Junto com a emergência dos governos conservadores emergem formas de pensamento e discursos que os legitimam. Marc Lilla e Jordan Petersen são exemplos consistentes desta tendência. O que os caracteriza é a retomada da história do pensamento liberal ou cético que os precedeu de Locke a Tocqueville, passando por Raymond Aron e gente como Isaiah Berlin. O que seria específico do fenômeno brasileiro é o seu caráter contra-institucionalista e discursivamente anti-democrático. A defesa da liberdade não tem atrás e si um elogio da tortura, da eliminação de inimigos ou a crítica de populações vulneráveis.

Penso que se pode atribuir isso a dois diagnósticos persistentes da brasilidade: (1) a nossa dificuldade crônica em instalar instituições republicanas capazes de fazer valer o individualismo liberal como um valor progressista e transformador e (2) o uso contumaz de nosso sincretismo cultural para encobrir antagonismos e tornar conflitos morais e políticos improdutivos produtivos do ponto de vista do alargamento da inclusão social. Estas duas dificuldades podem ser descritas, como uma espécie de versão local do colonialismo à brasileira, do ponto de vista da concepção lacaniana de discurso.

O discurso do mestre jamais se interessou em abdicar da escravidão como gramática de reconhecimento, e ainda que ela tenha sido suprimida legalmente, persiste na existência de “pessoas de bem” de um lado e “gentes invisíveis” do outro. O discurso universitário, seja ele pela via da expansão da educação como ideal regulador, seja da emergência de um aparelho burocrático realmente impessoal, nunca assumiu o primeiro plano.

De certa forma, a nomeação de nosso mal-estar por meio do acasalamento entre a “corrupção” e do “demônio vermelho” é o reconhecimento do nosso sintoma. Como todo sintoma ele é um fragmento de verdade tratado por meio de uma mentira. Ou seja, as elites não são apenas vermelhas e a corrupção não é apenas do Estado. O déficit de autocrítica, ou como diríamos em psicanálise, de implicação subjetiva, está na ausência da pergunta: de que forma concorri para produzir a realidade da qual eu me queixo?

Uma política de avestruz dirá primeiro que não fez nada, que tudo foi culpa do outro e depois dirá que por isso mesmo devemos atacar o outro, causa e origem e todos nossos males. Há outra peculiaridade do caso brasileiro, que é o seu relativo retardo. As políticas de austeridade e contenção de gastos, como as que vimos serem impostas à Grécia e Irlanda, mas de outro modo a Portugal e Islândia, correspondem a uma resposta neoliberal à crise de 2008. A ascensão do novo conservadorismo na Hungria e Turquia, depois Filipinas e Trump, é a resposta da resposta, ou seja, um retorno sem meias palavras ao condomínio fechado, a política de muros, inclusive comerciais, baseados na soberania moral na política.

O Brasil chegou atrasado nesta série, por isso mistura o neoliberalismo econômico com a bravata moral. Na clínica contamos sempre com as instâncias terceiras de mediação simbólica, nossa história, os ditos da cultura, o Outro como instância de reconhecimento mais além do narcisismo. Esse era o lugar do pai para Freud e da lei simbólica para Lacan.

Quando não conseguimos contar com estas instâncias de mediação, no caso brasileiro, quando destituímos a imprensa, o judiciário, os artistas e as universidades, o que emerge em seu lugar é a sombra obscena do pai imaginário, que se acha ele mesmo o dono e artífice da lei. O que o caracteriza é a escolha do poder em vez da autoridade, da violência em vez da palavra, da ameaça em vez do pacto. Nosso processo de degradação da palavra, nosso impossibilidade de nos escutarmos, nossa recusa de autocrítica, de esquerda e direita, foi um ótimo exemplo de como achamos que podemos prescindir desta posição terceira, que ela foi destruída por interesses e aviltada por impostores. É isso que estes novos ideólogos se contentam em fazer. 

Minha peregrinação por universidades de periferia na cidade de São Paulo, minha estada na Inglaterra, onde pude ver como o Brasil tem uma potência universitária represada entre condomínios — que estudei como uma forma de vida em meu livro sobre Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma —, concorreu para uma espécie de decisão continuada e crescente de tentar baixar os muros e o abismo discursivo que separa as pessoas comuns dos especialistas.

Tem muita gente que quer baixar os muros da universidade para que ela seja civilizada pela lógica do consumo, eu penso que a resposta é baixar os muros para construir algo que tenha a estrutura de comum, que responda ao interesse público de modo não necessariamente estatal e que não identifique o Estado como único guardião do interesse público.

Isso significa alterar a lógica de circulação das trocas de saber e o lugar do dinheiro nesta operação. Como psicanalista, escutando o sofrimento das pessoas, não posso me conformar com o nível de acumulação e de apossamento dos bens simbólicos que vivemos neste país.

Também gostaria que ficasse mais claro a dívida simbólica daqueles que puderam estudar, assim como se formar como psicanalistas, com as condições sociais que tornaram isso possível. O primeiro condomínio no qual me encontrei foi o condomínio das associações psicanalíticas, embora elas não sejam a exceção, mas sim a regra.

A desigualdade econômica caminha com a desigualdade na distribuição do capital social e cultural. A vulgaridade e a pobreza de acesso aos meios culturais não é só um fator de progresso cognitivo, ele tem uma função terapêutica muito importante. Por isso, digo que boa clínica é crítica social feita por outros meios, não no sentido de doutrinar ou orientar juízos morais ou estéticos de nossos pacientes, mas de propiciar que o sofrimento seja tratado em um espaço que não é nem o das instituições nem o das comunidades, mas uma espécie de área de indeterminação produtiva entre ambas.

É isso que estudamos no Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da Universidade de São Paulo. É isso também que comandou nossa intervenção junto aos ribeirinhos desalojados pela construção da barragem de Belo Monte. É isso que preside minha intervenção como professor e por isso tento tornar a psicanálise mais presente no debate e na esfera pública.

Costumo dizer que o intelectual deve falar fora de lugar, não pode se contentar em ser um funcionário bem ou mal pago do saber, seja na produção seja na reprodução. Falar fora de lugar, não é falar sobre tudo e sobre todas as coisas, munido por uma espécie de visão de mundo, como a crítica de plantão nos oferece “de grátis” todos os dias. Intelectual é uma função social, aparentada à dos xamãs e demais cuidadores da alma, não é uma profissão. Por isso, gente como Racionais MCs, ocupadores de escolas e demais coletivos de intervenção e resistência fazem parte da função intelectual que nós precisamos, mais além do cultivo ou da crítica de elites bem ou mal-intencionadas.

Nas instituições de psicanálise, todo mundo quer ser o próximo Lacan, enquanto deixamos de lado a riqueza mesma que é o fato de sermos muitos clínicos, praticantes, presentes na vida e na cultura brasileira, fazendo algo que subvalorizamos sistematicamente. Os autores médios, os trabalhadores da saúde mental, os professores e clínicos que trabalham às vezes mais de 40 horas, merecem espaço para pensar.

Meu canal no YouTube e o quadro Falando Nisso são experimentos discursivos que vejo nessa direção. Responder questões buscando se fazer entender, oferecendo subsídios para a continuação da investigação e interesse de cada um, sem ser exaustivamente pedagógico. Aproximar o saber erudito do saber popular, manter contato com ex-alunos, passantes e demais pessoas com as quais partilho e partilhei meu caminho formativo. É uma forma de tentar subverter esta relação impessoal e troquista na qual você vai a um lugar, compra saber ou títulos e sai por aí um com uma grama a mais de conhecimento.

O canal é um desdobramento de meu seminário, que há mais de 15 anos recebe pessoas de forma pública, aberta e gratuita pelas universidades pelas quais passei. As pessoas se espantam que seja na USP e que qualquer um possa ir, ou deixar de ir, sem certificados ou créditos. Isso é um exemplo de como sentimos nossas universidades como um espaço que não nos pertence, como um espaço que não é de fato de qualquer um e para qualquer um.

Minhas intervenções sobre política, sobre arte, sobre psicanálise e filosofia, muitas delas em lugares como o viaduto do Chá ou a praia da Boa Viagem, são maneiras de dizer que o mais importante não é quem é quem, mas qual a conversa vamos ter. Acho que no Brasil sonhamos demais com a vinda do próximo Baudelaire, que com seu gênio criador nos salvará da barbárie, e de menos com Apollinaire, este modesto agitador cultural que no fundo queria apenas colocar as pessoas juntas e fazer com que as boas iniciativas tenham mais visibilidade e potência.


Christian Dunker é psicanalista, escritor e professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. 

Ilustração de Sumaya Fagury

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