Folhetim: Capítulo 6

 

 

Vinte miligramas de melatonina, dois Dorflex e um Dramin não foram suficientes para pôr no esquecimento, nem que fosse por algumas horas, a noite em que atirou no marido. Algo mais forte era necessário, mas não poderia ter nenhuma substância ilícita no sangue, ia piorar tudo, eles diziam. Tomou um banho meticuloso; braço, joelho, xoxota, recebiam da esponja vegetal força, veredicto e espuma. A água batia nos ombros, ruborizando e fazendo a pele arder, limpando por fora e desesperando por dentro, o sabão de coco emanava cheiro inocente, a última vez que receberia adstringência e atenção.

Os pés molhados em contato com o tapete felpudo e tomar banho descalça era delicioso, mesmo que o banheiro não contasse com todos os azulejos, muito menos com espaço para levantar os braços e pentear os cabelos na frente do armário-espelho; os cotovelos batiam na parede e no box. Uma pontada aguda a interrompeu: um caco do frasco de esfoliante com sal grosso, que Camilo havia encomendado especialmente para que ela renovasse as energias — mas ontem o segurou firme e bateu na pia até estilhaçá-lo, nas mãos dela restaram pequenos cortes, umas marcas como se tivesse escalado uma montanha rochosa —, perfurou sua sola esquerda, manchou o piso bege de vermelho-vivo.

O furo no pé latejava e Rita deu um sorriso de satisfação; sentiu alguma coisa. Abaixou a tampa e sentou molhada no vaso, respirou fundo e gargalhou, tentava parar, fechava os lábios com força mas não conseguia, riu muito, tanto, chegou a doer a barriga.

* * *

Do lado de fora, bronca e descrédito; não é permitido entrar sem sapato fechado, você não recebeu as instruções? Do lado de dentro, com autorização especial, chinelos e gaze.

Olhos fixos no conjunto verde e amarelo e crucifixo de respeito, iguais àqueles que encarava há algum tempo, quando usava saia um palmo acima do joelho e hasteava a bandeira com orgulho, acompanhada de corneta e tum tum tum no peito. Agora, o ritmo dentro dela, esses batimentos que poderiam participar de uma escola de samba, não estavam apenas na região do coração, mas em seus ouvidos, na garganta, na barriga, no curativo que envolvia o pé. Tinha certeza: todos conseguiam escutá-lo.

* * *

O beijo dele tinha cheiro de baba e gosto de fome, a palma da mão suada media uma rodela de limão, e os dedinhos? Um tiranossauro-rex. Mas ele tinha dado o anel, não qualquer anel. Também teve a viagem para o nordeste em um hotel com aula de hidroginástica e origami. Tudo para ela, a coisa mais preciosa do mundo.

Quando tudo ficava escuro, Camilo encostava no peito dela e sentia o tum tum tum; não precisa ficar nervosa, Rita, só estou fazendo carinho, eu te amo. Eu sei, eu também te amo, você foi a melhor coisa que poderia acontecer na minha vida. Empurrava a moça até que caísse de costas na cama, abria o cinto, o zíper, levantava a saia com uma mão e, com os dedos minúsculos da outra, empurrava a calcinha para o lado. A coisinha dele entrava; era rápido e asqueroso.

* * *

Escutava o falatório de quem a enxergava como peça de jogo, avaliando todas as tacadas anteriores e o que deveria vir a seguir. Observava a sala vazia, tão diferente dos julgamentos das séries de tevê, séries que o Camilo escolhia para assistirem juntos nas noites de quarta-feira. Não naquela quarta-feira, tão presente em sua memória e tão distante, como que em um sonho.

Chegaram na entrada da estação, não entraram, Camilo olhou para Rita e decidiram vagar por aí. A noite não estava convidativa para um passeio, o céu mandava salpicos d’água, desnecessário abrir o guarda-chuva, mas suficiente para lembrar que algo indomável os acompanhava. Ele tentou buscar os dedos dela, que bruscamente os rechaçou; foram parar nos bolsos de sua calça jeans. A Rua Vergueiro foi se mostrando animada para aquele chove-não-molha, de um lado prédios de universidades com vidros espelhados repletas de estudantes entrando saindo gralhando bebendo paquerando, do outro, o Centro Cultural São Paulo com uma fila imensa, mais para baixo supermercados iluminados, carros nas faixas de bicicleta e pedestres nas faixas dos carros, crianças correndo, avós correndo atrás, ambulantes berrando não é carnaval mas é três por dez, mais uma universidade com vidros espelhados, e mais outra, e estudantes, e buzinas, até que os carros aumentaram a velocidade dos seus limpadores de pára-brisa, eles viraram em uma rua mais calma, começaram a correr, viraram de novo, encostaram em uma porta: Tequila’s Karaokê. Bora? Bora.

Continua


Texto de Mariana Caló

Ilustração de Carolina Nazzato

Este é o sexto capítulo do projeto Folhetim, um romance aberto em que cada  conto-capítulo foi escrito por uma autora diferente. A proposta era que os contos formassem, em conjunto, uma história completa. 

Leia os capítulos anteriores:

Capítulo 1: Consolação, por Flávia Stefani Resende

Capítulo 2: Clipes de papel, por Bruna Dantas Lobato

Capítulo 3: Lua de mel, por Paloma Zaragoza

Capítulo 4: Filme de amor, por Sofia Sofer

Capítulo 5: A timeline da bala, por Francine Bittencourt

 

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