Quando resolvi que ia mesmo mandar um áudio pelo Whatsapp, fui até o quarto e fechei a porta, pra me sentir mais à vontade. Eu estava um pouco tensa, com vergonha; essa era a primeira vez que ia falar com ela. A gente já tinha trocado alguns emails, quase sempre sobre escrita, trabalhos e projetos, mas a nossa relação não é só isso; tem também um bocado de afeto.

Gravei a mensagem e enviei, mas quis ouvir de novo o que tinha acabado de falar— eu faço isso sempre, eu fico com muita curiosidade. Ouvi que a minha fala saiu vacilante no início, com alguns risos nervosos, porém pareciam sinceros. Tem qualquer coisa de timidez também, e é bem possível que ela note. Depois comecei a me acalmar e a soar mais à vontade; diminui o tom da minha voz, e parece que estou mais tranquila; a fala, do meio pro fim, de repente ganha cadência. Depois, ponho pra tocar um segundo áudio, curtinho, que eu tinha gravado só pra complementar um detalhe do que eu tinha acabado de dizer. Esse começa mais seguro, em fluxo, pareço natural. Identifico então uma flexão qualquer que não reconheço ser do meu sotaque mineiro, e penso que deve ser a esse tipo de coisa que meus amigos têm se referido quando riem, e me dizem que estou me tornando um pouco paranaense depois de três anos morando por aqui.

Ela só respondeu no dia seguinte, mas resolveu comentar no Twitter sobre como ouvir a minha voz a fez sentir mais próxima de mim, e a entender, de algum jeito sutil, um ensaio que eu tinha escrito e enviado a ela pra ser publicado. Ela também me respondeu com um áudio, que eu ouvi atenta não só ao que ela me dizia mas em como ela falava. Era a primeira vez que eu a ouvia.

Ouvir pela primeira vez a voz de alguém com quem você troca palavras escritas mas não palavras faladas é uma experiência singular. Não é essa singularidade de alguma coisa que é só do nosso tempo, porque as cartas e os livros já faziam o papel dos emails, tuítes, mensagens de Facebook, comentários largados num blog e todos os outros assemelhados em que a gente não está ouvindo alguém, mas apenas lendo. Talvez o que torne a experiência singular nos nossos dias seja mesmo a raridade: ouvir a voz dos outros é tão acessível, e por tantos dispositivos, que não conhecer a voz de alguém é praticamente um feito.

Depois que trocamos nossas impressões sobre a mensagem, fiquei pensando sobre como me interesso pelos significados que não estão apenas na palavra. Me dei conta de que ouvir a voz dela me fez imaginar uma nova camada na pessoa que eu imagino que ela seja. Na maioria do tempo a gente nunca sabe inteiramente quem é o outro, mas a gente encontra muitas pistas em coisas pequenas que parecem que não tem a menor importância.

Pode ser por algum desses motivos que eu tenha lido o livro Meu nome é Lucy Barton, de Elizabeth Strout (Companhia das Letras, 2016, tradução de Sarah Grunhagem) pela terceira vez. Reler um livro é algo que eu raramente faço, então só posso pensar que deve ter alguma razão importante. É um livro pequeno, de pouco mais de 150 páginas, que em todas as vezes terminei em uma única (e compulsiva) tarde. Eu me interesso tanto por dizer e pelas coisas escritas, mas dele saio sempre pensando em como há coisas preciosas escondidas naquilo que não é enunciado.

Meu Nome é Lucy Barton é a história de uma mulher que sofre uma crise de apendicite e é internada em um hospital. A cirurgia e o período de convalescença deveriam ser rápidos, mas Lucy é acometida subitamente por uma febre, cuja causa ninguém consegue explicar. Ela segue então internada por mais dois longos meses. Os dias são tediosos e ela passa praticamente sozinha, e sente falta especialmente de suas duas filhas pequenas. A certa altura, no entanto, sua mãe aparece de surpresa e fica ali sentada ao pé de sua cama por alguns dias. Havia muito tempo que as duas não se viam.

Elas passam cinco dias juntas, conversando, ali naquele quarto de hospital. A mãe fala das pessoas, das relações e dos casamentos arruinados de vários de seus conhecidos. Na verdade, parece que ela mal se dá conta de que todas as histórias que conta são de fracassos. Ela parece evitar falar sobre sua vida, e sobre o passado das duas. Mas o que Lucy percebe é que há algo sendo dito nas entrelinhas. Tem qualquer coisa na voz da sua mãe; Lucy não consegue reconhecer como sendo a voz da sua mãe da infância, mas uma outra voz.

Lucy sutilmente capta naqueles cinco dias que as palavras nem sempre correspondem totalmente àquilo que se passou e ao que sentimos. Mas essas coisas não somem. Elas se manifestam de um jeito muito delicado em outros lugares que não nas coisas que dizemos.

“Parei de escutar. Era o som da voz da minha mãe o que eu mais queria, o que ela dizia não tinha importância. Então fiquei escutando o som da sua voz; até aqueles três últimos dias fazia um tempo enorme que eu não ouvia a sua voz, e ela estava diferente. Talvez minha memória é que estivesse diferente, pois o som da voz da minha mãe costumava me dar nos nervos. Esse som era o oposto disso — sempre a impressão de alguma coisa presa, da urgência.” (Elizabeth Strout em Meu nome é Lucy Barton)

O que Lucy faz, em todo o livro, é esse mesmo exercício pequeno que me peguei fazendo com aqueles áudios trocados no Whatsapp. Ela tenta perceber que sutilezas existem naquilo que é dito. Ela tenta dar um corpo praquilo que não é dito, e parece mesmo fazer um esforço de imaginar um formato. Lucy é uma mulher atenta e muito sensível.

Talvez por isso, em vários momentos Lucy pensa, mas não diz. Conta do que tem vontade de dizer, e se pergunta por quem está deixando de falar. Não falar sobre certas coisas parece a posição de quem não tem coragem. Mas é no detalhe que a gente percebe o quanto existe de atrevimento em saber a hora de não dizer, ou pelo menos a hora de não usar certas palavras.

“Sempre há um detalhe revelador. O que eu quero dizer é que esta não é só a história de uma mulher. É o que acontece com muitos de nós, se tivermos a sorte de ouvir um detalhe e prestar atenção nele.” (Elizabeth Strout, em Meu nome é Lucy Barton)

Esse tipo de detalhe e de atenção às vezes nos soa bobo, como os detalhes que contei que enxerguei no meu áudio. São sinais discretos que talvez passem como coisas menores, como o sotaque, os maneirismos, as palavras que se repetem, as pausas e as vezes que a nossa voz titubeia. São sentimentos que não temos muito como esconder quando falamos. Essas coisas todas são o que a gente sente vontade de dizer, mas não sabe exatamente como. E talvez nunca nem consiga declarar.

O fato é que somos muito apegados às palavras. É como o que se explica sobre os miados dos gatos: dizem que quando convivem com humanos, eles se acostumam a vocalizar muito mais do que quando vivem sozinhos. A gente reforça esse comportamento neles sem nem mesmo se dar conta, porque a cada miau que achamos engraçadinho, sentimos como se eles conversassem conosco da mesma forma que conversamos entre nós. Os gatos têm realmente muito a dizer, mas não exatamente com a boca. A gente é um tanto quanto incompetente em entendê-los, e sem querer transformamos os felinos em um espelho de quem a gente é. É assim que os gatos aprendem a se comunicar conosco por miados.

Ao contrário dos gatos, sabemos pouco ler os corpos, os cheiros, as formas, o gesto, o movimento. O choro, como toleramos tão pouco o choro. Construir uma proximidade a partir daquilo que não é dito me parece sempre um exercício maior do que o de se relacionar com a palavra falada por isso: nossa falta de intimidade com aquilo que não é verbo. Nossa falta de intimidade com aquilo que é corpo.

* * *

Um indício marcado dessa nossa dificuldade são as situações físicas e como nelas nossas palavras parecem encontrar um limite profundo. Esse limite está ali na nossa dificuldade de falar e experimentar a morte, e também a doença, a velhice, o nascimento, a sexualidade. A hospitalização de Lucy é só um pano de fundo na história, mas é um detalhe que não deixa de ser importante, e de fazer sentido. Lucy está no hospital, e não conseguem identificar o que a deixa doente — é algo que também nunca pode ser inteiramente declarado.

Em todas as minhas experiências de ler esse livro, eu me lembrei em algum momento da Susan Sontag, e da época em que eu havia lido o ensaio Doença como metáfora/AIDS e suas metáforas (Companhia de Bolso, 2007). Também pensei muito nas minhas próprias experiências com um adoecimento importante, que aconteceu a alguém próximo a mim. Foi um livro que me lembro de ler logo depois que passei por essa experiência, e fiquei completamente tocada. Me senti muito identificada com o que lia, e quando fazia pausas, sentia uma vontade de andar pela casa vagando de um cômodo a outro sem encontrar muito lugar, totalmente agitada.

Sontag escreveu esse ensaio a partir da sua própria experiência de ser uma paciente de câncer de mama na década de 70, e de assistir a muitos de seus amigos adoecerem de AIDS naquele período em que mal se entendia a doença. Muito da sua narrativa é sobre a interdição de se nomear essas duas doenças, que carregavam um imenso tabu naquela época. Falava-se apenas aquela doença, a doença com c, o mal; nunca era fácil nomear o processo. E como não se dava conta de dizer o nome do que se passava, também pouco se falava sobre o que era afinal viver essa experiência.

Então, o que a Sontag faz é falar sobre o que não era dito. Ela conta como nunca se falava sobre a solidão e o isolamento do doente, ou sobre sua relação com se ver pensando na morte como uma possibilidade mais concreta. Também não se falava sobre as mudanças que essas doenças traziam pro corpo e como essas mudanças eram signos visíveis sobre aquilo que não estava sendo nomeado. E essas mudanças são muitas: a perda dos cabelos em alguns tipos de quimioterapia, o emagrecimento, o inchaço, a fraqueza, as cirurgias mutiladoras que os doentes de câncer frequentemente se submetem. Não se falava sobre dor, sobre perdas, sobre luto, muito menos sobre a família, e as dificuldades que as pessoas próximas sentiam de conviver com o que acontecia. Não se falava também sobre como essa dificuldade leva muitas pessoas bem próximas a simplesmente abandonarem as pessoas que estão passando pela experiência da doença.

Pelo tamanho do sentimento de identificação que senti quando li o ensaio mais de 30 anos depois dele ter sido escrito, percebi que ainda não se fala sobre várias das coisas que Sontag falou. Eu sentia uma raiva profunda em tudo aquilo que comumente eu via escrito nos jornais sobre o que era ter câncer e conviver com alguém com câncer. Eu ficava muito irritada quando se falava sobre aprendizado com a dor, transformação, superação, e como todas essas pessoas estavam fazendo limonadas com limões. Eu sentia aversão em ver fotos de mulheres sem cabelo posando maquiadas dizendo como elas eram fortes e bonitas, não porque eu não acreditasse que aquilo era possível, mas porque ela não refletia nada do que estava assistindo e experimentando. Ler o livro da Sontag, que falava justamente sobre como interditamos de falar sobre as facetas mais sombrias da experiência dessas doenças, tinha causado em mim uma espécie de catarse. Por isso, não é de se espantar que ainda hoje eu me lembre de um jeito tão intenso as minhas reações e todo o sentimento que lembro de ter sentido. É aquele alívio de quem reconhece que Ah, então existe alguém que também passou e pensou sobre tudo isso.

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Eu tinha, na época em que li Doença como metáfora, o hábito de fazer fichamentos bem inflexíveis de praticamente tudo o que lia. Eu tinha uma relação com os livros muito rigorosa. Não queria esquecer as palavras que estavam dentro dos livros, e tinha um certo medo de precisar achar as palavras corretas e não conseguir ser fiel às ideias que estavam em cada uma das histórias e ensaios que eu lia. Por isso, eu fazia um monte de anotações. Eu transcrevia trechos inteiros que me pareciam importantes, e anotava as páginas; grifava várias palavras que eram chave e acrescentava setas ao que me parecia que merecia ser lembrado.

No entanto, me parece bastante irônico que no caderno do ano em que eu li esse livro da Susan Sontag, não tenha uma única palavra sobre as coisas que eu não queria esquecer. Só consigo de fato saber que foi naquele ano porque anotei o nome do livro no alto de uma das folhas, e em seguida deixei três páginas em branco, que era provavelmente o que eu achava que poderia gastar pra anotar o conteúdo desse livro. Mas o que ficou foi apenas o silêncio.

Foi muito tempo depois que vim a refletir sobre o que ler significa pra mim, e a partir disso comecei a aprender a me perguntar o que queria de cada uma das minhas leituras. E descobri que nem sempre eu precisava anotar qualquer coisa, as vezes eu só queria sentir. Minha preocupação em registrar tão rigorosamente o que eu lia em cadernos deixava evidente o quanto a leitura parecia pra mim mais com um dever, ou com uma coisa que devia ter certa precisão, do que propriamente algo que fazia para entrar em um contato íntimo com coisas à minha volta. Não parecia haver tanto espaço pro divertimento, entusiasmo, nem mesmo com a chateação de não gostar de um determinado livro.

Olhando o caderno, eu me pergunto se esta foi a primeira vez eu não tive a menor ideia de como eu poderia falar do que eu havia lido. Não tinha como colocar em palavras o que eu tinha apenas como experiência: a vontade de chorar, a imensa identificação, a agitação e o conforto de saber que não era só eu que pensava assim. E pra isso eu nunca precisei exatamente de escrever pra me lembrar.

Nem sempre o que temos pra falar de um livro são sobre suas ideias, mas sim sobre o que ele nos causa. Todas essas reações não são coisas que estão no livro; elas são apenas possibilidades, coisas que podem ser só nossas, e que também podem ser só naquele dia. Essa possibilidade é única. É um tipo de mergulho que a gente consegue fazer na gente mesmo pra poder dar sentido a várias coisas que estamos experimentando. Falar de um livro é muito mais interessante quando a gente se sente tocado por ele, e percebe como ele nos faz ficar emocionados, tristes, eufóricos, entediados, ou até mesmo um pouco indiferentes. Um livro só passa a existir de fato quando é lido. A morada real dele é no coração do leitor, onde a sinfonia ressoa e a semente germina. Um livro só ganha existência na experiência.

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Em todas as vezes em que li Meu nome é Lucy Barton, eu comecei a chorar no exato mesmo ponto, e com a mesma palavra.

Eu sinto uma ternura tão grande pelas quinquilharias sentimentais que Lucy carrega, e sobre como ela sabe que nem sempre é possível se livrar de todas elas. Eu choro em vários outros pontos desse livro, mas nunca com a mesma sensação comovente que sinto nesse pedaço. E quando eu choro, me dou conta que pra mim Meu nome é Lucy Barton é sobre as distâncias, que por vezes jamais teremos como superar, entre pessoas que deveriam estar próximas. É sobre como me são caras as sutilezas e pequenos detalhes que nem sempre eu consigo perceber, mas que dizem tanto da gente, e estão em toda parte: no gesto, nas emoções despertadas por um livro lido, ou na voz de uma pessoa querida que nunca tínhamos ouvido. É também sobre como eu sinto o desconforto do não-dito nas relações mais íntimas, e sobre a solidão que todos nós sentimos em algum ponto da vida. Mas principalmente, é o um livro sobre o amor, um amor que sempre é imperfeito assim como são as palavras para dizer das coisas que sentimos.


Carla Soares é Mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais. É revisora, mediadora do Leia Mulheres e autora do Outra Cozinha.

Ilustração: trecho da pintura de Vânia Mignone (capa da edição brasileira de Meu nome é Lucy Barton)

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