Folhetim: Capítulo 7

 

—Rita Gomes Fernandes? É isso?
— É sim.

—Aqui diz que a senhora proferiu três disparos de revólver taurus 605, no dia 17 de fevereiro de 2013, por volta das 22 horas e 30 minutos, contra o senhor Camilo Fonseca de Jesus, está correto?
— Não, senhor. Não do jeito que está aí nesse papel, assim parece fácil, que fui lá e pow, nunca é lá e pow, essa justiça é de uma frieza.

— Senhora, limite-se às perguntas. A senhora matou o senhor Camilo, seu marido, no dia 17 de fevereiro?
— A gente tinha saído. Estava casada fazia o que, três anos, três anos e quatro meses, é, ia fazer no dia 25. Não agora, do ano retrasado, quando ele morreu. A vida não era ruim. Ele trabalhava de auxiliar administrativo, se bem que nunca entendi direito que porra é isso. Ah, desculpa, não sabia que não podia falar porra. O que ele queria era ser cantor. Não cantava muito bem, mas eu não tinha coragem de falar. Dá uma pena, fazer mal pra quem a gente gosta. De fim de semana a gente ia no karaokê. Eu bebendo caipifruta de morango e ele lá “e se de dia a gente brigaaaa”. Desculpa, não sabia que não podia cantar. Agora eu sei, sem porra e sem música. Foi uns dois meses antes dele tomar os tiros. Ai, quanto sangue, meu deus, a boca dele babando uma gosma, não era só sangue, sabe, tinha uma coisa grossa que parecia cola, será que veio do estômago?

— Senhora? A senhora estava contando do karaokê. O que aconteceu nesse dia?
— A gente estava feliz, sabe? Na medida do que dá pra ser feliz em uma vidinha de merda. Hein? Merda também não? Tá. Então, a gente era feliz, mas só um pouco. A gente bebia, chegava em casa e transava. É que nesse dia eu não queria de jeito nenhum. Eu tava com infecção de urina, tudo inflamado. Cheguei no quarto e ele de cueca, os dois braços cruzados na nuca, aquele jeito de homem quando quer. Já cheguei falando que não ia dar, eu tava toda bichada. Ele falou que me amava umas dezoito vezes, que eu era a mulher da vida dele. Falei hoje não, amanhã, quem sabe? Quem é que sabe de amanhã, meu deus? Eu já tinha pegado no sono quando senti ele tentando enfiar em mim. Gritei e ele tampou minha boca, fazendo shiiii no meu ouvido. Depois destampou, sabia que eu não ia gritar, eu tava triste demais pra gritar. Fiquei chorando, ele falando que já ia acabar. Demorou uma eternidade, ele demora quando tá bêbado. Terminou e dormiu, nem se lavou, o porco. Ai, desculpa falar dele assim, tá morto, né? Era meu marido, meu deus como era meu marido, a gente casou numa sexta, um calor desgraçado, fim de tarde, minha maquiagem derretendo que nem manteiga no fogo. Meu marido. Você precisava ver a gosma que saía da boca. Ele golfava sangue, meu sapato ficou todo respingado, era desses sapatos de camurça, sabe?
— Senhora, vamos nos ater aos fatos. Esse dia, dessa relação sexual que a senhora descreveu, foi o dia da morte?
— Não, não, dois meses antes. Depois disso aconteceu alguma coisa, eu não sei dizer porque foi dentro, sabe? Por fora tudo normal, dia seguinte me fez um chá de salsa, pronto socorro por causa da urina, antibiótico, uma semana cuidando de mim como se eu fosse criança. Até tive vontade de ter filho com ele. Antes eu não queria, ficava pensando onde ia deixar, com quem? Naqueles dias tive vontade de filho. Mas se tivesse filho, era capaz de nascer sem perna, orelha, cotovelo, não sei, eu tava quebrada.

— Senhora, mais uma vez, os fatos. O que aconteceu no dia 17 de fevereiro?
— No dia 17 de fevereiro? No dia 17 de fevereiro morreu o amor da minha vida, fiquei viúva, sem marido, se já tava quebrada, depois disso fiquei estilhaçada. A minha mãe tinha um prato de louça japonesa que ficou assim, estilhaçado, nunca vi tanto caco.

— A arma, a que matou o senhor Camilo, era sua?
— Não, não, não tenho arma nenhuma, nem gosto. Apareceu lá. Na quarta não tinha nada, na quinta apareceu. Dentro do vaso de vidro que que fica na mesa. Uma vez ele que foi pra Porto Ferreira fazer bico e voltou com o vaso. Nem era bonito, mas ele deu. Foi ele.

— A senhora pegou essa arma, a que estava no vaso e atirou nele, foi isso? Teve alguma briga, discussão?
— Ele deitou no sofá de braço na nuca. Eu não queria, depois daquilo não queria nunca mais, ainda hoje não quero.

— Ele convidou a senhora para ter relação, foi isso? A senhora se irritou e acabou atirando?
— Ele ficou lá, as mãos na nuca, o volume da cueca tava dizendo, nem precisava falar. E se doesse, meu deus, se eu quebrasse mais e mais, como é que ia colar? E se ele demorasse vinte minutos, duas horas, se não saísse nunca mais de dentro de mim, ficasse lá fazendo shiiiii no meu ouvido e dizendo que já ia acabar, mas não acabava. E se nesse dia a semente dele vingasse em mim, ia ter filho sem braço, sem cabeça? Ia deixar onde essa criança sem perna? Ele não falou nada. Só veio vindo. O primeiro foi no peito, ele caiu e falou que me amava. Eu também, meu amor, eu também. A cueca ainda inchada, o segundo tiro na barriga, foi esse que estourou o estômago. Teve um no pescoço. Uma sangueira, deus meu, quanto sangue, misericórdia. O tapete da sala joguei fora, a mancha que ficou, nem com cloro, nada. Sentei do lado dele e um fio escorrendo do ouvido. Passei o dedo e botei na boca. O amor tem gosto de ferro.

Continua


Texto de Maria Fernanda Elias Maglio

Ilustração de Celeza Ramalho

Este é o sétimo capítulo do projeto Folhetim, um romance aberto em que cada  conto-capítulo foi escrito por uma autora diferente. A proposta era que os contos formassem, em conjunto, uma história completa. 

Leia os capítulos anteriores aqui:

Capítulo 1: Consolação, por Flávia Stefani Resende

Capítulo 2: Clipes de papel, por Bruna Dantas Lobato

Capítulo 3: Lua de mel, por Paloma Zaragoza

Capítulo 4: Filme de amor, por Sofia Sofer

Capítulo 5: A timeline da bala, por Francine Bittencourt

Capítulo 6: Dedinhos de tiranossauro-rex, por Mariana Caló

 

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