No primeiro capítulo de A Prática do Novo Historicismo, intitulado O Toque do Real, os pesquisadores Catherine Gallagher e Stephan Greenblatt tomam como ponto introdutório de sua investigação as proposições do antropólogo Clifford Geertz. Essa abertura tem como intuito construir um paralelo entre a crítica literária e a antropologia, conexão muito cara à teoria da literatura na década de 1970. Para a dupla, Geertz conseguiu demonstrar que a estratégia de interpretação, nos escritos literários, propicia meios que compreendem os sistemas simbólicos e os padrões de vida estudados pelos antropólogos.

Dessa maneira, a análise de tais textos cumpre também uma função social e interliga exemplos de escrita que vão além da ficção e da poesia. Em O Novo Historicismo: Ressonância e Encantamento, Greenblatt afirma que a definição do Novo Historicismo “não pressupõe que os processos históricos sejam inalteráveis e inexoráveis, mas se volta para a descoberta dos limites ou coerções da intervenção individual. Ações que parecem únicas revelam-se múltiplas; o poder aparentemente isolado do gênio individual acaba vinculando-se à energia coletiva e social, um gesto de dissensão pode ser elemento legitimador maior, enquanto uma tentativa de estabilizar a ordem das coisas pode acabar subvertendo-a”. Quando o pesquisador grafa um elo entre o poder “gênio individual” e a “energia coletiva social”, compreendemos as alternativas que o conceito nos oferece. Tal pensamento designa certa autoridade ao processo do imaginário diante das moderações culturais, deixando que a invenção transpasse barreiras factuais e lineares.

Enxerga-se essa atuação de que fala o pesquisador norte-americano como a catapulta para uma narrativa autônoma, na qual construções da realidade cultural podem entrar em um sistema de expansão. Segundo a dupla, as técnicas literárias foram meios de viabilizar, no caso da antropologia de Geertz, “algo aparentado ao que em óptica se chama ‘foveação’, a capacidade de manter um objeto (aqui, um pedacinho textualizado de comportamento social) dentro da área de alta resolução da percepção”. Desse modo, o discurso literário torna-se uma esfera de texto plausível para que representações sociais, políticas e, enfim, históricas ganhem um tipo de brilho que reluz tão forte quanto os detalhes da grande história que todos nós já conhecemos. Em resumo, com a sua característica de plausibilidade — a ideia de que a ficção não é o real, mas só pode existir por causa dele — o discurso literário está apto para desenvolver, com profusão, as particularidades da história.

Nesse contexto, tomo a escrita de W. G. Sebald, em especial, o conjunto de narrativas presentes em Os Emigrantes, como objeto de análise. Ao longo de seu projeto literário, Sebald delimita algumas saídas possíveis para o discurso histórico dominante. Nas histórias de Dr. Henry Selwyn, Paul Bereyter, Ambros Adelwarth e Max Ferber encontram-se pedaços narrativos que se revelam, talvez, em igualdade com os horrores fincados na cronologia clássica da Segunda Guerra Mundial, por exemplo. Essa espécie de equilíbrio de relevância só se faz possível porque tais vozes, caminhantes das margens, vem à tona através de alguém que reconhece a sua perspectiva de interventor na história — como W. G. Sebald parece assentir em toda sua obra.

A presença da fotografia, constante na estrutura narrativa do autor, está menos ligada à intenção de relacionar memória e realidade: trata-se de um mecanismo cujo o intuito é fraturar a história. Aquelas imagens, a princípio, organizadas de forma aleatória, atingem a narrativa e abalam o pacto ficcional com o leitor. Por alguns minutos, pode-se encarar as fotos de paisagens ou de supostos parentes do escritor como registros do real, mas em nenhuma parte do texto consta a confirmação que legitimaria a identidade daquelas pessoas ou a exatidão geográfica de certo banco de areia. Sebald ocupa-se da plausibilidade de seu arquivo imagético para certificar a narrativa, transformar em ficção não só um discurso literário, bem como um plano de memória coletiva.

Ao confrontar Os Emigrantes com as definições do Novo Historicismo, observo: senão pela sua característica atenta às narrativas marginalizadas, por sua necessidade de fragmentação da soberania, o conceito faz parte de uma teoria de guerrilha, inquieta com as hegemonias e os seus silêncios. A relação entre a escrita de Sebald e as práticas propostas por Gallagher e Greenblatt está posta, enfim, na atitude vigilante aos conflitos, à narrativa do eu, às oscilações de uma violência total — atos e decisões brutais que, a partir de tais perspectivas aqui apresentadas, nunca permanecerão intactos em reminiscências de um passado supremo.


Texto de Priscilla Campos

Ilustração de Beatriz Leite

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