Quando me deparei pela primeira vez com a obra Reinvenção da intimidade: políticas de sofrimento cotidiano, do psicanalista Christian Dunker (2017, Editora Ubu), li alguns dos 49 ensaios e pensei que se tratava de um compilado de textos muito bem escritos sobre temas que atravessaram os 26 anos de trabalho clínico do autor, com “reflexões práticas”, como ele mesmo refere, apresentando trechos de poemas, citações de filmes e obras literárias, começando por um belo relato familiar e tendo como tema central o sofrimento e o mal-estar no mundo contemporâneo. Porém, no decorrer dos meses, as ideias do livro continuaram reverberando em mim até que o retomei e, fazendo uma leitura mais atenta, capítulo a capítulo, pude ter uma visão diferente, compreendendo um encadeamento de ideias e uma trajetória com abordagens que me conduziram até a questão central da intimidade.

A partir de menções a personagens literários, filmes e situações cotidianas, Dunker apresenta questões psicanalíticas próximas do leitor, tornando a obra mais aberta, como se quebrasse os muros da psicanálise, deixando-a mais democrática.

O livro é iniciado com uma citação de Lacan que trata da “extimidade”. O conceito é retomado na introdução, quando, de forma simples, o autor a define como “encontrar a intimidade fora e o estranhamento dentro”. É apresentada a ideia de sofrimento, bem como suas condições e questões como guardar o sofrimento para si ou coletivizá-lo. Segundo Dunker, o reconhecimento do sofrimento gera em alguns sujeitos a ideia de fraqueza moral. Os déficits e os excessos de individualização aparecem na experiência de sofrimento, levando os sujeitos à hipersocialização ou à impotência de viver uma situação de real solidão. Também destaca o fato de a política discursiva ou hegemônica afetar a forma de subjetivação e sofrimento.

Dunker mescla articulações e expõe conceitos de diversos autores. Chama atenção como conceitos tão áridos da clínica lacaniana ganham clareza contextualmente — por exemplo, a ideia de “ex-sistência” (existir fora de si) ou “um a mais de gozo” (produto discursivo da condição pela qual o sujeito torna o sofrimento uma propriedade).

Trata, ainda, de algumas ideias de solidão, desde a abordagem psicanalítica de castração até situações de preconceito, segregação e supressão da diferença, que culminam numa falsa solidão. Para Dunker, o prejuízo psíquico causado pela impossibilidade de estar sozinho é incalculável, algo que gera confusão na interpretação de acontecimentos da vida do sujeito, nos quais a ausência pode ser lida como não reconhecimento ou a solidão como desamor. Destaca que por ser a boa solidão (solitude) tão rara é que surgem as patologias ligadas à sua impossibilidade.

O autor aponta vários exemplos em que a solidão (solitude) oferece uma experiência enriquecedora, passando pela filosofia, arquitetura, pintura, poesia e literatura. Por outro lado, trata da questão do isolamento em diferentes culturas e suas consequências, abordando também a vida digital prioritária e o mal-estar envolvido nesse fenômeno.

A ideia de que as gramáticas dos espaços públicos e privados vêm se misturando cada vez mais, o que faz com que os sujeitos se tornem insatisfeitos de usar diferentes máscaras em cada ambiente, forçando “os limites para a sustentação de identidades segundo critérios cada vez mais exigentes de autocoerência e autenticidade”, é um dos pontos de maior destaque na obra. A solidão é boa e pode gerar produção não quando o sujeito não precisa do outro, mas quando se dá conta de que embora precise, não depende dele.

Dunker assinala que “muitas vezes a presença dos outros é sentida como fonte de irritação, invasão ou perda de intimidade, justamente porque ela nos priva deste bem maior que é a solidão”. Por outro lado, a solidão patológica, associada a estados de desproteção e insegurança, às vezes, se torna insuportável.

Após uma incursão pela solidão e pelo sofrimento (assunto retomado em pelo menos 20 ensaios sob diferentes abordagens), o autor trabalha, a cada capítulo, exemplos precisos e cotidianos de temas como amor, casamento, filhos, dinheiro, traição, ciúme, denegação, morte, luto, melancolia, trauma, entre outros.

No capítulo “Começar e terminar”, Dunker empresta as ideias de Bauman quanto às relações líquidas na modernidade, como a questão das redes sociais. Isso faz pensar na ideia das redes como uma dança ao contrário: primeiramente, sabe-se tudo a respeito do outro e, depois, decide-se aceitar ou não a dança. Perde-se a naturalidade, perde-se a surpresa, perde-se a possibilidade de construir a intimidade— não raro, perde-se o improviso.

O capítulo “O ciúme e as formas paranoicas de amor” apresenta uma construção tão concatenada que citar um trecho ou fazer algum recorte desse texto seria quebrar um elo de encadeamento de ideias, mas Dunker faz uma citação de Lacan que merece ser mencionada: “amar é dar o que não se tem”. Acrescenta que “ao ciumento a fórmula aparece ao contrário: possuir, reter, ter, não perder (…). No entanto, ele mesmo sabe das dificuldades para controlar o incontrolável, por isso o ciumento varre a sujeira para baixo do tapete… do outro”. Não à toa, o capítulo precede o ensaio “A função transformativa do ódio”, no qual, por meio de exemplos clínicos e literários, trabalha a importância de uma dose de ódio para a manutenção das relações amorosas e até para por fim a um luto, citando autores como Lacan e Winnicott.

O ensaio “Conformações da intimidade” é onde culminam todas as questões abordadas, levando-se ao tema da intimidade. O autor menciona que, há anos, recebe a queixa de pessoas que se dizem incapazes de formar laços de intimidade com o outro. A iminência de uma situação de intimidade ou a ausência de intimidade vem acompanhada da sensação de vazio, semelhante a se sentir sozinho em uma multidão.

Dunker atenta para uma característica geralmente comum, estabelecendo uma hipótese: tratam-se de pessoas de grandes centros urbanos e que tiveram famílias de origem de outros países ou cidades, ou seja, que apresentam importantes diferenças de modos de vida em relação às gerações anteriores. Atribui, assim, forte peso das diferenças culturais sobre a experiência.

São mencionados no livro fenômenos ocorridos a partir do século 19, entre eles a conformação da família como lugar de refúgio, o ideal de amor romântico, a subjetividade da verdade e o processo de industrialização relacionado à questão da padronização, que pode trazer a ausência de privacidade. Uma série de mudanças na modernidade impactou diretamente a experiência atual de intimidade. A felicidade posta como um fator de saúde, de sucesso e de realização econômica torna narrar a infelicidade como um ato impossível, desabilitando a modalidade de sofrimento, o que, em alguma instância, gera um déficit de intimidade.

Segundo Dunker, os romances e as novelas, tão envolvidos na ideia de intimidade relacional, competem com uma nova ordem de biografias expostas nas redes sociais, o que gera consequências. A mensagem dita no espaço público tem outro peso que a mesma mensagem dita no espaço familiar e a intimidade, de acordo com o autor, é o que repara essa distância.

No último ensaio —  que leva o mesmo título do livro —, o autor aborda o aspecto político da psicanálise, apontando a diferença entre indivíduo e sujeito. Cita Lacan, afirmando que “sujeito é dividido, ao mesmo tempo universal e particular”, e menciona o interesse crescente das pessoas comuns por temas políticos. Assinala, assim, a vida digital como um facilitador, mas ressalta questões perigosas no que tange a políticas de idealização e ódio.

A dificuldade de administrar a intimidade talvez seja um dos impasses do contemporâneo. A forma como responder a isso, bem como o incômodo que isso pode ou não causar, revela uma posição de saber sobre si.


Luiz Durante é psicanalista e especialista em Semiótica.

Ilustração de Celeza Ramalho

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