Difusa a maneira de Clara, em Aquarius (2016), de Kléber Mendonça Filho, reagir à pressão da construtora para que ela desocupe seu apartamento. Em boa parte do filme, sua ação é a inação. É fechar a porta, soltar os cabelos, ouvir música, beber vinho. Alguns virão aí um sinal de placidez, de sobriedade; outros, de negação. Clara espera que os executivos desistam do negócio de uma vez.

A certa altura, ela recebe os homens à porta e diz, tranquila, não estar interessada. Passa o ato seguinte rejeitando a proposta de compra, escorregada pelo vão da porta pelos empresários. No meio da disputa, de teimosa (a vida segue, a vida segue), contrata serviço de pintura para a fachada do prédio onde mora só. Ainda assim, a resistência de Clara é praticada direto da rede da sala. Clara é a mulher que resiste dormindo embalada no balanço, enquanto a diarista prepara o franguinho do almoço. Resistir deitada na rede é para quem pode.

O último terço do filme revela outras morais. Clara abandona a rede de balanço na sala e recorre a outra, a dos amigos influentes, para tentar se livrar da perseguição dos gananciosos.

A poesia da última cena sintetiza o clima de Aquarius, filme de sensações sobretudo simpáticas, nostálgicas, de sorrisos embalados por trilha sonora popular, boa cinematografia (que beleza ver Clara bailando ao som de Roberto Carlos e a tela de reforma bailando na fachada do edifício). Aquarius é um filme bonito, fala de viuvez com delicadeza, das cicatrizes de um câncer de mama com cuidado, de saudade. De doer-se pelo que realmente importa na vida. Da memória ligada aos objetos que nos rodeiam. Mas, quando escapa para a reflexão social, escorrega. Não é no conflito social que reside seus méritos: é na ternura de alguns recortes, em cenas-videoclipes, recurso que tanto o cinema autoral como o de Hollywood já viram antes. E tudo bem.

Mas Aquarius já não é um filme. É outra coisa. Talvez já não fosse um filme lá atrás, em Cannes. Nas redes sociais, que pegam fogo por qualquer bobagem, Sonia Braga foi chamada de comunista. Kléber Mendonça é espinafrado por fãs de Reinaldo Azevedo. Ato reflexo ao protesto político, o público se dividiu em dois, mesmo antes de o filme estrear: metade foi seduzida pela boa repercussão estrangeira ao longa e passou a ignorar seus cinzas (e também seus não-ditos). Outra metade o achincalha, sem provar de que matéria ele é feito. É pena: Aquarius é um filme melhor quando se assume menor, menos megafone.

Daqui a alguns anos, talvez nos lembremos de Aquarius como o filme do “Fora Temer”, embora nada na tela justifique a expressão. Um extraterrestre bem informado sobre o país (e sobre sua emburrecedora polarização política) sairia espantado da sessão de cinema, encerrada sob aplausos e gritos. O que está na tela não é “de esquerda”. Clara não pode, jamais, ser comparada a Dilma. A realpolitik é muito mais complexa — em um país menos delirante, não toleraríamos sequer a aproximação. Senão, vejamos: em seu único momento explosivo, Clara ofende Diego, herdeiro da construtora, chamando-o de elite burra — ela, que lá pelas tantas revela ser dona de outros cinco imóveis na cidade, e que nos estertores do filme apela para a camaradagem de colegas de jornal para descobrir os podres dos empresários. Clara, nos finalmentes, decide carteirar. Se a briga contra o capital e a especulação imobiliária forem a briga de Clara (algo que não está assim tão claro), se Clara for mesmo Dilma — a ex-presidente que maltratou a população indígena e que tirou Belo Monte do papel—, Kléber pinta uma protagonista nada heróica.

Em entrevistas pós-Cannes, Kléber nos obriga a aceitar que a salvação do país precisa ser intermediada pela elite intelectual representada por Clara, muito menos classe média baixa do que gostaríamos de admitir, gente que, décadas atrás, podia comprar um apartamento de frente para o mar em Boa Viagem. Clara é elite conciliatória, fuma maconha, é “mulata” (a cor da pele de Clara é lembrada pelo herdeiro da construtora) e amiga do povo (não de qualquer povo, já que evangélicos são colocados no pólo do incômodo), em oposição à grosseria especulativa dos homens de negócios.

Que Horas Ela Volta? (2015), de Anna Mulaiyert, também transformou-se, de modo que a maioria das impressões cristalizadas no imaginário o ressignificam. A película está cravada de estereótipos (Bárbara, a patroa branca megera x Val, a diarista nordestina de alma boa) pouco conciliatórios, e o público riu nervoso das cenas entre Val, Bárbara e Jéssica, a filha de Val que surge para desestabilizar as relações da casa. Na sessão em que estive, dois casais de meia-idade criticavam a falta de verossimilhança das personagens: “Não existem mais Vals, não existem mais Bárbaras”. Mas elas existem, diluídas em milhares de relações patronais. Jéssicas-mães-solteiras-que-passam-em-arquitetura-na-USP são infelizmente mais difíceis de encontrar. Ainda assim, Anna colecionou elogios e dedicou boa parte dos prêmios que o filme recebeu a Lula e Dilma, responsáveis pelos programas de educação que levaram milhões de jovens da classe C às universidades… particulares, não públicas. Em entrevistas, Anna parecia querer discutir toda questão em voga no país, do trabalho doméstico ao feminismo, do lulismo ao preconceito de classe, mas o filme datou-se em menos de um ano, a pujança política e social se esfacelaram.

Aquarius é muito mais sutil que Kléber. Em Que Horas Ela Volta?, falta sutileza. Em ambos, há patroas e diaristas, filhos mimados e babás, mulheres que trabalham fora, forró e gafieira, homens insignificantes impondo vontades pela força do dinheiro. Aquarius coloca a elite intelectual num papel social menos constrangedor, menos casa-grande, o que talvez seja responsável pelo clamor de parte da audiência que, aliviada, celebra Clara. Agora, cá entre nós: ela só quer dançar em paz. Ninguém sabe como termina o drama do apartamento — talvez Clara viaje. Talvez faça o mesmo que Fabinho, o filho de Bárbara que não passou no vestibular e decidiu espairecer na Austrália.

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