Gilmore Girls é uma narrativa que tem pouco compromisso com a realidade. Justamente por isso, é também conhecida como um lugar seguro. Essa é uma série que você pode assistir depois de um dia cansativo e apenas relaxar com a garantia de não ser surpreendida pela morte de seu personagem preferido ou qualquer tipo de desastre, ao contrário, por exemplo, das séries produzidas por Shonda Rhimes.

Contudo, lugar algum é realmente seguro. Gilmore Girls pode desviar de temas pesados, mas, dentro de sua proposta— ser um entretenimento confortável— a série consegue provocar sentimentos intensos e, por vezes, dolorosos. A reação de seus fãs a A Year in a Life, revival lançado pela Netflix em novembro de 2016, não só comprova isso como nos dá material para pensarmos o impacto dessa narrativa em nosso tempo.

A série se inicia com um acordo: Lorelai é uma mulher que cria sozinha sua filha, Rory. Quando Rory é aprovada em um caríssimo colégio particular, a mãe precisa pedir ajuda financeira a seus pais, com quem tem um relacionamento conturbado. Eles topam com uma condição: em troca do dinheiro, Lorelai e Rory devem comparecer semanalmente a um jantar familiar nas noites de sexta-feira.

Esses jantares pontuam a trama da série ao longo de sua suas sete temporadas estabelecendo um contraste com o universo de Stars Hollow, a cidade em que Lorelai e Rory vivem — enquanto a casa de Richard e Emily, pais de Lorelai, é um lugar de tons sóbrios, móveis antigos e sensação de clausura, Stars Hollow é um lugar colorido por pessoas e eventos inusitados, a cidade que Lorelai escolheu quando engravidou e fugiu da casa dos pais, aos 16 anos. Essa fuga é sua tentativa de habitar uma realidade com regras e limites mais flexíveis. Todo o conforto da mansão em que cresceu pesa sobre Lorelai porque é incapaz de aceitar os acordos e normas que esse mundo estabelece.

Rory cresce, então, em meio a esses dois mundos, transitando entre o melhor que cada um pode oferecer: de um lado, tem o conforto de um local com regras de convivência um tanto improváveis; do outro, a estabilidade e o respaldo financeiro oferecido por seus avós. Evidentemente que, para desfrutar disso, ela também participa de um acordo: Rory quer entrar em Harvard. Essa moeda de troca funciona tanto para seus avós quanto para sua mãe, porque ambos os lados se deliciam com a promessa de um futuro grandioso. O que ela oferece portanto é uma predestinação que antes mesmo de se cumprir já lhe garante uma admiração incondicional.

Assistir a essa série é também ter o prazer de acompanhar o desenvolvimento de uma promessa. Contudo, há indícios de que tal predestinação pode eventualmente se romper. Em A Year in a Life esse rompimento finalmente se desenvolve. Nos quatro episódios do revival, assistimos a Rory, agora aos 32 anos, perdida e sem grandes conquistas profissionais. Principalmente, ela se vê frustrada porque descobre que todos seus anos de disciplina e dedicação aos estudos são meros pré-requisitos e não asseguram qualquer garantia no mercado de trabalho. Esse suposto fracasso de Rory causou uma reação barulhenta entre os fãs. Há os que se comovem com o seu drama, há os que acham que seu fracasso é merecido já que é uma personagem muito mimada. Além dos julgamentos, é predominante uma identificação com a frustração de Rory diante do que chamamos de vida adulta.

É interessante pensar em como algumas palavras e expressões se estabeleceram em nosso vocabulário. Acredito que “vida adulta” é uma expressão nova e bastante condizente com a mentalidade e o comportamento da minha geração— e aí, é preciso ressaltar, que geração não é só quem compartilha um tempo histórico, mas também certos recortes sociais principalmente no que diz respeito a questões de classe. Tento imaginar meus pais, aos vinte anos, usando o termo “vida adulta” e não parece verossímil. Já eu e muitos dos meus amigos parecemos buscar responsabilidades e conquistas para rabiscar os limites de nossa faixa etária em algo que seja adequado para o mundo dos adultos de verdade.

O que chamam de vida adulta talvez seja apenas a percepção de que esse sistema de acordos falha. Chega um momento em que a realidade ultrapassa qualquer promessa e os acordos não carregam a garantia de uma recompensa. Desviar o encontro com essa realidade é algo possível dependendo dos privilégios e apoios que você possui. No entanto, é apenas um adiamento, porque é inevitável o encontro com o real que escapa de nossos pactos simbólicos. Afinal, para além de qualquer conforto e estabilidade, há os riscos iminentes ao nossos corpos humanos, há o amor sempre pronto a nos abandonar e há, sobretudo, todo um mundo completamente indiferente ao nossos esforços e expectativas.

Para a geração que cresceu acompanhando Gilmore Girls, o final da série é agridoce, porque significa a perda de mais um respaldo: nem mesmo Rory Gilmore conseguiu trapacear a cilada que é a vida adulta. Mas, talvez, ao romper com o pacto estabelecido ao longo desses anos, Amy Sherman Palladino nos dê não só a quebra de uma promessa, mas também o início de novos acordos longe de qualquer predestinação ou incondicionalidade. É possível, assim, que exista vida após a vida adulta.


Texto de Taís Bravo

Ilustração de Beatriz Leite

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