Esta é a edição de lançamento da Deriva, publicação independente com dois grandes temas centrais: psicanálise e cultura, um guarda-chuva no qual pretendemos reunir textos sobre literatura, cinema, filosofia, ciências sociais, artes e outros.

No dicionário, a palavra deriva assume diferentes conotações. Eis algumas:

1. Desvio do caminho de uma embarcação, causada por ventos ou correntes.
2. Desvio em relação ao estado normal de um aparelho ou instrumento.
3. Ação de derivar, de fluir a partir de.
4. À deriva: ao sabor do acaso.

Todas nos interessam: a Deriva tem origem na experiência de um projeto anterior, a Confeitaria. É um desdobramento do que começamos em 2012, embora a partir daqui ganhe vida autônoma. Estar em movimento é precisamente o que nos interessa: embora a Deriva seja fruto de um ano de planejamento e trabalho, também foi e será afetada pelo acaso diversas vezes. Queremos garantir que haja espaço para essa interferência.

Quanto à linha editorial da revista, faremos uma breve digressão para apresentar-la:  em Delírios e Sonhos na Gradiva de Jensen (1907), Freud escreveu que “os poetas são aliados muito valiosos, cujo testemunho deve ser levado em alta conta, pois costumam conhecer uma vasta gama de coisas entre o ceú e a terra com as quais a nossa filosofia ainda não nos permitiu sonhar. Estão bem adiante de nós, gente comum, no conhecimento da mente, uma vez que se nutrem de fontes que ainda não tornamos acessíveis à ciência”.

Ao longo de toda sua obra, Freud recorreu a dois autores com bastante frequência: Goethe e Shakespeare foram bússolas que o acompanharam durante seu percurso como clínico e como escritor de psicanálise. Em Alguns Tipos de Caráter Encontrados no Trabalho Psicanalítico (1916), Freud primeiro reflete sobre alguns personagens shakesperianos emblemáticos, como Ricardo III e Lady MacBeth, para então concluir: “após essa longa digressão pela literatura, retornemos à experiência clínica — mas apenas para estabelecermos em poucas palavras a inteira concordância entre elas”.

Talvez não seja exagero afirmar que através da arte temos a oportunidade de nos aproximar intimamente da complexa natureza humana, repensando temas que nos ocupam desde sempre e que a ciência tradicional, com sua estrutura lógica, jamais será capaz de tocar da mesma forma. Nesse sentido, o escritor Milan Kundera argumenta:

“Aqueles que dizem (…) que o conhecimento é a única moral do romance são traídos pela aura metálica da palavra ‘conhecimento’, comprometida demais por seu vínculo com as ciências. É preciso pois acrescentar: todos os aspectos da existência que o romance descobre, ele os descobre como beleza”. 

Depois, esclarece que beleza na arte seria uma “luz subitamente acesa ao jamais-dito”. A arte, como a psicanálise, parece capaz de apreender essa constatação, preservando o espanto.

Na primeira edição da Deriva, a tradução literária é um tema que direciona dois textos: Do Copo Para o Quase-Copo, matéria que reflete sobre alguns dilemas contemporâneos da tradução — entrevistamos seis tradutores com diferentes visões do ofício; e um artigo de Pedro Sette-Câmara, um dos tradutores de Alice Munro no Brasil, contando um pouco da experiência de ler e traduzir a escritora canadense vencedora do Nobel de Literatura em 2013.

Em A Insustentável Leveza do Ser, Kundera dedica um bonito trecho — chamado de As Palavras Incompreendidas à diferença de vocabulário entre dois personagens do romance, Sabina e Franz. Nessas páginas, o narrador tenta simbolizar o desencontro entre eles através de um dicionário que demonstra o quanto uma mesma palavra poderia carregar representações semânticas e afetivas muito diferentes para cada um, e como essa distância, no caso dos personagens, tornou-se intransponível.

Esse é um dos grandes dilemas da condição humana: só é possível chegar ao outro, construir uma ponte, se nos submetermos à cultura, isso é, a um código comum que inclui a linguagem. De outro lado, nunca perdemos nossa relação subjetiva com as palavras. Ao examinar o código existencial de Franz e o de Sabina analisando algumas ideias (a mulher, a fidelidade, a traição, a música, a obscuridade, a luz, a beleza, a pátria, o cemitério, a força), o narrador demonstra que cada uma corresponde a um universo diferente no código do outro.

No sentido inverso, em Romeu e Julieta, Shakespeare questiona qual seria o significado de um nome, de um vocábulo:

“[Julieta para Romeu] Meu inimigo é apenas o teu nome. Continuarias sendo o que és, se acaso Montecchio tu não fosses. Que é Montecchio? Não será mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma que pertença ao corpo. Sê outro nome. Que há num simples nome? O que chamamos rosa, sob uma outra designação teria igual perfume. Assim Romeu, se não tivesse o nome de Romeu, conservara a tão preciosa perfeição que dele é sem esse título.”

Esse nome poderia conter o objeto que nomeia, ou o objeto sobreviveria ainda que renomeado? Significante e significado não estão descritos em um catálogo universal, mas sim são revelados progressivamente em contexto, em uma relação.

Se de um lado a linguagem é uma experiência compartilhada, de outro lado, permanece sendo uma experiência subjetiva. Portanto, poderíamos afirmar que a linguagem transita entre o que é íntimo e o que é coletivo, e as duas vivências se somam uma à outra continuamente. A arte e a psicanálise abrem espaço para que possamos experimentar hipóteses em busca de construir pontes que nos permitam pensar juntos. Essa foi a linha que costurou os diferentes textos publicados nessa primeira edição, que chamaremos de Prólogo, uma referência ao antigo teatro grego, em que o prólogo era a primeira parte da tragédia, na qual se fazia a exposição da temática a ser abordada. As próximas edições terão temas específicos: serão como pequenos mergulhos em assuntos que nos convidam à reflexão e ao debate.

Nesta edição, Eduardo Leonel se vale da psicanálise para refletir a respeito de Sampa, música de Caetano Veloso; Luiz Durante pensa sobre redes sociais e jornada do herói em A Negação da Morte; já em A Imitação da Rosa, Tatianne Dantas faz uma aproximação de psicanálise e literatura ao analisar o conto homônimo de Clarice Lispector; e a psicanalista Gabriela Malzyner vai buscar no cinema o material para elaborar a perda de seu analista em um ensaio em homagem.

Diante de uma perspectiva antropológica, Daniela Antoniassi aborda o confronto entre diferentes culturas em seu texto sobre o documentário argentino El Etnográfo; no artigo Margens Ficcionais, Priscilla Campos aproxima a antropologia da literatura, refletindo sobre essa intersecção; e Stephanie Borges pensa o imaginário do masculino em Máscara e Sofrimento, em um texto sobre o documentário americano The Mask You Live In.

A estreita relação entre cinema e psicanálise inspirou também  artigos e ensaios como Cinema de Recriação, de Miguel Marques, que reflete sobre a visão dos cineastas Sergei Eisenstein e Peter Greenaway, e o texto de Dalvanira Lima sobre o filme O Quarto de Jack, analisado à luz do Édipo de Lacan.

Cinema é um de nossos interesses principais e, por isso, estamos contentes em publicar boas resenhas críticas, como a de Aquarius, escrita por Olívia Fraga, e a de Café Society, por Thiago Blumenthal. Também queremos abrir espaço para pensar as séries, narrativas audiovisuais que ocupam posição de destaque no cenário contemporâneo, como no texto de Taís Bravo sobre a série Gilmore Girls.

Em literatura, Cintia Nogueira retorna aos gregos para analisar o romance Destinos e Fúrias, da americana Lauren Groff; Nara Vidal escreve sobre o impacto do reencontro com Elena Ferrante em seu texto sobre o romance Um Amor Incômodo; o escritor Victor Heringer nos conta um pouco de sua visão de mundo e experiências literárias; a poeta Ana Guadalupe publica um poema inédito; e Flávia Stefani Resende inicia uma seção especial, a Folhetim: um romance aberto, em que cada capítulo funciona como um conto autônomo; ao final, os contos formarão, em conjunto, uma outra história — cada conto-capítulo será escrito por uma autora ou autor diferente, que continuará a partir do texto anterior.

Ainda em literatura, temos Sofia Soter escrevendo sobre o livro Pequenas Delicadezas, de Cheryl Strayed, e Emanuela Siqueira contando sobre os cadernos queimados de Elise Cowen e questionando a ausência das mulheres da Geração Beat. Na seção Leituras, alguns convidados compartilham suas indicações de leitura: são cinco listas com dez livros cada e pequenos comentários que acompanham as recomendações.

Todos os textos desta edição foram ilustrados pela artista Beatriz Leite, que nos ajudou a construir a linguagem visual que idealizamos para a revista. A edição de arte é de Thiago Thomé Marques e a coordenação editorial fica por minha conta.

A organização dos textos na primeira página da Deriva tem para nós um sentido editorial, é uma proposta de experiência. Recomendamos começar pelo ensaio Foi Tudo um Sonho, de Juliana Cunha, um manifesto a favor do spoiler. Assim estarão avisados: os textos sobre livros, filmes e séries publicados aqui estão cheios deles.

Gostaria de agradecer às autoras e aos autores pela participação generosa. Agradeço duplamente a Thiago Thomé Marques, Flávia Stefani Resende e Juliana Cunha pelo apoio editorial.

Boa leitura!

Fabiane Secches

 

0 Comments