Quando KKK não é onomatopéia do riso

O recente filme de Spike Lee, O Infiltrado (BlacKKKlansman, 2018) tem gerado muitas conversas, percepções e debates. Em especial pelas questões que ressoam no Brasil atual, e como o ódio e raça se misturam no terreno na política, trazendo implicações simbólicas para momento em que vivemos.

O longa é baseado na história de Ron Stallworth, um policial negro (primeiro detetive em Colorado, Estados Unidos), que, nos anos 1970, se infiltrou no Ku Klux Klan. Questões inusitadas à parte no que tange estar diante desse discurso de ódio sendo um policial negro, o filme mostra como esse homem criou um belo plano para penetrar na organização e internamente entender e desmantelar suas ações — tidas como de terrorismo.

O Infiltrado é especialmente importante para os tempos atuais, em que discursos de extrema direita ganham força no mundo. Em 2017, como Spike Lee nos lembra nas cenas finais dos créditos, tivemos o comício de grupos supremacistas brancos em Charlottesville. Ou seja, a existência e interesse pelo KKK não está no passado, ela continua no presente. Apesar de ter nascido no século XIX, logo após a Guerra Civil nos Estados Unidos, que impôs uma derrota contra o Sul escravista — mas, vale lembrar, não garantiu plenitude de leis e direitos aos negros para além da (importantíssima) abolição —, teve duas grandes ondas (uma nos anos 1920, após o filme The Birth of Nation; e outra nos anos 1950 e 1960, com o crescimento do movimento pelos direitos civis). Depois, arrefeceu.

Mas os protestos em Ferguson contra a violência policial e a emergência de movimentos como Black Lives Matter deram “asas” para grupos supremacistas brancos ampliarem sua campanha e garantir novo fôlego, com adesão ou interesse de novas pessoas brancas. Há um aumento da busca pelo KKK desde 2014 e, com o fenômeno Trump, o movimento ganhou força.

Não à toa, essa narrativa respinga no Brasil. Se Bolsonaro se pretende uma cópia mal feita de Trump é o que seus discursos indicam — mas que ainda veremos nos próximos quatro anos. O que já sabemos é que, assim como o presidente dos EUA, Bolsonaro parece ter apoio de pessoas ligadas a KKK — David Duke e Steve Bannon (líder da campanha de Trump, e conectado com movimento da direita supremacista) declararam abertamente apoio a Bolsonaro nas últimas eleições. Duke chegou a dizer que Bolsonaro “soa como nós, mesmos valores”, enquanto Bannon mencionou, em um debate público sobre populismo, que “Bolsonaro, assim como outros líderes no mundo, é o começo de um movimento populista que só tende a crescer”.

No caso do Brasil, a pesquisadora Adriana Dias tem mostrado, por meio de etnografia virtual de seu doutorado Observando o Ódio, que a busca por informações e material de grupos organizados de orientação neonazista cresceu significativamente. Segundo a antropóloga, há cerca de 300 mil simpatizantes no nosso país que leem, alimentam e compartilham conteúdo de ódio contra representações raciais no país, mesmo o Brasil sendo um país latino, de maioria negra e com histórico de mestiçagem. Falar de pureza racial branca nesse país, mais do que em outros, soa uma barbaridade, contudo é o que muitos jovens vem fazendo, utilizando as redes sociais para se conectar e se organizar.

Os números recentes, segundo a tese de doutorado de Dias, mostram que há cerca de uma postagem a cada 8 segundos, em média, contra pessoas negras, mulheres ou LGBTs em redes sociais como Twitter. Esse número é, sem dúvidas, um resumo do momento social e político que vivemos no Brasil, inclusive do que nos levou a consagrar uma figura tão contraditória e sem perspectivas como Jair Bolsonaro. Pouca gente admite, incluindo parte da esquerda, que “questões identitárias” ainda são importantes. Seja pelas pautas dos grupos, como mulheres, negros, indígenas ou LGBTs, seja pelo impacto que os debates públicos têm suscitado, o ponto é que muita gente acha que isso deve ser questão lateral, e não o foco. Marginalizar essas questões vem se tornando pauta da esquerda, enquanto a nova direita faz uso e abuso das redes para atacar e visibilizar seu ódio contra esses grupos.

Todo o processo das últimas eleições foi atravessado por questões de identidade: religiosa, moral, “família tradicional e dos bons costumes”, que rebateu, pauta por pauta, questões de fundo identitário. Mesmo que gênero e sexualidade tenham sido os campeões de mobilização do imaginário social, o fato é que questões raciais também apareceram — como a acusação de racismo sempre minimizada pelos apoiadores do presidente eleito.

Tudo isso se torna relevante porque os três eixos, de acordo com a pesquisadora Adriana Dias, que fundam o pensamento de intolerância e de ódio, o que foi a base do KKK, têm aparecido no contexto brasileiro: o primeiro da ideia de meritocracia, que embasa uma falsa noção de igualdade, desconsiderando a desigualdade estrutural que realmente movimenta a sociedade. O segundo é a construção do “outro” idealizado, o outro que se torna a figura concretizada do que agiu contra o povo. Nesse caso, o “outro” é o pobre-do-Bolsa-Família, ou o negro-que-quer-cotas, ou o gay-que-quer-kit-gay, ou o comunista-que-quer-o-bolivarianismo. Em suma, são figuras construídas na mente do intolerante, propagadas como imaginário de medo e desespero no mar de informações e notícias falsas, que vem sido feito há pelo menos quatro anos em diversas mídias e canais de informação. E, por último, o culto à masculinidade hegemônica patriarcal, idealizada como fonte de poder e controle social. Os homens, portanto, são os protagonistas naturais de um processo social, moral e político de “conserto” dos problemas na sociedade. 

Incluiria também um quarto eixo, que é o de raça. Raça é base da separação no contexto do colonialismo, como nos ensinou Frantz Fanon. Não obstante seu valor estrutural, ela se torna um simulacro-do-simulacro das razões do sistema, porque cria uma camada de neblina, de véu, sobre o movimento do neoliberalismo — manutenção da austeridade, flexibilização e precarização e desigualdade estrutural de renda. O ponto é: apesar da questão racial estar na base da estruturação das desigualdades sistêmicas, no contexto colonialista em que ainda vivemos, a raça (como fenômeno aparente) se torna um reflexo invertido e mal percebido das questões que mobilizam os grupos de ódio.

A raça, portanto, no contexto atual, vem sendo usada por esses grupos como uma forma de explicar uma naturalização do desencaixe entre pertença de grupo e condição social. Existe uma naturalização histórica dos lugares de poder atribuídos e garantidos às pessoas brancas e aos homens. O discurso da meritocracia, mais a criação do “outro” e a expectativa do protagonismo masculino e branco se unem na configuração de elementos que estamos vendo, aqui no Brasil de 2019, tornarem-se evidentes. Por isso, a memória e a observação do que ocorre com um grupo como KKK se torna tão importante para que possamos conhecer e prestar atenção nos indícios.

No Brasil de 2019, KKK deixa de ser uma onomatopéia do riso, e passa a ser uma figura de linguagem. De ódio.


Túlio Custódio é doutorando em Sociologia pela Universidade de São Paulo e curador da Inesplorato.

Ilustração de Sumaya Fagury

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