Folhetim: Capítulo 1

 

Na noite em que decidi matar o meu amor, o céu parecia um colar de diamantes. Cada estrela tinha um brilho trágico. Indo a mais de 90km/h na Bandeirantes, as mãos trêmulas agarradas ao volante, eu olhava para o anel em minha mão esquerda e respirava fundo para não vomitar. A voz do Camilo parecia ecoar pelas caixas de som. Você terá tudo o que quiser na vida. Meu noivo era muito ambicioso: um apartamento simples não seria suficiente, tampouco um anel de noivado discreto; ele queria o melhor que havia no mundo, uma vida capaz de despertar inveja. Passando por dezenas de prédios da zona Sul naquela noite, vendo as janelas iluminadas e as silhuetas das pessoas se movimentando dentro delas, eu sentia um soco no estômago. Qualquer uma daquelas vidas teria me bastado. Você merece mais do que isso, a voz do Camilo sussurrou no meu ouvido. Pisei fundo no acelerador. No final das contas, eu só queria ter sido feliz — era só isso que eu queria. Mas para algumas pessoas, a felicidade é que nem pastel de palmito na feira: você espera uma eternidade na fila e quando chega a sua vez, acabou.

Eu me lembro do dia em que nos conhecemos. Eu trabalhava na cabine de recarga do bilhete único, na Consolação. Tinha prestado concurso para um emprego que em alguns anos seria realizado por máquinas, mas que na época eu exercia sentada oito horas por dia em um cubículo, sob a luz tediosa de uma lâmpada que sugava as cores da tarde. A janela da cabine tinha vista para um mar de pessoas. Não tinha como escapar: a cada minuto, uma onda de passageiros avançava em minha direção — jovens, casais, idosos, mães com crianças famintas a tiracolo, tantos rostos impacientes enfileirados que no fim, perdiam a forma; ver milhares ou apenas um dava no mesmo. Nos raros instantes em que conseguia responder um SMS ou me alongar na cadeira, uma voz distorcida me interrompia pelo microfone: “Coloca vinte reais, por favor. Tem troco para cinquenta?”

Em uma tarde quente de abril, um sotaque cremoso ecoou dentro da cabine. “Como faço para chegar no Cambuci?”. Olhei para cima e vi um rapaz de pele de canela, o último tom de rosa antes do marrom. O cabelo castanho e cacheado descia até os ombros, as sobrancelhas em meia-lua contornavam os olhos de amêndoa, os lábios eram finos, o nariz, comprido e anguloso como o bico de uma ave rara. Ele parecia ter perto de trinta e vestia uma camisa azul-clara, tinha a barba por fazer e uma expressão de cansaço no rosto, e talvez porque eu estava cansada e não eram nem três da tarde, porque faltavam quatro dias até a minha folga, porque não lembrava da última vez em que tinha ouvido o canto de um pássaro, olhei para aquele rosa quase marrom, o céu infinito daquela blusa, o triângulo do nariz, e por um minuto foi como se não tivesse pulmões.

— Moça?, a voz aveludada perguntou.

— Desce no Brás ou na São Joaquim, falei gentilmente.

— Obrigado.

Os segundos perderam as cores conforme ele foi se afastando. Pensei que nunca mais o veria.

Na tarde seguinte, ouvi a mesma canção: “A São Joaquim continua no mesmo lugar?”. Eu não costumava sorrir no trabalho, e me lembro de ter estranhado o eco da minha risada na cabine, como se uma versão feliz de mim mesma trabalhasse na cadeira ao lado. Com o rosto em chamas, quebrei o protocolo: saí do cubículo e ficamos frente a frente. Nós éramos da mesma altura. A camisa dele era vermelha.

“Não tenho certeza”, respondi. “Vamos conferir?”. Apontei para o mapa na parede do metrô. Eu senti o calor dos olhos dele em minha mão. “Sim, continua no mesmo lugar”.

— Vai estar lá de novo amanhã?

— Você vai ter que me perguntar amanhã.

— Rita?, ele apontou para o meu crachá.

Fiz que sim com a cabeça. Ele estendeu a mão para mim e apertou a minha com firmeza.

— Prazer, Camilo.

* * *

Seis meses depois, ele me pediu em casamento. Eu queria tanto um enredo simples: ele ajoelha e faz o pedido, eu aceito, nós compartilhamos uma história longa e bonita e morremos juntos no final. Mas isso é coisa de cinema. Na vida real, uma pessoa sempre morre antes da outra. Na vida real, você olha para tudo o que sempre sonhou, respira fundo e aperta o gatilho.

Continua...


Este é o primeiro capítulo do projeto Folhetim, um romance aberto em que cada  conto-capítulo foi escrito por uma autora diferente. A proposta era que os contos formassem, em conjunto, uma história completa. 


Texto de Flávia Stefani Resende

Ilustração de Beatriz Leite

 

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