Quando o argentino El Etnógrafo, de Ulises Rosell, estreou em festivais e logo em salas de cinema, causou alvoroço nos mundinhos do documentário independente, da crítica especializada e dos departamentos de antropologia das grandes universidades, em seu país de origem e mais além. O filme recebeu vários prêmios e, na imprensa, foi objeto de numerosas resenhas, análises, comentários e sobretudo elogios. Não muito tempo antes de El Etnógrafo, seu diretor já havia filmado, sobre o mesmo assunto, um documentário de trinta minutos para o programa Culturas Distantes, produzido e transmitido pela rede de televisão argentina Canal Encuentro.

Eu era, na época, estudante de Antropologia Social na Universidade de Buenos Aires e foi em meio a esse burburinho que assisti ao filme pela primeira vez. Fiquei extremamente tocada pela triste sorte do índio Qa’tú, cuja vida fora arrasada em razão da perspectiva etnocêntrica do sistema jurídico nacional argentino, igual à de outros países de tradição ocidental, e encantada pela figura do protagonista, o antropólogo John Palmer, britânico altruísta e abnegado que se casou com uma índia wichí do norte da Argentina, agregou-se à comunidade wichí de Lapacho Mocho e decidiu consagrar sua vida à defesa desta etnia oprimida.

Dois ou três anos depois, entretanto, assistindo ao filme pela segunda vez, tinha meu olhar completamente mudado no que concerne às questões abordadas no documentário, a seus personagens e à maneira mesma como o filme foi realizado — escolha dos personagens, roteiro, mise en scène, construção dos planos e das sequências. Nessa trajetória de descobertas e transformações, atribuo a mudança em minha maneira de ver e compreender os principais temas do filme e o filme em si a meus avanços no estudo da antropologia, às leituras sobre a questão do relativismo cultural e sua relação com o universalismo dos direitos humanos e sobretudo aos diversos debates dos quais tive oportunidade de participar no meio universitário, ocasiões em que pude escutar grandes antropólogos, dentre os quais minha orientadora, Mónica Tarducci, cujas análises muito me esclareceram e ensinaram.

Sinteticamente, Tarducci sustenta que o argumento do relativismo cultural não pode ser utilizado para legitimar práticas violentas e opressivas no seio de um grupo cultural, qualquer que seja esse grupo — como fazem frequentemente supostos defensores dos direitos humanos, dentre os quais John Palmer, Ulises Rosell e muitos outros antropólogos, sociólogos, jornalistas, cineastas etc., que até podem estar imbuídos de boas intenções, mas fazem uma leitura dos fatos sociais que é superficial e contaminada de ideologia.

Ainda assisti ao filme uma terceira e uma quarta vez, cada uma delas com o olhar renovado pelos aportes de novos aprendizados sobre temas que tangenciam El Etnógrafo e que no documentário foram descuidados em benefício da reiteração de ideias do senso comum carregadas de preconceitos. É a partir desse olhar mudado que me proponho de analisar algumas das sequências do filme. Para isso, entretanto, devo antes explicar o contexto dos fatos reportados no documentário e tratar de certos elementos que não figuram explicitamente no filme, mas que são fundamentais para sua compreensão e para uma sua avaliação crítica.

O Caso Qa’tu

Em meados de 2005, na província de Salta, norte da Argentina, a professora de Estela Tejerina, uma menina de nove anos de idade da etnia wichí, notou que a garota estava grávida e indagou da mãe dela acerca da gravidez. Teodora Tejerina, mãe de Estela, declarou que José Fabián Ruiz, de nome wichí Qa’tu, seu ex-companheiro e filho do xamã da comunidade, era o autor do estupro de sua filha. Sendo Teodora uma mulher extremamente simples e sem instrução formal, a diretora da escola acompanhou-a à delegacia de polícia, onde Teodora prestou queixa contra Ruiz, que foi preso e processado por estupro agravado, por ser a vítima menor de treze anos. Na ocasião, Teodora afirmou que Roque Miranda, chefe da comunidade, havia ameaçado-a de também ser presa e expulsa do grupo caso denunciasse Ruiz por prática de estupro. A mulher disse que temia fazer denúncia, mas temia também que seu ex-companheiro pudesse “fazer a mesma coisa” a suas outras filhas.

Na semana em que a menina deu à luz, sua mãe e alguns membros da comunidade pediram a liberação do agressor, alegando principalmente que Teodora fora influenciada pela diretora da escola no momento em que prestara queixa. O grupo também protestou na escola local, obtendo a demissão da diretora. Em juízo, além de afirmar a influência da diretora da escola quando da queixa, a defesa de Ruiz sustentou a existência de um matrimônio de tipo privignático (casamento de um homem com uma mulher e a filha dela) no repertório cultural da etnia wichí e que o acusado desconheceria a norma jurídica violada.

Em 2007, um grupo de mulheres indígenas wichí, dentre as quais a líder comunitária Octorina Zamora, afirmou perante o tribunal que o argumento da defesa soava como uma aberração para os membros da comunidade wichí, não exprimindo os costumes deste povo, que condena a prática sexual precoce, o matrimônio privignático e as relações incestuosas. Nesse sentido, em palavras da antropóloga Tarducci, ainda que o caso da prisão de José Fabián Ruiz tenha sido apresentado como a manifestação do conflito entre as posições relativista e universalista dos direitos humanos, todo o debate que teve lugar no processo judicial, na imprensa e no documentário El Etnógrafo está marcado por mentiras, declarações inexatas e estratagemas, não apenas sustentados pelos advogados de defesa, mas também confirmados e difundidos por dirigentes comunitários, etnógrafos, cineastas e especialistas de todo tipo.

As elaborações a posteriori sobre os fatos, para salvar o acusado, giraram em torno de três eixos: a idade de Estela Tejerina quando do acontecimento; a existência de um suposto matrimônio privignático; os hábitos licenciosos das meninas wichí, que sairiam à procura de parceiros sexuais logo após a primeira menstruação.

No que diz respeito à idade de Estela, sua mãe sempre disse que a menina tinha dez anos no momento da queixa, o que significa nove anos no momento do estupro. Ainda que Teodora jamais tenha se retratado desta afirmação, a estratégia do advogado do acusado era tentar aumentar a idade de Estela para treze anos, de maneira a descaracterizar o crime de estupro, uma vez que, de acordo com a lei argentina, com mais de treze anos Estela teria capacidade para consentir com a prática sexual. No filme, podemos ver claramente o trabalho de John Palmer para Teodora modificar, nos documentos, a idade de sua filha.

Quanto à definição de infância entre os wichí, Mónica Tarducci afirma que, embora em tempos passados os wichí praticassem rituais de iniciação, hoje em dia a diferença fundamental entre a criança e o adulto em comunidades wichí reside na escolarização. Durante a idade escolar, meninos e meninas não são vistos como adultos. Ritos que implicam um salto brusco da infância à idade adulta simplesmente não existem mais nessas comunidades.

Mais além da escolarização, vários outros fatores explicam as transformações dos costumes wichí. Já não se trata de um grupo autóctone isolado geográfica e culturalmente. A comunidade de Lapacho Mocho está situada a somente 18 quilômetros da cidade de Tartagal. Seus membros têm acesso à televisão, à imprensa, a hospitais e, ainda que vivam em grande parte de uma economia rural, foram há muito aculturados em costumes ocidentais. Finalmente, a forte onda de evangelização não deixa espaço a dúvidas quanto a mudanças nos costumes e na moral do grupo. Não somos insensíveis à violência implicada na aculturação de grupos minoritários por grupos detentores do poder em uma sociedade complexa, mas a aculturação existe, é uma realidade factual. A comunidade wichí em questão não possui mais seus costumes e crenças ancestrais intactos.

Pouco tempo após Teodora ter prestado queixa, Miranda, chefe da comunidade e amigo de Qa’tu, declarou que Ruiz havia sido advertido por pessoas próximas a não manter relações sexuais com a menina, porque isso poderia lhe causar problemas. Além disso, Teodora se separou de Ruiz em dezembro de 2004, época da gravidez de Estela. Todos esses dados, que sequer são mencionados no filme de Rosell, parecem indicar que o matrimônio privignático nunca existiu e que Qa’tu sabia que estava cometendo um crime ao manter relações sexuais com Estela.

Suposto matrimônio privignático foi fortemente defendido apenas por John Palmer. Miranda, quando fez referência a casamentos wichí entre um homem e mais de uma mulher, no documentário produzido pelo Canal Encuentro, ressaltou que eram práticas dos antepassados e que, mesmo assim, as famílias deveriam estar de acordo. Palmer, ainda no documentário produzido para a televisão, disse: “Não se trata de prática muito comum, entretanto permitida entre distintos povos autóctones. É prática conhecida e estudada em 45 etnias da América do Norte. Agora sabemos que ela existe também na etnia wichí”. Curiosamente, o etnógrafo John Palmer descobriu o matrimônio privignático entre os wichí apenas após trinta anos vivendo no seio dessa comunidade. O livro de Palmer, La Buena Voluntad Wichí: Una Espiritualidad Indígena, não faz nenhuma referência ao matrimônio privignático, ao costume de adultos manterem relações sexuais com meninas e ainda menos à liberalidade sexual de meninas e adolescentes wichí.

A cada ocasião em que foi entrevistado, entretanto, Palmer referiu-se como esposa à garota que, na narrativa do etnógrafo, “tomou a iniciativa de buscar um parceiro sexual uma vez tornada mulher adulta”. No documentário produzido pelo Canal Encuentro, Palmer menciona “os ciúmes da mãe” ao tomar conhecimento da “relação” da menina com seu marido. “Inicialmente havia ciúmes por parte da mãe… Bem, típico de uma mulher. Isso também pode acontecer a um homem que tenha que compartilhar sua mulher com outro homem”, em suas palavras. O etnógrafo sustentou repetidamente que não permitir a Estela escolher seu marido seria uma violação aos direitos humanos de Estela. Em nenhum momento, Palmer fez referência à separação de Teodora e Ruiz e quais seriam seus motivos.

Sigo a opinião de Mónica Tarducci no sentido de que, no caso Qua’tu, houve não apenas má fé, mas também irresponsabilidade de pessoas — aí incluído o cineasta — que repetem as declarações daqueles que querem a todo custo salvar o acusado, sem escutar outras vozes — aí incluídas outras vozes dentro da própria comunidade wichí. É uma banalização não questionar, ao menos, quem é que está falando em nome dos wichí. Octorina Zamora diz que a lei de proteção às crianças vai além de qualquer tradição, mas ela jamais foi escutada.

A utilização da cultura para explicar diferentes situações de desigualdade é perigosa. O conceito de cultura como um sistema coerente de ideias, significados e valores que são compartilhados pela totalidade de um grupo foi e continua sendo criticado na antropologia. Trata-se de um essencialismo cultural que não deixa espaço para dissidências internas e serve aos interesses daqueles que detêm o poder no seio das comunidades.

Análise de sequências

Sequência 00:00:47 / 00:02:25

Voz off de John Palmer. Imagens do vilarejo (casas simples em meio a um terreiro; grupos de nativos vistos ao longe, animais selvagens e domésticos soltos, misturados às pessoas). Imagens de John Palmer em uma escrivaninha, olhando fotografias de pessoas da etnia wichí.

As imagens transmitem a ideia de uma atmosfera exótica. De fato, trata-se de um ambiente estranho e misterioso para a maior parte dos espectadores, composta de populações urbanas de cultura ocidental. A inegável pobreza da comunidade passa a impressão de atraso, de primitivismo. De certa maneira, a visão de pessoas integradas à natureza e misturadas aos animais torna as pessoas parecidas aos animais.

As tomadas de Palmer em sua escrivaninha, olhando com o auxílio de uma lupa fotos de pessoas wichí, constroem a imagem de Palmer como um homem sábio, um investigador, um cientista, um especialista. Dão à sua voz a autoridade de um grande conhecedor dos wichí.

A narração em voz off: “O principal grupo da comunidade é a família Ruiz. Qa’tu é um membro da família Ruiz. Em determinado momento, chega a família Tejerina, uma família de mulheres. Teodora esposa Qa’tu. Ela já tinha três filhas: Estela, Cecilia e Sandra. Após alguns anos, Estela também esposa Qa’tu, realizando, assim, um duplo casamento, logo após haver tido sua primeira menstruação, o que é reconhecido como uma passagem da infância à idade adulta. Guardando a prerrogativa das mulheres wichí para iniciar as relações matrimoniais, foi Estela quem estabeleceu a relação com Qa’tu. Após ter vivido com Qa’tu por cerca de nove meses, os médicos descobriram que Estela estava grávida e a levaram para o hospital. E foi então que os problemas começaram. De acordo com seus documentos, Estela tinha nove anos”.

A maneira como a narrativa de Palmer é construída está longe de ser neutra: Qa’tu vivia na comunidade antes, a família Tejerina chegou depois. Teodora esposa Qa’tu, não o contrário. “Realizando um duplo casamento”, mesmo que nenhum casamento tenha sido realizado, em nenhum momento. Qa’tu é passivo. Qa’tu é vítima. São as mulheres que chegam, agem e perturbam a ordem daquela comunidade.

Sequência 00:48:16 / 00:52:37

John Palmer visita Qa’tu na prisão. John Palmer conversa com Qa’tu na prisão. Essa sequência é, obviamente, uma mise en scène. Conhecemos as dificuldades de filmagem no interior dos estabelecimentos prisionais, as necessidades de autorizações especiais para tanto, os trâmites burocráticos relacionados. Podemos concluir, portanto, que não se trata de “cinema direto”, como o cineasta quer fazer parecer. Desde que Palmer entra no prédio da prisão, apresentando seu documento de identidade e entregando seus pertences aos guardas, até a conversa entre ele e Qa’tu, tudo ali é encenado.

A mise en scène da conversa é evidente não apenas pelo conteúdo das falas, mas também pelas expressões dos personagens. Qa’tu se revela um mau ator, sua performance é bastante artificial. Quanto a Palmer, este interpreta um pouco melhor seu papel de homem sábio, reflexivo, bom, justo e solidário, dedicado a ajudar a comunidade wichí.

O diálogo entre os dois se inicia com Palmer narrando a morte de um recém-nascido da comunidade. Tuyu, irmão de Qa’tu, havia telefonado a Palmer para lhe pedir ajuda, pois acreditava que a polícia culparia a mãe do recém-nascido por sua morte e tentaria levá-la à prisão. Enfim, a polícia não quis prender a mulher; tudo não havia passado de um mal-entendido de Tuyu. O episódio narrado reforça a ideia de Palmer como protetor da comunidade wichí, homem de fora a quem os wichí se socorrem para resolver problemas que não dão conta de gerir por si mesmos.

Na continuação da conversa, Qa’tu diz que, segundo sua mãe, a verdadeira razão pela qual ele estava preso é o fato de ter uma vez se confrontado com a polícia que tinha estado na comunidade. Qa’tu diz que, às vezes, também ele acreditava nisso. Qa’tu se queixa de estar preso há cinco anos e dois meses sem ter ainda seu julgamento definitivo.

Palmer pergunta a Qa’tu se ele quer se casar com Estela. Diz que não haveria maiores dificuldades para a realização do casamento. Explica que haviam ingressado com uma ação judicial demandando a retificação da data de nascimento de Estela e que, se o juiz aceitasse modificar tal data, Estela poderia se casar.

A conversa termina com a seguinte indagação de Qa’tu: “Se o juiz não modificar o documento de Estela, o que vamos fazer?”. Finalizando a sequência, uma imagem das grades de prisão, um largo plano das barras de ferro com um cadeado e a imagem de Palmer de costas, ao fundo, caminhando em direção à saída.

Subjacente ao diálogo dos personagens, está a crítica à agressão infligida pelo Estado — por meio dos médicos, da polícia e do poder judiciário — à comunidade indígena. Sabemos como os Estados, principalmente pela polícia e pela justiça, reportam-se de forma violenta e injusta às comunidades autóctones. Rejeitamos, sem embargo, o discurso superficial de vitimização que o filme de Ulises Rosell utiliza, ao pretender explicar a prisão de Qa’tu como uma suposta represália da polícia. No filme, Qa’tu sempre é retratado como a vítima. Palmer sempre é apresentado como o salvador da comunidade.

Sequência 01:09:00 / 01:10:40

Voz off de Qa’tu. Imagem da fumaça que brota da floresta em chamas. Música instrumental que evoca drama. Imagens da floresta recentemente queimada, coberta de fumaça.

A narração em voz off: “As mulheres começaram. Eu não podia fazer nada. Eu chegava à tarde e eu não sabia em que elas pensavam. Teodora me disse: ‘Minha filha te ama e quer estar com você’. E eu pensava: ‘Talvez seja bom aceitá-la, talvez não’. Até que Teodora disse: ‘Está bem se você dormir com a minha filha. Eu não a nego para você’. Ela pegou suas coisas e se foi a Tartagal. Durante a noite, ela voltou e me viu deitado com sua filha. Porque foi ela que se meteu na minha cama. E quando eu fui preso, ela disse: ‘Por que? Por que te colocaram na prisão? Não é sua culpa. Fui eu que te dei minha filha. Porque minha filha disse que queria Qa’tu'”.

Não acho que sejam necessários muitos comentários sobre essa sequência e esse discurso. A mulher violada é sempre a culpada nas palavras do violador. O mais surpreendente, para mim, é que o cineasta retrate esse discurso de forma romantizada. Ressalto apenas que a narrativa de Qa’tu não faz menção a qualquer tipo de casamento, para reafirmar a inconsistência da palavra dos seus defensores, que insistem na existência do suposto matrimônio privignático.

Considerações finais

O documentário de Ulises Rosell tem por protagonista John Palmer, antropólogo inglês que foi à Argentina para estudar a etnia wichí e ficou vivendo na comunidade. Casou-se com uma mulher dessa etnia e teve com ela cinco filhos. Além da vida doméstica cotidiana de Palmer e de seu trabalho como defensor da comunidade wichí, o filme retrata duas outras intrigas: a invasão das terras autóctones por grandes produtores de soja e por multinacionais de extração petrolífera; o famoso caso Qa’tu.

De fato, as três tramas mencionadas — a vida de Palmer; a questão fundiária; o caso Qa’tu — se entrelaçam em uma narrativa sobre a opressão da comunidade indígena pelo Estado, pelo sistema capitalista e pela cultura ocidental. Sob esse verniz politicamente correto, há a construção de um retrato idealizado de John Palmer, que dissimula a manipulação ideológica empreendida pelo etnógrafo para defender Qa’tu.

O etnógrafo é retratado como um homem excepcional, sensível, pai e marido dedicado, que renunciou a seu país, ao dinheiro e ao conforto material para dedicar sua vida ao povo wichí. Um verdadeiro gentleman. Em certo momento do filme, a esposa de Palmer diz: “Esse é o homem com quem estou. Ele trabalha, mas sem ganhar. Porque ele trabalha para ajudar os wichí e esse trabalho não tem salário”.

A sequência em que Palmer luta para defender o território indígena da invasão da companhia petrolífera é um ponto chave para construir a imagem de Palmer como herói. Já que a opressão dos povos autóctones é incontestável, assim como os direitos dos autóctones sobre suas terras são igualmente incontestáveis, é praticamente impossível que o espectador não sinta admiração e respeito pelo trabalho de John Palmer.

O nobre trabalho de Palmer pela defesa das terras indígenas termina por legitimar seu discurso enquanto antropólogo, mesmo quando ele se utiliza de ideias absurdas, supostamente amparadas pela antropologia, para defender Qa’tu. Não nego que Palmer é um homem dedicado à causa indígena e que seu trabalho na defesa das terras autóctones é louvável. Entretanto, no que concerne aos artifícios utilizados por Palmer para defender Qa’tu, o antropólogo emprega estratégias fraudulentas para contar a história de maneira enviesada. Tanto nos argumentos de Palmer como no filme de Rosell, só há espaço para uma única versão dos fatos relativos ao caso Qa’tu. Antropólogo e cineasta combinam-se para criar uma verdade que nega a palavra às mulheres em questão.

No filme, Teodora e Estela quase não falam. Nos raros momentos em que aparecem, são manipuladas por John Palmer. É sempre Palmer quem dirige as conversações. Podemos ver Palmer exortando-as a modificar a data de nascimento de Estela em seus documentos. Podemos igualmente ver Palmer dizendo a Estela que ela deve se casar com Qa’tu, para que ele possa ser liberado da prisão.

Palmer diz a Estela: “Se você quer, existe uma coisa chamada casamento. Uma mulher de dezesseis anos não pode se casar. Mas com a permissão da mãe ou do pai, ela pode. Então, se você se casar com Qa’tu, ele estará livre”. Depois Palmer se dirige a Teodora, mãe de Estela: “Você vai impedir o casamento? Seria bom não impedir, porque desta maneira Qa’tu poderá sair da prisão”. O etnógrafo conduz a palavra e conduz igualmente as ações das mulheres.

Em nenhum momento, o cineasta pede a Estela e Teodora suas versões dos fatos. A professora de Estela e a diretora da escola não aparecem no filme, tampouco a líder indígena Octorina Zamora. Quem explica a relação sexual entre Estela e Qa’tu são John Palmer e Qa’tu, jamais Estela. As escassas palavras das mulheres não exprimem suas opiniões sobre o sucedido, são palavras cortadas e descontextualizadas. A manipulação da palavra feminina no documentário se dá não apenas pela mise en scène e pela figura persuasiva de John Palmer, mas também através da montagem do filme: o que sobra de Estela e Teodora na bricolagem da edição são apenas alguns murmúrios submissos.

Assistindo ao filme, sinto que, ademais da violência infligida por Qa’tu, Estela e Teodora foram também submetidas à violência infligida por parte da comunidade wichí, por John Palmer e pelo cineasta Ulises Rosell. Sou sensível à luta de Palmer pela defesa das terras autóctones. Penso que Palmer pode efetivamente ser um personagem interessante para um documentário. O problema, em minha opinião, é escolher Palmer para protagonizar uma história que não é a sua. A história em questão é a de Estela. Não acredito que existam filmes imparciais, porque a visão de mundo do cineasta estará sempre arraigada em sua obra. O filme de Ulises Rosell, porém, é mais que imparcial: é desonesto, porque esconde o que as mulheres da trama realmente sentem e pensam.

Em todo o mundo, nenhum grupo social sofre tão graves violações de direitos humanos em nome da cultura como mulheres e meninas. Além de opressão étnica e de classe, mulheres sofrem violência de gênero. Desde o relativismo cultural, que sustenta perspectivas relativistas dos direitos humanos, as relações de gênero são “da essência das comunidades”, e portanto apartadas da proteção das convenções de direitos humanos, mesmo quando as mesmas comunidades se utilizam da linguagem dos direitos humanos e do arsenal de ferramentas fornecidas por uma “justiça universal” para exigir direitos fundiários, proteção ao meio ambiente e respeito à própria cultura.

Em tempos de comunicação global, o relativismo cultural serve aos interesses daqueles que fazem sofrer. É legítimo que as identidades sejam utilizadas como estratégia para certas reivindicações e lutas políticas, mas não podemos tratar formas de opressão como tradições culturais que mereçam a todo custo ser preservadas. Desta forma, estaríamos negligenciando relações de poder e dominação existentes no seio dos grupos culturais e perpetuando injustiças.

Certas práticas culturais têm graves consequências sobre a saúde e a vida de mulheres. Negar a possibilidade de transformação destas práticas para preservar “a cultura” implica desconsiderar o fato de que o direito moderno está em tensão não apenas com diversas culturas autóctones e “tradicionais”, mas também com os costumes do próprio Ocidente, que vêm tendo que modificar-se em seus esquemas sociais e comportamentos culturais.

A transformação de meu olhar em relação ao filme El Etnógrafo me faz pensar ainda no quanto o gênero documentário é poderoso para impor um ponto de vista, em particular quando sustenta-se em uma narrativa romantizada e na construção de um personagem idealizado. Esse poder deve-se precisamente ao fato de que o documentário porta implicitamente o (falso) postulado de objetividade e verdade. O cineasta, presumido detentor de verdade, mas apenas seu artífice, tem de ser consciente de sua enorme responsabilidade.


Texto de Daniela Antoniassi

Ilustração de Beatriz Leite

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