Tudo se ilumina à luz (dos horrores) do passado

“Para começar, é preciso ao menos pôr tudo em palavras.” — Svetlana Aleksiévitch, Discurso proferido na cerimônia do Prêmio Nobel de Literatura, 2015

 

O último texto que escrevi para a Deriva chamava-se “Recordar para existir” e tratava da relação entre o envelhecimento, a perda da memória e o senso de identidade. Não foi minha intenção escrever uma espécie de continuação para ele, mas me vejo voltando ao tema da memória. Desta vez, deixando de lado a memória individual e passando à memória coletiva, aquela que torna possível compartilharmos um legado e criarmos uma identidade como povo. 

O filósofo e sociólogo francês Maurice Halbwachs, criador do conceito de memória coletiva, diz que o entendimento individual do passado de um povo é fortemente ligado à natureza particular de um grupo e à experiência coletiva do mesmo. A memória individual não pode, portanto, existir independente deste entendimento coletivo, que reside fora do indivíduo. 

Ao pensarmos a memória coletiva do nosso país em sua história recente, fica claro que não existiu nenhum episódio mais violento, grotesco e desumano do que a ditadura militar que asfixiou o país por mais de 20 anos. 

Estima-se que 20 mil pessoas foram torturadas no Brasil durante o período. É um número que não permite o entendimento da tortura como exceção ou comportamento individual de certos agentes. Fica claro que o Estado foi aparamentado para ser uma máquina de matar dissidentes arbitrariamente. Atrocidades de tal magnitude deveriam permanecer na memória coletiva por muitos e muitos anos, como lembrança do quão cara nos foi nossa democracia, da sua fragilidade, e do quão violentos somos enquanto nação.

Entretanto, dados nos mostram que a Ditadura não está tão presente assim na memória do povo brasileiro: uma pesquisa do Datafolha conduzida em 2008 mostrava que 82% dos brasileiros nunca havia ouvido falar do Ato Institucional Número 5 (que, por sinal, completou 50 anos em 2018). 

No ano passado, o Instituto Tomie Ohtake montou uma exibição intitulada “AI-5 50 anos: Ainda não terminou de acabar”, com o intuito de exibir documentos históricos relacionados ao Ato Institucional, suas repercussões culturais e as obras artísticas concebidas e originadas no período. Apesar do tema ser de extrema relevância para todos os brasileiros, foi uma exposição curta, num bairro nobre, sem acesso a metrô e, consequentemente, reservada a um público restrito. O título escolhido para a exposição sugere um passado-presente, um cerceamento da liberdade que ainda não cessou, sugere que os frutos do AI-5 são colhidos até os dias de hoje.

Acredito não ser surpresa para ninguém que nosso presidente eleito, Jair Bolsonaro, já deu as seguintes declarações ao longo de sua trajetória política: “O erro da ditadura foi torturar e não matar”, “Pau-de-arara funciona. Sou favorável à tortura, tu sabe disso. E o povo é favorável também”, “A atual Constituição garante a intervenção das Forças Armadas para a manutenção da lei e da ordem”.

Sabemos que a memória (tanto a individual quanto a coletiva) é uma construção, e que fazemos escolhas conscientes e inconscientes do que permanecerá guardado em nossas mentes, uma vez que não temos a capacidade de guardar tudo. Como povo, escolhemos os momentos da história que serão transformados em memória coletiva e que nos guiarão enquanto grupo, dando sentido ao que é o Brasil e a quem somos como povo, qual o legado histórico e cultural que deixaremos, quem será escolhido como herói e que eventos desejamos registrar. 

A escolha pelo menosprezo da real dimensão da ditadura não deve ser entendida como ignorância. O apagamento direto do que significou o período, o revisionismo histórico e a tentativa de redução ou diminuição do que foi um dos momentos mais trágicos da história de um país só podem ser entendidos como um projeto político. 

Em um dos vídeos no seu canal no YouTube, o psicanalista e professor Christian Dunker explica um texto de Freud chamado “Recordar, repetir e elaborar”: Retornamos ao passado para reinventar um outro futuro. Enquanto não recordamos, repetimos. Quanto mais repetimos, mais estamos presos a um presente que não passa. 

Um projeto político-pedagógico deliberado em não falarmos sobre a ditadura, de a evitarmos, de a entendermos, como o presidente, como “uma ferida que tem que ser cicatrizada”, ou pior, de tentarmos reescrevê-la, nos impede de chegarmos ao processo de elaboração. Estamos, portanto, fadados a repetir, repetir, repetir. Fechar a ferida da ditadura e entender que ela “cicatrizou” não pode ser um caminho — ela precisa ser uma ferida que sangra para sempre, nos lembrando de quão próximos estamos, a todo o tempo, de termos uma recaída.

Daí, se precisamos nos lembrar, como o faremos? Penso que, além de um projeto político pedagógico, precisamos de arte e de materialidade.

Na obra da bielorrussa Svetlana Aleksievitch, vencedora do prêmio Nobel de Literatura em 2015, o protagonista é o próprio tempo, aquele que sempre gera seus seres — “O tempo é também uma pátria”, nas palavras da autora. A escritora viaja por diferentes regiões da extinta União Soviética em busca das histórias não contadas nos livros de história — as histórias das mulheres, dos camponeses, dos trabalhadores, de quem viveu os grandes eventos do seu tempo mas que nunca figurou nos documentos oficiais ou nos livros de história. Svetlana não busca a história das grandes personalidades e grandes ideias do seu tempo, mas os sentimentos de quem os viveu, os pequenos detalhes cotidianos que vêm a compor retratos de vidas comuns. 

Ao longo das publicações dos livros de Svetlana no Brasil, participei de vários clubes do livro que discutiam a sua obra. Em todos eles, mais de um participante expressava mais ou menos a seguinte opinião: “O livro é ótimo, mas há um excesso de depoimentos”. Fico pensando se essa reação comum à obra de Svetlana advém de transpormos nossa relação com a ficção para a não-ficção — e aí a repetição nos remete a uma falta de edição e de cuidado.

Eu entendo que o objetivo de Svetlana com sua obra é justamente compor um mosaico extenso, diverso, repetido, dito e desdito, onde o leitor irá construir verdades a partir de tudo aquilo que está ali. Não é um quebra-cabeças onde cada depoimento tem uma função ou ilustra um determinado aspecto de cada evento, é mais um mergulho dentro de um tempo, e um tempo só pode ser retratado e compreendido (em especial por aqueles que estão a uma distância físico-temporal dele) através de repetições, contradições e opiniões, estas semelhantes ou distintas. Na quarta capa de Vozes de Tchernóbil, primeiro livro da autora publicado no Brasil, lê-se “as palavras de seus personagens apresentam uma história quase sem fim de tragédias pessoais”. História sem fim. AI-5: Ainda não terminou de acabar. Nosso presente perpétuo. Recordar, repetir e elaborar.

Svetlana fez de sua vida jornalística um movimento em direção a tornar-se um imenso “ouvido humano” (nas palavras da própria autora), encontrando nas narrativas de pessoas comuns fragmentos de não só uma, mas de múltiplas verdades que, por fim, vêm a encontrar-se, e, dentro de sua polifonia, sincronias e contradições, pretendem formar um retrato de um tempo. 

Formar uma memória coletiva significa caminhar de encontro ao outro e conjugar várias verdades.

Aqui, creio que a arte encontra empecilhos. Seu poder sobre nossa capacidade de gerar empatia ao outro está atrofiado. Com o desenvolvimento de aparatos tecnológicos mais apelativos aos nossos sentidos e dotados da capacidade de nos transportar para outros lugares e épocas (como um óculos de realidade virtual a emular outros ambientes), nosso registro de empatia passou a ser também recalibrado. Parece que precisamos simular nossa presença em um evento para, somente desta forma, sermos capazes de sermos tocados por ele. É como se houvéssemos perdido a capacidade de sentir através do texto, de palavras, do relato, dependentes de uma verdade material que nos bata na cara para despertar a nossa capacidade de sentir e entender vicariamente. 

Recentemente, assisti a uma série do Netflix chamada Turismo macabro, em que o jornalista neozelandês David Farrier percorre o mundo atrás de atrações turísticas inusitadas. Em um episódio passado no México, Farrier e um grupo de outros 10 turistas embarcam em um tour chamado Night Walk, onde os participantes podem viver a experiência de se “transformar” em imigrantes mexicanos tentando entrar ilegalmente nos Estados Unidos. Durante 3 horas e 12 quilômetros, os turistas correm por terrenos irregulares, se arrastam por debaixo de arbustos, são agredidos e xingados pelos “coiotes” que os guiam. No meio do tour, um falso grupo de integrantes de um cartel interpela o grupo para roubar seus pertences e dar tiros para o alto. 

Na teoria, a experiência pretende conscientizar as pessoas sobre as dificuldades e perigos da travessia, prestando uma espécie de reverência às centenas de pessoas que morrem anualmente tentando entrar nos Estados Unidos (foram reportadas 294 mortes no ano de 2017).  Na prática, turistas da classe média urbana pretendem passar por uma experiência “exótica” e “bizarra”, ou se colocar em um lugar de perigo estando à salvo, meio como a sensação de adrenalina ao estar em uma montanha-russa ou trem fantasma. É o tipo de ideia que me parece já nascer de um pressuposto equivocado: o de que é preciso VIVER a experiência de atravessar uma fronteira ilegalmente para entender o sofrimento e o desespero das milhares de pessoas que o fazem em busca de condições melhores de vida, ignorando o ponto essencial deste desfecho que é o caminho desesperado que conduz essas centenas de pessoas a tentarem uma fuga do que compõe sua realidade cotidiana. Também pressupõe que participar de uma simulação recreativa de uma tragédia humana é aceitável, e não desrespeitoso a todas as pessoas para quem a travessia é uma jornada de anos de economia, preparação e sofrimento (e muitas separações e perdas familiares). É difícil tentar compreender como o “entendimento” que advém de tal experiência pode ser mais profundo do que ler ou ouvir depoimentos reais de pessoas que fizeram a travessia. É como se as palavras não tivessem mais força frente a uma realidade gamificada e esvaziada de sentido. Sobre os milhares de turistas que visitam Chernobyl anualmente (ocidentais, em sua maioria), Svetlana diz: “as pessoas perseguem novas e fortes emoções, pois encontram poucas delas num mundo já condicionado e acessível. A vida se torna chata e as pessoas desejam algo eterno”. Precisamos então, não apenas começar a pôr tudo em palavras, mas em buscar formas de nos reconectar às palavras.

Precisamos também de materialidade. Monumentos, museus, estátuas, documentos, exposições, fotografias. Precisamos transformar os prédios do DOI-CODI em museus da memória, como a Escola de Mecânica da Armada, na Argentina, antigo centro clandestino de repressão e tortura, transformado em centro de memória em 2004. 

Nas palavras de Alberto Manguel, “a memória torna-se concreta em pedra e cunhagem: algo que sirva como lembrete e advertência e algo que sirva como ponto de partida para pensamento ou ação. Todos os monumentos trazem tacitamente a inscrição: ‘Lembre-se e pense'”(Lendo imagens, 2001). 

Estamos aqui como testemunhas do nosso tempo, somos os responsáveis pela criação da memória coletiva, da nossa memória coletiva, a memória que legaremos às gerações futuras como fatos, faróis e aprendizado, e devemos nos lembrar e começar a pôr em palavras, e construir essas torres, esses templos da memória. Não nos esqueçamos. E continuemos a usar a palavra, e tijolos, que nos ajudem a lembrar e fazer lembrar, pois “tudo se ilumina à luz do passado. Ele está sempre ao nosso lado… do lado de dentro, olhando para fora” (Jonathan Safran Foer, Tudo se ilumina, 2005).


Cintia Nogueira é professora e editora.

Ilustração de Sumaya Fagury

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