“Alguma coisa acontece no meu coração” porque ele, invariavelmente, será tocado, atravessado; o coração está para que algo aconteça com ele, nele — algum descompasso, uma reviravolta, o avesso. Quando o outro passa a ocupar o sujeito, é só então que ele começa a se constituir. O sujeito se faz a partir do outro; na psicanálise não há autoconhecimento, por não se tratar de “conheça a ti mesmo”; nesse saber, “num último recurso, devemos começar a amar a fim de não adoecermos”. Caetano Veloso canta “alguma coisa” porque não se trata de conhecimento, mas de sentimento, afeto: amor.

O coração é carne, soma; “alguma coisa” é psique. Todo e qualquer acometimento no sujeito será psicossomático, posto que sua constituição é por correspondência — em uma dupla-implicação, circuito, de um polo a outro em contínuo fluxo contingencial. O estímulo psicossomático que provoca o “alguma coisa” é um lugar: o cruzamento das avenidas Ipiranga e São João — mas poderia ser o encontro do corpo do sujeito com o de um outro. A imagem e a cadeia de significantes desencadeiam no sujeito o mal-estar do “alguma coisa”, que faz palpitar o coração, causa desconforto, asfixia, suscita suspiros. Uma efusão de afetos que alenta o sujeito; é do alento do outro que ele se constitui.

O corpo do outro pode ser um lugar; o outro o pode — o espaço, o campo aonde o sujeito irá se constituir. Projetando-se para fora de si, na busca pelo outro, o sujeito irá reconhecer-se. Ao nascer — ou mesmo antes — a criança é acolhida na rede de afetos-significantes, donde ela irá emergir singularmente na medida em que se estrutura psiquicamente. Essa estruturação, que é a constituição do sujeito, se dá na troca dos afetos. A criança, ao ser estimulada, é erotizada — ou seu corpo, será para ela, objeto de escoamento do desprazer, estímulo pulsional, alento para sua psique, medida de estrutura do aparelho psíquico. Erotizar-se é vincular-se ao outro, distender-se no universo simbólico, estruturar-se em linguagem, psiquicamente.

O narcisismo é condição precípua na trajetória constitutiva do sujeito. Ele não alcança a dissolução do Édipo sem antes passar por esse caminho de busca por si. O narcisismo pode ser entendido por uma busca do sujeito por si mesmo, visto que no projetar-se para fora de si, na busca identificatória no outro, o sujeito trilha o caminho da construção de si, contingencialmente, sem a intenção deliberada de fazer das partes erotizadas do seu corpo, um todo; ele sedimenta o terreno para que seu aparelho psíquico se constitua: trata-se dos instantes iniciais da formação do Eu, os processos primários.

O problema é encarar o outro na cidade, e não se ver, não se reproduzir no outro — que, por vezes, está/é interditado pelo concreto, quando ele não é poético. Assim, em Sampa, a cidade de São Paulo é um espelho turvo, com formas excrescentes, distante da sinuosidade das curvas do Edifício Copan. Cidade des-identificável, inviável à interdependência subjetiva. Sem a constituição de uma imagem, e tampouco a visão dela, o sujeito precipita-se na fragmentação espacial de si, na atrofia ortopédica das suas partes erotizadas, no seu Ego — dispersas na geometria singular desse sujeito despedaçado. É que no ver e ser visto, mais do que imagem e juízos estéticos estão em jogo; nesses movimentos escópicos as partes do sujeito são ajuntadas e a vida é inflada.

A beleza por sua vez, própria das discussões relativas ao narcisismo, está em ver e ser visto, e com isso convocar o sujeito à vida – ela é sempre relacional, porque está em trânsito, é transitória; a beleza tem mais sentido em relações do que na solidão. Por isso a beleza pode ser imobilizante, paralisante. Admirando a si mesmo, vendo o reflexo de sua imagem no espelho d’água, Narciso está parado, prostrado. Essa observação merece destaque devido ao imobilismo que ronda o narcisismo — no inclinar-se, prostrar-se e fixar-se no espelho d’água; a identificação junto à imagem projetada no espelho pode atrair, seduzir o sujeito. O destino final desse movimento introjetivo pode ser o Nirvana, a morte, isto é, a ausência de investimento do sujeito em si mesmo oriunda do imobilismo narcísico — que é o ensejo para a melancolia, e de onde podemos inferir a face melancólica da beleza.

Narciso quer o espelho não porque ele queira apenas a si mesmo; ele o quer por repelir o que vem de fora, o novo (em Sampa, Caetano canta: “e à mente apavora o que ainda não é mesmo velho”). Esse movimento narcisista pode ser aproximado ao que Freud, no Além do Princípio do Prazer, nomeou por pulsão de morte — a gênese etiológica do imobilismo narcísico. O espelho carrega consigo a dualidade vida e morte, posto que é condição para a constituição do sujeito — via o outro, que será o reflexo da unidade constitutiva, a referência—; mas, concomitantemente, desse movimento projetivo, a fixação no outro (ou no reflexo de si, no próprio Eu), pode ser o ensejo para a reatividade introjetiva imobilista. Para se constituir o sujeito precisa passar pelo o outro — e este por aquele. Imobilizado na beira do lago, Narciso não oferece ocasião para que o outro o percorra; encerrado em si mesmo ele se precipita rumo ao declínio, seu próprio desinvestimento e morte. É que para se construir o sujeito precisa amar, o que requer sair de si mesmo, assumindo os riscos desse movimento, e sendo alento para si e para o outro — um circuito de afetos precisa ser estabelecido, para que a vida se sustente e a existência seja possível. A condenação de Narciso não foi à morte, ou ao tédio, ou ainda à escravidão de sua própria beleza — ou até mesmo todas essas possibilidades juntas. Antes disso tudo, que também pode ser verdade, Narciso foi condenado à solidão. A solidão é a paralisia do amor — é o não-amor, por isso é também indiferença (quando o sujeito se isola, por repelir o outro). Na Sampa de Caetano Veloso, a solidão perpassa à espreita os versos, na sutileza do contraste melancólico com a beleza discreta “da deselegância de tuas meninas” — é o embate de Eros e Tânatos, à lá Veloso. Isso nos faz pensar que o amor guarda em si algo de solitário, como se, paradoxalmente, ao amar, estivéssemos sós. É que quando se ama, a saída é de si, isto é, o desenlace/desdobramento tem como ponto de partida o próprio sujeito. Ele amará à sua maneira; todo amor é singular, na medida em que se ama, mesmo que acompanhado da solidão existencial do humano, frente ao desamparo.

O Narcisismo Fora de Lugar

O solipsismo derivado do narcisismo primário fora de lugar desdobra-se como corrosão nos laços afetivos que constituem as redes de significantes que vinculam os sujeitos em uma dada realidade. Não por acaso Freud infere a morte como sendo endógena, constitutiva do sujeito, objetivo da vida. O narcisismo fora de lugar é aquele vivenciado pelo sujeito como interdito (ou impeditivos conflituosos) para seu investimento — sobretudo de ordem moral. É o enrijecimento do ego, o encerramento em si mesmo que se impõe como obstrução nas aproximações junto ao outro, cuja posição será a do pequeno outro, opositor, rival ameaçador do eu ideal. Esse ego engessado é aquele que não se lança ao outro, e que morre — endogenamente, como Freud advertira. É que para se sustentar psiquicamente, requer-se do sujeito investimento no outro. Nesse sentido, o eu ideal, necessariamente, terá que se abrir, para que possa se estabelecer a transferência do afeto. Só assim, mediante tal abertura, o sujeito poderá alcançar o fora, o novo, o outro. O conflito se estabelece nesse ponto, quando diante da necessidade iminente da abertura, o sujeito recua, dada a prevalência do eu ideal; o princípio de constância atua, e a pulsão de morte se sobrepõe.

Em Sampa, Caetano Veloso pôde imprimir nas linhas dos seus versos as contradições que após anos continuam atuais. Essa atualização das impressões sociais da cidade de São Paulo está também acompanhada das impressões psíquicas que a pulsão traceja na psique do sujeito. É a constituição da realidade, que no caso de Sampa, está marcada pela irrupção da compulsão à repetição também na cultura. Os sintomas vividos por Narciso podem ser conferidos também na ordem social, “do povo oprimido, nas filas, nas vilas, favelas / na força da grana que ergue e destrói coisas belas / da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas”. Quando Narciso não se vê, e já por não ver o outro, a realidade torna-se opaca, cinzenta, concreta — precária na relativização simbólica da linguagem, rudimentar, portanto. A possibilidade de pensar o impensável, da produtividade inventiva oriunda da indeterminação do vir-a-ser humano sucumbe à corrosão do desinvestimento narcísico, no paradoxo do narcisismo.
A correspondência da estrutura psíquica sujeito-sociedade se nota, ainda, nos sintomas da compulsão à repetição, que no caso de Sampa vem “da força da grana que ergue e destrói coisas belas”. Na “grana” convergem a criação e a destruição, e nessa convergência se encontra o paradoxo que movimenta a realidade, com o importante detalhe que esse movimento pode ser de um círculo de gozo, cuja finalidade é ele mesmo: um movimento compulsivo-repetitivo. A consequência imediata desse movimento é a opressão, o empanamento dos sujeitos, seus esvaziamentos. Eis a melancolia que perpassa os versos de Sampa. O brilho que Caetano Veloso imprimiu na canção está no movimento poético-musical que oscila entre Eros e Tânatos — e que irrompe na opacidade cinzenta da melancolia paulistana, nas distâncias que clivam os sujeitos.


Texto de Eduardo Leonel

Ilustração de Beatriz Leite

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