Em 2010, o site literário americano The Rumpus começou uma coluna de conselhos: leitores mandavam e-mails desabafando e pedindo ajuda e uma colunista anônima, que assinava como Sugar, os respondia. Em 2012, último ano da coluna, Sugar se revelou como a escritora Cheryl Strayed, que aceitou o título depois da saída de Steve Almond, mais conhecida por Livre (que foi adaptado para o cinema em 2015), e lançou uma coletânea de suas colunas, Tiny Beautiful Things, traduzido para o português por Debora Chaves como Pequenas Delicadezas (Objetiva, 2013).

Li Pequenas Delicadezas no original em inglês em março. Desde então, tento recomendar a leitura, com o fervor com que tinham me recomendado, a todo mundo: amigas, namorado, terapeuta. Recomendei o livro para quem buscava algo transformador, para quem se sentia em crise, para quem ansiava por boa literatura; recomendei o livro com insistência e entusiasmo, como quem sabe que valerá a pena. Com o tempo, no entanto, comecei a recomendar com desculpas antecipadas, justificativas, com “mas” e “porém”, porque a reação das pessoas quando eu recomendo uma coletânea de conselhos parece um pouco com a reação das pessoas quando eu menciono que leio tarot ou estudo astrologia: uma simpatia incrédula, um agradecimento educado, uma resposta de “não sei se é o que estou procurando”.

O que lemos em Pequenas Delicadezas, no entanto, não é uma sucessão de clichês, não é uma prosa piegas, mas sim a sensibilidade e a crueza de uma troca vulnerável: dos que pedem conselhos, tão sem chão em suas vidas que recorrem a uma anônima na internet em busca de direção, e da própria Cheryl Strayed, que recebe seus leitores perdidos com os braços abertos e equilibra essa relação a princípio tão desigual, se abrindo em igual medida. Observar tal grau de vulnerabilidade na literatura, uma sinceridade tão aberta, é raro. Mesmo em memórias, autobiografias, mesmo em poemas confessionais, mesmo em ficção que disfarça sua realidade, lemos uma escolha narrativa clara, uma edição que lixa as arestas e apara as superfícies, uma opção deliberada pelo que é exposto e o que é encoberto. Nas colunas de Strayed, entretanto, não há espaço para tais cortes e seleções, pois uma troca entre estranhos que precisam se encontrar em um mesmo plano, que precisam mudar suas vidas juntos, não tem espaço para truques.

Ou tem, talvez, espaço para pequenas manipulações, escolhas, ilusões. Afinal, é da nossa natureza disfarçar o que sentimos, explicar demais certos aspectos, deixar de explicar inteiramente outros. Quando pedimos conselhos, é comum já sabermos a resposta: quando perguntamos para as amigas se devemos terminar um relacionamento, quando perguntamos para os pais se devemos mudar de emprego, quando perguntamos quase qualquer coisa para um terapeuta. Perguntamos guiando a resposta, esperando ouvi-la de outra boca, aguardando a validação de nossos desejos e crenças. É claro, então, que os que buscam a ajuda de Sugar/Strayed fazem o mesmo, que as três mulheres que perguntam sobre terminar seus relacionamentos esperam ouvir a mesma coisa, esperam absolvição pelo pecado de desejar o fim. E Cheryl as absolve, com a poesia de quem diz as verdades que sabemos em sentimento e não e palavras.

Go, even though you love him.
Go, even though he is kind and faithful and dear to you.
Go, even though he’s your best friend and you’re his.
Go, even though you can’t imagine your life without him.
Go, even though he adores you and your leaving will devastate him.
Go, even though your friends will be disappointed or surprised or pissed off or all three.
Go, even though you once said you would stay.
Go, even though you’re afraid of being alone.
Go, even though you’re sure no one will ever love you as well as he does.
Go, even though there is nowhere to go.
Go, even though you don’t know exactly why you can’t stay.
Go, because you want to.
Because wanting to leave is enough.

Em tradução livre:

Vá, mesmo que o ame.
Vá, mesmo que ele seja gentil e leal e querido.
Vá, mesmo que ele seja seu melhor amigo e você seja a melhor amiga dele.
Vá, mesmo que não possa imaginar sua vida sem ele.
Vá, mesmo que ele a adore e que sua partida seja devastadora.
Vá, mesmo que seus amigos se decepcionem ou se surpreendam ou se irritam ou todos os três.
Vá, mesmo que tenha dito que ficaria.
Vá, mesmo que tenha medo de estar sozinha.
Vá, mesmo que tenha certeza que ninguém a amará como ele a ama.
Vá, mesmo que não tenha para onde ir.
Vá, mesmo que não saiba exatamente por que não pode ficar.
Vá, porque quer.
Porque basta querer ir.

O maior mérito de Strayed talvez seja, em suas respostas, ser capaz de ler o que as omissões, falhas e pequenas fraudes das confissões dizem sobre o problema. Ela conhece dores e sofrimentos e vê, como uma escritora especialmente sensível, o que se esconde por trás das palavras, das formulações, dos trejeitos, das estruturas; ela lê o que se esconde e responde mesmo o que não se diz. Há honestidade em suas palavras, seja dando a absolvição que a culpa pede, os limites que a falta pede, a direção que a névoa pede. Os que pedem seus conselhos têm crises das mais variadas, e respostas igualmente diversas; há, certamente, nessas Pequenas Delicadezas, a absolvição, os limites ou a direção de que todo leitor precisa, mesmo que não chegue ao livro em busca de alento. Basta, para isso, permitir-se a vulnerabilidade daqueles que o escreveram.


Texto de Sofia Soter

Ilustração de Beatriz Leite

0 Comments