Folhetim: Capítulo 3

 

Eu achava que amava Camilo, que aquele amor ia preencher cada vinco do meu corpo como rejunte de parede. Assim que ele, sob a luz fria de seu apartamento, que cheirava a suor e abandono em meio à fuligem do Minhocão, colocou em meu dedo um clips em forma de anel, eu achava que amava muito. A gente se casou e, assim que conseguimos tirar férias, saímos de lua de mel. Foi ali, entre tardes de sexo e porres de caipirinha, que o amor começou a se derreter como sorvete na praia: devagar, lânguido, viscoso.

* * *

Ainda sinto o cheiro de pólvora nos dedos. Remexo a bolsa procurando a arma, reverbera dentro de mim o som amargo da voz de Camilo me implorando para não atirar:

— Eu te amo, meu amor, eu te amo, não atire, Rita, não atire, pelo amor de Deus!

Quanto desespero, quanta desgraça adormecida havia em cada olhar que trocamos, em cada promessa feita entre lábios colados.

— Eu também te amo, Camilo.

Pow! Pow! Pow!

Assim, no peito, bem onde o coração batia, atirei no meu amor. É difícil explicar como chegamos aqui. Tento me lembrar agora dos primeiros dias. Sua mão sobre a minha no mapa da estação de metrô, o cheiro do mar na nossa lua de mel no Nordeste, destino dos meus sonhos de criança. Você fica linda nesse biquíni. São seus olhos, Camilo. Olhos de cachorro de raça que quer comer a vira-lata da Consolação. Como achei que daria certo? Que uma garota sem sobrenome, num emprego medíocre, teria direito a uma bela história de amor?

* * *

Embarcamos logo no primeiro dia de nossas férias. Rita, o resort que a gente queria estava lotado, daí achei essa promoção, mas é bem na praia que você queria. Mentiroso. Estava tensa enquanto fazia as malas, encarando meu anel. Levei comigo o Santinho Expedito que minha mãe me deu, escondido no fundo entre as roupas. Nesse dia, combinamos de nos encontrar no Terminal, mas me perdi nas estações, tropecei na escada rolante, estava nervosa. Não seja boba, Rita, nem virgem você é, o que te incomoda tanto? O que me incomoda tanto, meu amor, Camilo, você sabe?

* * *

O mais difícil foi o primeiro tiro, muito de perto, rente à blusa. O barulho da arma me assustou, deixei que caísse no chão. Camilo estendeu a mão direita na minha direção, tentou alcançar a minha saia. Eu me afastei um pouco, abaixei, peguei a arma e dei o segundo tiro. No terceiro, com as mãos firmes no gatilho, já não escutava mais nada, estava surda do barulho e da adrenalina. Quando veio o silêncio, olhei pela janela, a lua estava cheia e não havia estrelas no céu. Sentei ao lado de seu corpo e chorei. Toquei seu sangue e levei à boca. O amor tem um gosto metálico e morno, como eu nunca havia provado antes.

* * *

Mar quente e areia fina. Passávamos os dias deitados na praia, as mão dele percorrendo o meu corpo como mãos que se enfiam no buffet, com tédio e fome. À tarde, enquanto Camilo dormia, eu ia para aulas de dança ou artesanato. Voltava para o quarto, fazíamos amor. Vamos fazer o filho, Rita? Mas onde vamos colocar um filho naquele apartamento, Camilo? A gente compra um na Casa Verde, as crianças ainda brincam na rua por lá.

Um dia, acordamos antes do nascer do sol, caminhamos na praia vazia e brincamos de escrever as nossas iniciais com as conchas que encontramos no caminho. Ele tocou meu cabelo: Você é a coisa mais preciosa que eu encontrei e eu não quero te perder nunca, Rita. A gaivota levantou voo e sumiu, desejei voar com ela.

* * *

Quando saí do torpor, me dei conta do corpo de Camilo no chão do apartamento. Um fio de sangue escorria pelo ouvido dele e formava uma pequena poça junto à cabeça. Enxuguei meu suor na manga da blusa, peguei um travesseiro da cama e coloquei sob sua cabeça, limpei o sangue de seu ouvido, não sei por que. Lavei o meu rosto. Onde estão as chaves do carro? Abri a carteira dele e tirei o pouco de dinheiro que tinha, junto com sua identidade e seu cartão de crédito.

Na garagem, acelerei o carro e sai em direção à Avenida Bandeirantes. Fechei os olhos e pensei na gaivota, as penas úmidas balançando desajeitadas contra o vento até desaparecer.

Continua...


Este é o terceiro capítulo do projeto Folhetim, um romance aberto em que cada  conto-capítulo foi escrito por uma autora diferente. A proposta era que os contos formassem, em conjunto, uma história completa. 

Leia aqui o primeiro e o segundo capítulos.


Texto de Paloma Zaragoza

Ilustração de Carolina Nazatto

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