Um dos mais famosos aforismos gregos diz “Conhece-te a ti mesmo”. A frase sumariza uma espécie de moral para uma das histórias mitológicas mais famosas — a do rei Édipo, que mata seu pai e casa-se com sua mãe por desconhecer sua verdadeira família e suas origens. Em um dos mais famosos textos dramáticos sobre a história, o Édipo Rei, de Sófocles, Édipo fura os próprios olhos ao perceber seu erro e diz “nas sombras em que viverei de agora em diante já não reconhecereis aqueles que não quero mais reconhecer”, submergindo em um universo onde o desconhecimento é a causa e ao mesmo tempo a solução para o seu sofrimento. A tragédia se dá em torno dos conceitos de conhecer e desconhecer, saber e ignorar, ver e ocultar, e os erros que cometemos por desconhecimento ou ignorância.

Um dos contos mais famosos de David Foster Wallace e um dos meus textos preferidos da vida, Good Old Neon (O Bom e Velho Neon, em tradução livre) trata também – de uma maneira inteiramente diferente dos gregos – da impossibilidade de se conhecer alguém verdadeiramente e do incrível desafio que é chegarmos a um entendimento sobre a nossa identidade real: somos quem acreditamos ser ou somos a pessoa que os outros nos enxergam como sendo? Ao falar sobre um de seus relacionamentos, o protagonista do conto diz:

“(…) e eu nunca a enxerguei realmente, eu não enxergava nada a não ser quem eu pudesse ser aos olhos dela.”

 

O romance Destinos e Fúrias, da escritora americana Lauren Groff (publicado no Brasil pela editora Intrínseca), se insere impecavelmente dentro dessa temática da construção da identidade e nos faz questionar se o desconhecimento acerca do outro nos prejudica ou nos previne o sofrimento. Primeiramente, diremos que Destinos e Fúrias é uma obra sobre um casamento e é dividida em duas metades: uma reservada ao esposo, Lancelot, e outra reservada à esposa, Mathilde – não considero como dois pontos de vista diferentes, já que nenhum dos dois personagens é narrador. Existe uma reviravolta importante em um dado momento do livro que será mencionada aqui, então caso você ainda não o tenha lido, talvez queira ler este texto depois.

Algumas das questões mais importantes que o livro busca levantar são: é possível que um casal que esteja junto há vinte anos não se conheça? Que tudo que um sabe sobre o outro esteja errado? Que um só veja no outro aquilo que o outro deseja que ele veja ou suas próprias projeções? É necessário saber tudo sobre o outro para amá-lo? É verdade que aquilo que não sabemos sobre o outro não pode nos ferir? Neste caso, seria a ignorância uma vantagem?

A autora faz um trabalho magistral ao entrelaçar a história do casal com elementos da mitologia grega, costurando o doméstico ao divino, entidades gregas a sereias de aquário, Atenas à Flórida. Na primeira metade do livro, somos apresentados a um casamento perfeito – ou tão perfeito quanto um casamento pode ser. Mesmo depois de 20 anos juntos, Mathilde e Lotto não discutem, não os vemos brigando, não há a presença de elementos comuns em relacionamentos longos, como ressentimentos, implicâncias, tédio, eles têm uma vida sexual ativa e apreciam a companhia um do outro. O elemento destino, que aparece no texto de maneiras variadas, já se apresenta sutilmente na primeira vez em que Lancelot vê Mathilde e a pede em casamento. Lancelot, que nos é descrito como um ser radiante, que conquista todos os homens e mulheres à sua volta, que tem uma vida sexual intensa e até aquele momento é incapaz de se ver em um relacionamento, decide que aos 23 anos quer se casar com Mathilde ao vê-la por acaso em uma festa. Parece ao leitor que aquele relacionamento tem um quê de divino – já decidido pelas moiras tecedoras do destino. Aqui é muito interessante já ver o jogo que a autora faz com a percepção de dois personagens diferentes sobre um mesmo evento, recurso que ela utiliza em outros momentos da obra. Para Mathilde, seu encontro com Lotto não só é totalmente orquestrado como sua resposta para o absurdo pedido de casamento é inteiramente diferente do que a resposta que ele entende e reconta durante toda a sua vida.

Nesta primeira parte do livro, nos concentramos basicamente em Lotto, diminutivo de Lancelot (e aqui é interessante observar a ironia do apelido, já que lotto em inglês é um jogo de loteria, uma associação direta com a sorte, ideia que se contrapõe à ideia de destino). Desde o seu nascimento, todos ao redor de Lotto acreditam e verbalizam que ele está destinado a algo grandioso. De início, vemos apenas seu imenso carisma, sua sensibilidade e o acaso como principais motores do sucesso e da fama que de fato acabam se realizando. Em determinado momento, Lotto desiste da carreira de ator, se encontra como dramaturgo e se torna um autor reconhecido e realizado. Na segunda metade do livro, vemos o destino de Lotto menos como um fruto do acaso e mais como uma profecia autorrealizada, uma vez que as pessoas que enxergam nele a tal grandiosidade passam a agir para que este predicamento se torne realidade. Assim como na mitologia, Lotto não está à mercê da sorte, mas sim tem seu destino traçado de maneira invisível aos seus olhos por três mulheres: sua namorada de adolescência Gwen, sua mãe Antoinette e sua esposa Mathilde. Cada uma age à sua maneira para que a vida de Lotto transcorra da maneira menos tumultuada possível. O texto faz, de certa forma, uma brincadeira com a crença de que “por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher”, provérbio que relega as mulheres à condição de guardiãs da tranquilidade da vida doméstica enquanto os homens permanecem nos holofotes, já que no caso de Lotto, visto pelo mundo como um homem esplêndido, há ali três mulheres cujo trabalho de bastidores é o de limpar o seu caminho.

Próximo ao final do livro, descobrimos que Gwen, paixão adolescente de Lotto, ficou grávida na única relação que tiveram. A menina procura então Antoinette, mãe de Lotto, para que juntas cheguem a um entendimento sobre o que deve ser feito. Decidindo que o futuro de Lotto não pode ser comprometido por este “equívoco”, ambas concordam que Gwen deve isolar-se durante a gravidez e encaminhar o filho para adoção assim que der a luz. Após o nascimento do bebê, entretanto, Gwen comete suicídio, saindo assim definitivamente da vida de Lotto, que nunca chega a saber da existência da criança. Já a mãe de Lotto tenta controlar sua vida chantageando Mathilde ao longo de anos para que ela o deixe, já que a considera uma interesseira. Mathilde, por sua vez, é a Moira definitiva do destino de Lotto. Desde o primeiro momento em que se encontram, planejado por ela à perfeição, até o último dia em que estão juntos, Mathilde está sempre no controle de tudo. A partir do momento em que se casam, ela coordena a vida do marido das mais diversas maneiras – afastando-o de sua mãe, reescrevendo seus textos, manipulando e chantageando pessoas influentes para que suas peças sejam montadas, tomando conta de absolutamente todos os aspectos de sua vida para que ele mesmo nunca tenha que se deparar com nenhuma dificuldade, sofrimento ou rejeição.

Se prestarmos atenção detalhada a Lotto na primeira parte do livro, veremos que, apesar de extremamente carismático, ele é um personagem autocentrado, egoísta, mimado, capaz de enxergar apenas a si mesmo. Em determinado momento da história, Lotto está falando sobre o seu relacionamento com Gwen e simplesmente esquece o seu nome, novamente demonstrando diferentes desenlaces de um mesmo encontro — a Gwen, não resta nada, nem a vida; a Lotto, uma família, uma vida inteira pela frente, o sucesso. O desconhecimento de Lotto sobre o que aconteceu após sua relação com Gwen permite que ele seja capaz de viver uma vida plena e despreocupada, enquanto para ela há apenas a culpa, o remorso e o vazio. Em outro momento importante do livro, durante um evento literário, Lotto faz um comentário absolutamente estúpido sobre as “esposas dos artistas” e o papel fundamental que elas desempenham tomando conta da vida dos homens para que eles possam dedicar-se à arte. Ao se ver hostilizado pela plateia, Lotto esconde-se do público e deixa o teatro muitas horas depois. Para voltar ao hotel onde está hospedado com Mathilde, Lotto não possui dinheiro, nem cartões – cuidar dessas coisas é atribuição de Mathilde – então ele caminha durante horas até chegar ao seu destino. Essa cena patética mostra a ignorância em que se encontra Lotto, que falha em compreender não só sua esposa e seu papel em sua vida, mas que sequer sabe se portar como um adulto que faz parte do mundo, tamanho o seu egocentrismo. Em um terceiro momento, Lotto se apropria de uma história de infância de Mathilde e a conta em um programa de rádio como se fosse sua — só se dando conta do que fez ao ser repreendido por ela.

Enquanto Lotto nos é apresentado como um personagem que exala paixão e carisma, Mathilde é quase seu oposto — fria, impassível, contida, inabalável. A Mathilde que conhecemos da primeira parte do livro é quase o “anjo do lar” de Virginia Woolf em Profissões para Mulheres e outros artigos feministas:

Imensamente encantadora. Totalmente altruísta. Excelente nas difíceis artes do convívio familiar. Sacrificava-se todos os dias. (…) Em suma, seu feitio era nunca ter opinião ou vontade própria, e preferia sempre concordar com as opiniões e vontades dos outros. E acima de tudo – nem preciso dizer – ela era pura.

 

A Mathilde que Lotto enxerga é esta, agradável, aprazível. Lotto acredita que Mathilde era virgem até o casamento e refestela-se em sua pureza — ideia que é posteriormente desmentida. No final da primeira parte do livro, aprendemos que há algo de estranho no passado de Mathilde, revelado a Lotto por seu melhor amigo meses antes de sua morte. As revelações da segunda parte do livro são muitas — Mathilde é francesa, tem outro nome, matou seu irmão quando criança (será?), prostituiu-se para pagar a faculdade, planejou casar-se com Lotto pelo seu dinheiro, fez um aborto e ligou as trompas, reescreveu os textos de Lotto, chantageou seu tio para que a primeira peça de Lotto fosse montada — mas a obra nunca assume um tom de suspense e sua força não se apoia inteiramente nessas reviravoltas.

Dentro das revelações sobre Mathilde, talvez a mais interessante seja a de que ela editou todo o trabalho do marido desde o início, sem o seu conhecimento. Esse fato torna o discurso de Lotto sobre as mulheres como “cuidadoras da casa” ainda mais absurdo e justifica Mathilde ter se retirado do teatro onde ele se apresentava. Em um momento irônico do livro, Mathilde faz um comentário sobre Shakespeare que pode ser entendido como um comentário sobre a própria obra de Lotto — ela diz que, apesar de Volumnia ser a principal agente de Coriolano, ninguém assistiria a uma peça chamada Volumnia. Era preciso ter um protagonista masculino, um título masculino, um tema masculino. Anos depois, após Mathilde ter se tornado uma artista consagrada por sua própria obra, ela publica uma peça chamada Volumnia sob um pseudônimo. E o teatro fica vazio. Voltando à Virginia Woolf:

Quer dizer, na hora em que peguei a caneta para resenhar aquele romance de um homem famoso, ela logo apareceu atrás de mim e sussurrou: ‘Querida, você é uma moça. Está escrevendo sobre um livro que foi escrito por um homem. Seja afável; seja meiga; lisonjeie; engane; use todas as artes e manhas de nosso sexo. Nunca deixe ninguém perceber que você tem opinião própria. E principalmente seja pura.

 

Na segunda metade do livro, devidamente intitulada Fúrias — entidades gregas vingativas que castigavam principalmente aqueles que pecavam contra a família — descobrimos que aquilo que reside dentro de Mathilde não se assemelha em nada à passividade e à cordialidade que Lotto enxerga. A personagem revela sua ira, seu controle inabalável de suas emoções e sua capacidade quase infinita de manipulação da realidade que cerca seu marido. Como uma Medeia flamejante sobre o carro do deus Sol, furiosamente insultada por ter tido seu passado revelado e ter perdido seu marido, Mathilde planeja e executa uma vingança cruel sobre seu tio, sua família, e principalmente sobre Cholly, o melhor amigo de Lotto.

Uma das propostas mais interessantes do livro é justamente a de nos fazer questionar o valor da verdade: nos perguntamos se a revelação das mentiras que cercam este relacionamento deve necessariamente desabonar tudo o que se passou entre o casal. O que Lotto não soube, enquanto ele não soube, não o pode ferir. Tudo o que Mathilde planeja, suprime ou esconde dentro do relacionamento é feito visando o que ela acredita ser a felicidade de Lotto — e de fato sabemos pelo narrador que ele foi feliz durante todo o tempo em que desconheceu o passado da esposa.

Negando a raiva e a maldade que acredita viverem dentro de si, Mathilde é capaz de dar a Lotto o relacionamento que ele quis. E ambos foram felizes (apesar de ou por conta das mentiras?). Não são as mentiras de Mathilde que estragam o relacionamento, e sim a revelação das mesmas por Cholly. As nossas perguntas então passam a ser: será que um relacionamento só pode ser feliz quando deixamos de ser nós mesmos e nos tornamos a pessoa que nossos parceiros nos enxergam como sendo? Será necessário suprimir alguma parte de nós para que sejamos o que o outro deseja?

A obra trabalha de maneira muito consistente essa questão do encontro impossível entre duas pessoas. Terminamos nos questionando o quanto é possível sermos nós mesmos dentro de uma estrutura social que requer tantos elementos para que duas pessoas compartilhem uma vida durante um tempo. A Mathilde que é desconstruída na segunda parte de Destinos e Fúrias não é pura, nem agradável, nem amena. Ela é, sim, determinada, furiosa, vingativa, fortíssima. Ela não é mais a mulher que seu marido quis tanto enxergar nela e que o fez feliz durante tanto tempo.

Conhece-te a ti mesmo, se conseguir. Conhecer o outro talvez seja difícil demais.


Texto de Cíntia Nogueira

Ilustração de Beatriz Leite

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