No livro O xará, a escritora Jhumpa Lahiri conta a história de um casal de indianos, Ashoke e Ashima, que emigra para os Estados Unidos. O primeiro filho que nasce em terras norte-americanas chama-se Gógol, uma homenagem ao escritor russo, uma nomeção que envolve um momento traumático na vida de Ashoke. Ele esteve envolvido em um acidente de trem que quase tirou sua vida e estava lendo os contos de Gógol quando isso aconteceu. Ao contrário do que acontece no ocidente, existe entre os bengalis o costume que a pessoa carregue dois nomes para toda a vida: um para o espaço público e outro para o privado. O “nome bom”, aquele pelo qual a criança será chamada na vida pública é, por tradição, uma escolha da avó materna. Uma carta extraviada impede que Ashoke saiba o nome que a avó de Ashima quer para a criança e eles são obrigados a registrar antes de sair do hospital um nome apenas. É quando Ashoke opta por Gógol. Depois de um tempo e ainda sem resposta da carta, descobrem que a avó de Ashima sofreu um derrame e está impossibilitada de falar ou lembrar de algo. Escolhem o “nome bom” Nikhil para o seu filho mas já não conseguem fazer a mudança nos papéis oficiais. Esse imbróglio é um pedaço do romance familiar que marca a vida do nosso xará.

No seminário em que fala sobre A identificação, o psicanalista francês Jacques Lacan percorre um caminho de argumentos que vai da lógica à linguística para falar do nome próprio a partir de uma relação da função da letra no inconsciente. A palavra francesa para letra é lettre que também significa carta, algo que é bastante explorado por Lacan em outros momentos. O nome próprio é a possibilidade dada ao sujeito de entrar na fala e na linguagem e também em uma cadeia de significantes que culturalmente já foi estabelecida. Há uma intimidade grande que estabelecemos com nosso nome marcada por uma relação moebiana entre o pertencimento e a falta. A função do nome é ser a palavra que nos mostra o que é próprio, algo que nos distingue e possui uma proximidade tão grande com o corpo que passa a ser a condição para que exista um corpo.

A criança precisa dar conta de seu nome desde muito pequena. Quando entra na escola e precisa ser chamada por ele, há um movimento de se responsabilizar por algo que ainda não se entende muito bem. Ao matricular o filho na escola, Ashima e Ashoke se veem diante da dificuldade de explicar que o “nome bom” dele é diferente do que está na certidão de nascimento. Querem que a professora o chame de Nikhil mas o próprio menino não reconhece essa identificação e, diante da estranheza, acaba sendo chamado como Gógol tanto em casa como na sala de aula. Esse é o não-lugar que ele ocupa tendo nascido nos Estados Unidos, herdeiro de toda uma ancestralidade indiana e nomeado como um russo.

Quando Gógol está na sexta série uma excursão com a escola o leva para visitar a casa de um poeta ou uma poeta nos arredores de Boston, cidade onde sua família reside por causa do trabalho de seu pai como professor universitário. No livro não é dito o nome de quem eles foram visitar e fiquei me perguntando se o tradutor não tinha pressuposto que era um poeta quando na verdade era uma poeta. Chequei no texto em inglês e lá está apenas ‘a poet’. A descrição que é feita da casa e do cenário é muito parecida com uma pequena cidade de Massachussets chamada Amherst, lugar onde viveu a poeta Emily Dickinson. Ficaremos com mais essa indefinição que tem a ver com a forma e o conteúdo da história que Lahiri narra. A visita termina em um cemitério e os professores sugerem como projeto decalcar em uma folha a imagem de uma das lápides. Enquanto a maioria dos colegas vai em direção a nomes parecidos com os seus, Gógol sabe, apesar da pouca idade, que não encontrará ali nenhum Ganguli, o sobrenome da sua família. Começa a procurar nomes que sejam também diferentes e faz uma série de desenhos com esse tema, nomes que já estão quase apagados pelo efeito do tempo, nomes que já foram ou serão em breve esquecidos.

Ele gosta desses nomes, gosta de sua estranheza, sua exuberância. “Puxa, estes são nomes que a gente não vê muito hoje em dia”, comenta um dos monitores, ao passar e olhar os decalques dele. Meio que nem o seu. Até agora não tinha ocorrido a Gógol que os nomes morrem com o tempo, que perecem assim como as pessoas. No ônibus de volta para a escola, os decalques feitos pelas outras crianças são rasgados, amassados, jogados nas cabeças dos outros, abandonados sob os bancos verde-escuros. Mas Gógol fica em silêncio, enrolando cuidadosamente seus decalques no colo, como um pergaminho.

 O que há num nome? É a pergunta que faz Julieta na tragédia de Shakespeare ao tentar desvencilhar-se daquilo que a impede de amar alguém. Uma questão que diz muito sobre o movimento do corpo em relação ao nome, que indica o reconhecimento de um outro indesejado que também constitui o eu.

Voltando ao seminário A identificação, Lacan diz que depois de ser nomeado o sujeito precisa de um esforço para se reconhecer naquele som e grafia que estão ali para representá-lo. O nome faz furo no corpo e ao mesmo tempo é a costura que se estabelece entre o sujeito e a cultura. Quando adolescente, Gógol decide mudar seu nome, um trâmite jurídico relativamente simples nos Estados Unidos: basta preencher um formulário e comparecer na frente de um juiz. Seus pais não aprovam a ideia mas como eles estão em outro país que permite essa mudança, não impedem a decisão do filho. Depois de muito pensar, Gógol decide que nos documentos oficiais se chamará Nikhil, nome bengali pelo qual seria conhecido publicamente se tivesse nascido na Índia. O nome russo lhe parece estranho, não tem a ver com sua aparência nem com o lugar onde mora. Gógol ainda não sabe a causa de sua nomeação, o acidente de seu pai e como aquele livro foi um amuleto que salvou sua vida.

Saber disso alguns anos depois muda sua relação com o nome, parece que a estranheza diante dele desaparece. Ainda se apresenta como Nikhil e guarda essa ligação com o pai como um segredo. É como fazer as pazes com o desconhecido que o habitava, não é só o nome de um escritor russo, é o nome que foi usado pelo seu pai para elaborar aquele trauma. Quando lhe é revelada a verdadeira razão dele ser Gógol, pergunta ao pai se quando ele o olha lembra do acidente. O pai responde que não, pelo contrário, lembra de todas possibilidades que vieram depois. É a transmissão do desejo de continuar vivo.


Tatianne Dantas é mestranda em Psicanálise: Clínica e Cultura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e autora da newsletter Um Lapso Sutil.

Ilustração de Carolina Nazatto

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