Folhetim: Capítulo 8

 

Eu não só prometi dar tudo o que Rita quisesse na vida, eu dei a ela tudo do bom e do melhor, sempre. Até porque muita coisa pode ser melhor do que uma bilheteira pode conseguir: um apartamento, um anel e, claro, eu. Não que eu seja o melhor homem do mundo, tenho meus defeitos, mas, amar a Rita como eu amei, nunca nenhum homem amaria. O que mais uma mulher pode querer?

Se arrependimento matasse… eu estaria morto duas vezes. De que adiantou amar tanto? Amei desde o primeiro dia na Consolação, no pedido de casamento, na praia-caipirinha-sexo diários da lua de mel, nos karaokês e transas-delícia que fechavam a noite, em cada cuidado que dediquei a ela. Em todos os milhões de “eu te amo”, calculadamente ditos, porque mulher é assim, não adianta dar presente, demonstrar, é pouco. Tem que falar eu te amo ao sair pro trabalho, eu te amo ao chegar em casa, eu te amo no jantar, eu te amo no cinema, eu te amo na bebida, eu te amo na cama, ao pé do ouvido. O que mais uma mulher pode querer?

Eu a amava como meu bem mais precioso, não aquele que se guarda num cofre, escondido, em segredo. Não. Rita era meu bem mais precioso guardado majestosamente numa câmara de vidro blindado, iluminada pela melhor luz para destacar e exibir aos olhares alheios e cobiçosos: eu tenho, você não tem. O que mais uma mulher pode querer?

É verdade que nos últimos tempos o sexo já não era tão bom. Eu precisava me esforçar para quebrar a barreira de frescura que, do nada, ela começou a criar entre nós. Mas era um eu te amo aqui, um carinho ali, mãos no lugar certo e pronto. Eu mostrava pra ela que eu era o cara.

Mas descobri que nada é suficiente para uma mulher. Ou nada foi suficiente para Rita, anjo transformado em demônio. Rita cuspiu no prato que melhor comeu. Ingrata. Eu todo oferecido, um presente, no lugar que foi tantas vezes palco de nosso sexo natural de marido e mulher.

Sem falar nada, ela atirou. Não sei quantos eu te amo eu consegui dizer. Ela disse que me amava também. Como entender as mulheres? E por que atirou de novo? Uma gosma metálica abafava minhas palavras. Rita, eu te amo, Rita. Não atire, Rita. Vem aqui, Rita. Eu não te dei tudo o que você merece? Não era tudo o que você queria?

Eu te amo. Eu te amo.

A gosma me silenciava.

Eu só escutava o tum tum tum, mas dessa vez de longe, ali do chão.

Onde foi que eu errei?

Fim


Texto de Cátia Luciana Pereira (Catita)

Ilustração de Carolina Nazzato

Este é o capítulo final do projeto Folhetim, um romance aberto em que cada capítulo foi escrito por uma autora diferente. A proposta era que os textos formassem, em conjunto, uma história completa. 

Leia os capítulos anteriores aqui:

Capítulo 1: Consolação, por Flávia Stefani Resende

Capítulo 2: Clipes de papel, por Bruna Dantas Lobato

Capítulo 3: Lua de mel, por Paloma Zaragoza

Capítulo 4: Filme de amor, por Sofia Sofer

Capítulo 5: A timeline da bala, por Francine Bittencourt

Capítulo 6: Dedinhos de tiranossauro-rex, por Mariana Caló

Capítulo 7: Interrogatório, por Maria Fernanda Elias Maglio

 

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