Quando nos interessamos pelo estudo da psicanálise, não raramente, nos pegamos fazendo correlações e identificando seus conceitos em narrativas trazidas pelo cinema, literatura ou teatro. Vivi esta experiência de forma muito marcante com o O Quarto de Jack.

Dirigido por Lenny Abrahamson, o filme é baseado no livro de Emma Donoghue, que também assina o roteiro e se inspirou em casos verídicos de garotas que são mantidas em cativeiro por sequestradores durante anos.

Assistindo ao filme, de imediato identifiquei alguns dos conceitos do Édipo Lacaniano. Isso porque, ao tratar da relação de Joy (Brie Larson) e seu filho Jack (Jacob Tremblay), nascido no cativeiro, há dois elementos que propiciam esse tipo de observação. O primeiro é o confinamento espacial, pois o desenvolvimento da criança junto à mãe durante os primeiros cinco anos de vida, se dá num diminuto quarto, sem contato físico com o mundo exterior. E o segundo é a dilatação do tempo cronológico, considerando-se que cinco anos supera em muito o tempo em que essa relação se restringe à díade mãe-filho.

Na primeira cena do filme, a ternura da voz de Jack, ao narrar seu nascimento, evidencia o quanto ele se sentiu bem acolhido pela mãe ao chegar ao mundo; e Joy, por sua vez, nele depositou seu desejo de permanecer viva. Ao fazê-lo, o constituiu como falo, segundo Lacan, o significante da falta. Quando ouvimos de Jack: “… antes de eu chegar, você só chorava e via TV o dia inteiro, até virar zumbi”, o vemos perfeitamente identificado ao falo.

Poderíamos dizer que, nessa situação, a privação da liberdade e a consequente violência impetrada a seu próprio Eu seriam para Joy a representação simbólica de sua castração. Investir no desenvolvimento do filho significou para ela dar nova dimensão à vida circunscrita às quatro paredes do quarto; ao fazê-lo, inscreveu em Jack sua condição de falo, ao mesmo tempo em que ela própria se constituiu como mãe fálica. Vemos aí perfeitamente identificado o primeiro tempo do Édipo.

A cena em que Jack cobra as velas para seu bolo de aniversário, que a mãe não tem como lhe dar, poderia simbolizar a inauguração do segundo tempo do Édipo. Nesse momento, uma falta se inscreve na relação mãe/filho, desfazendo-se a mútua completude, e instala-se em Joy a certeza de que, sozinha, seria incapaz de suprir as necessidades do filho, por isso deveria lhe falar sobre o mundo além das quatro paredes do quarto.

Pensando na posição dos personagens em relação ao “falo” para caracterizar os tempos do Édipo em Lacan, nesse momento, o lugar do “Pai” estaria representado pelo mundo fora do quarto, e é para ele que se volta o desejo de Joy. Acredito que o lugar daquele que interdita o desejo da mãe em relação ao filho não é ocupado por Nick, o sequestrador, pois seu papel se manteve inalterado durante a trama — seu olhar se dirigia unicamente para Joy, como objeto de satisfação narcísica e o sintoma de sua psicose.

Na segunda parte do filme, quando Jack e Joy saem do quarto, rompe-se a ligação simbiótica entre mãe e filho que permitiu a sobrevivência de ambos e a sensação de que um era o complemento do outro. Do lado de fora, eles se veem defrontados cada qual com sua própria incompletude.

Para Jack, chegar ao mundo fora do quarto significa um novo nascimento; ao mesmo tempo, ele vivencia a separação da mãe, que, mergulhada num profundo estado depressivo, tenta o suicídio.

Mesmo diante desses desafios, Jack consegue paulatinamente se adaptar à nova situação de forma fortalecida; digamos que vai se dando sua inserção na cultura, que Lacan caracteriza como o terceiro tempo do Édipo.

A cena do filme em que Jack pede à avó que corte seus cabelos poderia representar o caráter circulante do falo na trama edípica: os personagens o têm, mas não o são. Depois de cortados, ele pede à avó que leve o cabelo para a mãe, ainda internada, recuperando-se da tentativa de suicídio, e explica-lhe que, naquele momento, ela é quem precisava mais da força contida no cabelo, menção à história de Sansão. Nessa representação simbólica, Jack reconhece a castração da mãe e a sua própria, admitindo que algo fora dele possa ajudá-la. A força que estava com ele pode ser transferida à Joy, e a qualquer outro que dela necessite.

Penso então que o filme traduz muito bem o que nos diz Lacan: “O que determina que a criança deseje ser o objeto do desejo da mãe não é a dependência vital, mas sim a dependência de amor”. Joy, numa condição totalmente desfavorável, conseguiu amar e dar vitalidade a Jack.


Texto de Dalvanira Lima

Ilustração de Beatriz Leite

 

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