O Brasil da era Trump e a manutenção da censura

No dia 29 de novembro de 2018, a revista Época publicou em seu site uma matéria sobre um evento organizado por procuradores em Brasília. No texto, assinado por Natália Portinari, o retrato de um Brasil que permaneceu escondido nas últimas décadas: delírios sobre o famigerado projeto Escola Sem Partido, repúdio a aulas de educação sexual, enfim, tudo de retrógrado que ficou no armário enquanto o mundo aqui fora parecia se desenvolver numa velocidade que, se não era satisfatória, ao menos conservava algum traço de evolução e normalidade. Contudo, desde os protestos de 2013, culminando com a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, o pensamento da neodireita tupiniquim, capitaneado por figuras como Olavo de Carvalho, vem ganhando um viés assustador. Em palcos como o do congresso dos procuradores, teorias da conspiração saídas da pior literatura vêm ganhando status de realidade. O exemplo mais emblemático pode ser o debate presidencial em que o então candidato Cabo Daciolo questionou Ciro Gomes sobre o chamado Plano Ursal. Surgido de uma postagem de escárnio em um blog no começo da década passada, o “plano” de dominação socialista na América Latina virou realidade após artigo escrito por Olavo de Carvalho — sempre ele.

Numa espécie de cenário gigantesco, é como se a sociedade ocidental tivesse passado os últimos trinta anos, desde pouco antes da queda do Muro de Berlim, esperando que delírios do tipo capitalismo versus comunismo fossem finalmente superados após quase um século de guerras e disputas políticas. Essa gente que hoje soa tão estranha, tanto quanto nós a eles, se alimentou também de uma bolha que nunca deixou de existir, apenas ficou escondida sob o bastião da intelectualidade. Quando os fatos são postos em xeque, tudo pode acontecer. E está acontecendo. A eleição de Donald Trump não deveria ser tomada como algo surreal porque nunca foi. Admitir que uma direita ultraconservadora se alimentou embaixo de nossos narizes pelo simples fato de acharmos ridículo é justamente o que conduz a um raciocínio perigoso: eles estavam aí e não vimos, como podem ser tão burros? E isso ganha uma resposta: da mesma forma que estivemos aqui e fomos vistos, como pudemos ser tão burros?

A reportagem de Época me chamou a atenção pela narrativa. Procurador regional da República, Guilherme Schelb discursou para cerca de 40 pessoas do Ministério Público. O encontro, intitulado “Congresso Nacional do MP Pró-Sociedade”, foi planejado por ativistas conservadores do DF. Após exibir imagens de pênis e rostos com sêmen — que disse estar na exposição Queermuseum (?) —, Schelb, muito envergonhado, pediu auxílio. Queria que alguém lesse o seguinte trecho, classificado como pornográfico, presente em uma coletânea organizada por Ana Maria Machado:

“Estão me devendo xarope, meia, cinema, filé mignon e buceta, anda logo. Dei-lhe um murro na cabeça. Ela caiu na cama, uma marca vermelha na cara. Não tiro. Arranquei a camisola, a calcinha. Ela estava sem sutiã. Abri-lhe as pernas. Coloquei os meus joelhos sobre as suas coxas. Ela tinha uma pentelheira basta e negra. Ficou quieta, com olhos fechados. Entrar naquela floresta escura não foi fácil, a buceta era apertada e seca. Curvei-me, abri a vagina e cuspi lá dentro, grossas cusparadas. Mesmo assim não foi fácil, sentia o meu pau esfolando. Deu um gemido quando enfiei o cacete com toda força até o fim. Enquanto enfiava e tirava o pau eu lambia os peitos dela, a orelha, o pescoço, passava o dedo de leve no seu cu, alisava sua bunda. Meu pau começou a ficar lubrificado pelos sucos da sua vagina, agora morna e viscosa.”

Segundo escreve Natalia Portinari, alguns procuradores se mostraram incomodados durante a leitura e pediram para que fosse interrompida. Leituras de escritor, com textos de Mario de Andrade e Virginia Woolf, “poderia estar em qualquer lista recomendada pelo MEC”, disse Schelb. De acordo com a repórter, ficou no ar que o parágrafo acima seria de autoria de Ana Maria Machado. Não é. Qualquer pessoa que se embrenhou na literatura brasileira contemporânea inevitavelmente acabou cruzando com dois livros do escritor mineiro Rubem Fonseca: Feliz ano novo, de 1975, e O Cobrador, de 1979. O primeiro se tornou caso clássico da censura, que, na figura do então ministro da Justiça, Armando Falcão, classificou como pornográfico. O segundo, de cujo conto-título foi extraído o excerto lido no congresso do MP, trazia contos ainda mais raivosos e com muito mais “pornografia” que o primeiro. Passou pela censura e foi sucesso de vendas. Entretanto, cá estamos em 2019 e existem pessoas querendo proibir Rubem Fonseca.

É sintomático que isso tenha acontecido no momento em que o país está se tornando uma república teocrática e militarizada — não que eles pareçam saber que nosso Exército só tem munição para uma hora de guerra. O importante é o discurso. Um livro que pode ser lido por qualquer um é um livro que não deve falar sobre bocetas, paus e cus. A esterilidade da informação, como em uma carolice mal-ajambrada, só faz mal à formação intelectual — não que eles pareçam saber que é importante para o indivíduo ter formação intelectual. 

Ainda que pouco explícita, a tentativa de censura a O Cobrador confirma que o Brasil não superou tudo o que Rubem Fonseca já dizia precisar ser superado lá em Feliz ano novo, no conto Intestino Grosso. Entrevistado por um repórter com má vontade, o autor resolve teorizar sobre a origem da pornografia e por que deveríamos nos libertar dela — sem contar a hipocrisia: 

“Há pessoas que aceitam a pornografia em toda parte, até, ou principalmente, na sua vida particular, menos na arte, acreditando, como Horácio diz, que a arte deve ser dulce et utile. Ao atribuir à arte uma função moralizante, ou, no mínimo, entretenedora, essa gente acaba justificando o poder coativo da censura, exercido sob alegações de segurança ou bem-estar público (…) A metáfora surgiu por isso, para os nossos avós não terem de dizer — foder. Eles dormiam com, faziam o amor (às vezes em francês), praticavam relações, congresso sexual, conjunção carnal, coito, cópula, faziam tudo, só não fodiam. Eu tive um professor de direito tão eufêmico que, quando queria descrever um caso de sedução — que, como você sabe, se caracteriza legalmente pela cópula — falava latim: introductio penis intra vas. Os filólogos e linguistas também são pessoas presas ao tabu. Gostaria que algum filólogo, um dia, escrevesse um livro intitulado: Foder. Essas restrições ao chamado nome feio são atribuídas por alguns antropólogos ao tabu ancestral contra o incesto. Os filósofos dizem que o que perturba e alarma o homem não são as coisas em si, mas suas opiniões e fantasias a respeito delas, pois o homem vive num universo simbólico, e linguagem, mito, arte, religião são partes desse universo, são as variadas linhas que tecem a rede entrançada da experiência humana (…) O erro me parece ser a pressuposição de que as inibições sejam necessárias ao equilíbrio individual. Parece-me mais verdadeiro o oposto — as inibições sem possibilidade de desopressão podem causar sérios males à saúde dos indivíduos. Uma sábia organização social deveria impedir que fossem reprimidos esses comunicativos caminhos de alívio vicário e de redução de tensão. As alternativas para a pornografia são a doença mental, a violência, a bomba. Deveria ser criado o Dia Nacional do Palavrão. Outro perigo na repressão da chamada pornografia é que tal atitude tende a justificar e perpetuar a censura. A alegação de que algumas palavras são tão deletérias a ponto de não poderem ser escritas é usada em todas as tentativas de impedir a liberdade de expressão.”

O trecho é longo, porém elucidativo. O que Rubem Fonseca quer dizer, em resumo, é que toda essa gente se engana ou então pensa que não vemos suas hipocrisias. Uma sociedade pretensamente livre, porém absolutamente controlada, acaba criando um sistema de eterna vigilância cuja paranoia precisa ser desoprimida com urgência, melhor ainda se por uma única figura. A ascensão da direita não é mais que isso. Donald Trump, Jair Bolsonaro, Rodrigo Duterte: salvadores de pátrias que não precisam ser salvas pela violência, mas apesar dela. Apesar das chacinas em universidades e escolas públicas, apesar das matanças organizadas pelo Estado nas favelas, apesar da epidemia de droga nas Filipinas — a saída não é e nunca foi criar um sistema de vigilância opressiva que trata todo mundo como cidadão de bem até o momento em que deixam de sê-lo, quando transformam-se em marginais irrecuperáveis. O preço dessa extrema vigilância pode ser o fim da vida. E não importa que eu ou a ministra dos Direitos Humanos acreditemos em Deus — ainda é uma ideia, algo que é real para nós, não para a enormidade de ateus e adeptos de outras crendices espalhados por aí. Perder a vida por um erro tão bobo como proteger a hipocrisia dentro dos muros me parece a pior coisa possível.

Estamos em 2019 e ainda se censura Rubem Fonseca. Em 1975, o regime militar escondia torturas e sevícias. O Araguaia era motivo de vergonha. O que acontecia nos porões do DOI-Codi, idem. Estão no poder pessoas que exaltam os envergonhados, que se reprimiram por muito tempo e agora vão com tudo em busca da desopressão que suas mentes sofreram. É hora de acordar. Em Pastoral Americana, o escritor Philip Roth disse: os criminosos estão por toda parte, já estão dentro dos muros. A falta de vergonha também.


Mateus Baldi é escritor e roteirista. Colabora com diversos veículos da imprensa brasileira. Crítico literário, fundou a Resenha de Bolso em 2016.

Ilustração de Sumaya Fagury

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