferente no código do outro.

No sentido inverso, em Romeu e Julieta, Shakespeare questiona qual seria o significado de um nome, de um vocábulo:

“[Julieta para Romeu] Meu inimigo é apenas o teu nome. Continuarias sendo o que és, se acaso Montecchio tu não fosses. Que é Montecchio? Não será mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma que pertença ao corpo. Sê outro nome. Que há num simples nome? O que chamamos rosa, sob uma outra designação teria igual perfume. Assim Romeu, se não tivesse o nome de Romeu, conservara a tão preciosa perfeição que dele é sem esse título.”

 

Esse nome poderia conter o objeto que nomeia, ou o objeto sobreviveria ainda que renomeado? Significante e significado não estão descritos em um catálogo universal, mas sim são revelados progressivamente em contexto, em uma relação.

A linguagem está presente em duas esferas: se de um lado é uma experiência compartilhada, de outro permanece sendo uma experiência subjetiva, como ocorre nos sonhos e no mundo interno de cada um. Portanto, poderíamos afirmar que a linguagem transita entre o que é íntimo e o que é coletivo, e as duas vivências se sobrepõem.

A ciência tradicional vê o mistério como uma proposição digna de Esfinge: “decifra-me ou te devoro”. A arte e a psicanálise, ao contrário, aceitam a vida como enigma e abrem espaço para a infinitude do “não saber”. Não sabemos, mas vamos experimentando hipóteses e construindo pontes que nos permitam pensar juntos.

Na edição de lançamento da Deriva, essa foi a linha que costurou os diferentes textos publicados, o norte que orientou a escolha dos autores que fazem parte dessa primeira edição, que chamaremos de Prólogo.

No antigo teatro grego, prólogo era a primeira parte da tragédia, em forma de diálogo ou monólogo, na qual se fazia a exposição do tema da tragédia.

As próximas edições terão temas específicos, serão pequenos mergulhos em assuntos que nos convidam à reflexão e ao debate.

No antigo teatro grego, prólogo era a primeira parte da tragédia, em forma de diálogo ou monólogo, na qual se fazia a exposição do tema da tragédia.

As próximas edições terão temas específicos, serão pequenos mergulhos em assuntos que nos convidam à reflexão e ao debate.

Queremos que este seja um espaço para que cada autor possa pensar as diferentes expressões culturais a que se dedica através de um ângulo próprio, mas que também ofereça ao leitor a possibilidade de acompanhar essa experiência. Em outras palavras: que tenha frescor e autoria, mas que seja fruto de um esforço de comunicação.

Nesta edição, Eduardo Leonel se vale da psicanálise para refletir a respeito de Sampa, música de Caetano Veloso, em um artigo que levanta bonitas questões; Luiz Durante pensa sobre redes sociais e jornada do herói em A Negação da Morte; já em A Imitação da Rosa, Tatianne Dantas faz uma sensível leitura psicanalítica do conto homônimo de Clarice Lispector; e a psicanalista Gabriela Malzyner vai buscar no cinema o material para elaborar a perda de seu analista em um comovente ensaio.

Diante de uma perspectiva antropológica, Daniela Antoniassi aborda o confronto entre diferentes culturas em seu texto sobre o documentário argentino El Etnográfo; também no artigo Margens Ficcionais, Priscilla Campos aproxima a antropologia da literatura, refletindo sobre essa intersecção; e Stephanie Borges pensa o imaginário do masculino em Máscara e Sofrimento, texto sobre o documentário americano The Mask You Live In.

A estreita relação entre cinema e psicanálise inspirou também bons artigos e ensaios nessa edição, como Cinema de Recriação, de Miguel Marques, que reflete sobre a visão dos cineastas Sergei Eisenstein e Peter Greenaway, e o texto de Dalvanira Lima sobre o filme O Quarto de Jack, da diretora irlandesa Lenny Abrahamson, analisado à luz do Édipo de Lacan.

Cinema é um tema muito querido para a Deriva e estamos contentes em publicar boas resenhas críticas, como a de Aquarius, escrita por Olívia Fraga, e a de Café Society, por Thiago Blumenthal. Também queremos expandir o entendimento de cinema, abrindo espaço para pensar as séries, narrativas audiovisuais que ocupam posição de destaque no cenário cultural contemporâneo. Nesse recorte, temos um texto de Taís Bravo sobre a série Gilmore Girls.

Em literatura, Cintia Nogueira retorna aos gregos para analisar o romance Destinos e Fúrias, da americana Lauren Groff; Nara Vidal escreve sobre o impacto do reencontro com Elena Ferrante em seu texto sobre Um Amor Incômodo, primeiro livro da autora italiana; o escritor Victor Heringer nos conta um pouco de sua visão de mundo e experiências literárias em uma breve entrevista; a poeta Ana Guadalupe, que estimamos muito, publica um poema inédito; e Flávia Stefani Resende inicia uma seção especial, a Folhetim: um romance aberto, em que cada capítulo funciona como um conto autônomo; ao final, dez contos irão formar, em conjunto, uma outra história. Cada conto-capítulo será escrito por um autor diferente, que continuará de onde o autor anterior interrompeu.

Temos também Sofia Soter recomendando o livro Pequenas Delicadezas, de Cheryl Strayed, e Emanuela Siqueira contando sobre os cadernos queimados de Elise Cowen e questionando a ausência das mulheres da Geração Beat. Ainda, na seção Leituras, alguns convidados compartilham suas indicações: são cinco listas com dez livros cada e pequenos comentários que acompanham as recomendações.

Todos os textos desta edição foram ilustrados com colagens criadas pela talentosa artista Beatriz Leite, que nos ajudou a construir a linguagem visual que idealizamos para o lançamento. A edição de arte, como na Confeitaria, é de Thiago Thomé Marques. Já a coordenação editorial fica comigo.

Cada leitor tem autonomia para escolher qual ordem de leitura lhe interessar aqui, mas se alguém quiser ler a revista do início ao fim, a organização dos textos na primeira página da Deriva tem para nós um sentido editorial, é uma proposta de experiência. De um jeito ou de outro, recomendamos começar pelo ensaio Foi Tudo um Sonho, de Juliana Cunha, um manifesto a favor do spoiler. Assim estarão avisados: os textos sobre livros, filmes e séries publicados aqui não evitam spoilers; ao contrário, estão cheios deles.

Gostaria de agradecer a todos os autores pela generosa contribuição. Agradeço duplamente a Thiago Thomé Marques, Flávia Stefani Resende e Juliana Cunha pelo apoio editorial.

Abraços,

Fabiane Secches

 

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