Fechar uma cortina, descer uma persiana de plástico, clicar sobre um vidro e aceitar que se faz noite, que agora a cidade fica de fora, que agora o mundo pára, que todas as vozes se silenciam. Como? Se a cidade falava sempre a sua língua de artifício, a sua língua de víscera.

Foi no médico: Há meses que acordo de noite, acordo e o sono não volta. Quando começou, perguntou o médico, Não sei ao certo. A que horas desperta, Não olho o relógio. E o que faz, O que faço, Quando acorda. Nada, Nada? Nada, fico ali quieta de olhos fechados, A dar voltas às ideias? Ela não ri. Sim, a pensar. Olhe, mas veja, não faça isso, levante-se, beba algo quente, leia, tome um banho, não fique nervosa.

Cumpriu as ordens: o banho com as gotinhas de alfazema, aliás muito boas para relaxar e cicatrizar as feridinhas de faca, garfo, e spray desengordurante do seu dia a dia; e leu os livros enfadonhos que a devolviam à cama, para depois se negarem aos sonhos.

Começou a contar os mosquitos, como alternativa às ovelhas que eram figuras quase fantásticas por ali. Abria a janela e a cidade entrava pela casa. Reflectia na parede branca de sua sala, que cúmplice, espelhava ali cores e ritmos de seus horrores e seus prazeres. Os olhos dela secavam, a testa contraía, presos no desenho abstrato da vida à qual desejava se subtrair.

Era de noite, escutou um carro que subia a rua. A luz dos faróis entrou pela casa, rasgando a parede-tela, furando a cidade, e desceu pela estante, pela televisão, pelo chão de madeira encerada. Uma canção ecoou distraída pela rua, depois uma porta do carro que se fechava, um bip-bip e alguém que assobiava.

Uma noite, outra noite. A luz, o carro, o assobio, o caminhar, e a luz da janela de frente que se abria. Uma espiada, outra, e no escuro da sua sala a intimidade daquele vizinho era-lhe revelada. Entrava em casa, suspirava de costas para a porta. O peso do mundo, ou talvez só daquela cidade, desabava sobre o seu rosto. Descia pelos dedos que, vagarosos, descalçavam sapatos, meias, e desalojavam botões de punho. Caminhava até à cozinha. Abria a geladeira, o puxador de plástico amarelo soltava-se e ele recolocava-o, devagar. Tirava um pastel e uma garrafa de cerveja, pequena. Comia de pé olhando a rua suja, a cidade ao longe, indo e vindo, subindo e descendo, amarrada ao rio. Sobre a mesa da cozinha tinha um livro, ela calculava que ele lia cinco a dez páginas. Depois desaparecia para dentro de casa e voltava de pijama, cabelo escuro pingando as suíças, reluzindo as gotas no peito, e pendurava a toalha no estendal. Tudo se apagava, era hora de voltar para dentro da sua escuridão e dormir.

O dia passava-o com Ludovico. Ficava horas a conversar, a alimentá-lo, a ouvi-lo cantar. De tanto olhar as suas penas amarelas, pensou, porque não deixar o amarelo insípido do chá de camomila e deliciar-se com uma geladinha. No escuro, acompanhou o homem com a bebida. Seria o lúpulo, ou a pequena embriaguez de quem não está acostumado, mas essa noite, adormeceu mais rápido.

Na feira semanal comprou: ovos, farinha, carne picada. Acompanhou-o com o pastel e a cerveja, na escuridão da sua casa. Dormiu com um quentinho no centro de si, talvez azia ou refluxo, ou até um câncer no esôfago como aquela tia, lá em Minas. Mais não pensou, adormecera.

De vez em quando, vozes fortes desafiavam o vento e o mar, ou assim ela imaginava. Ele esperava a voz na rádio sossegar e fechava a porta. Bip-bip. Um vizinho gritava: Cala essa porra aê! A porra era ópera. Essas noites, a cidade estava ali, demasiado perto, e ela deixava a cerveja tempo a mais no congelador, ou nervosa, aquecia o pastel no forno e não na frigideira.

De não ser assim, a cidade deixava-se ficar ao longe, o pastel vinha estaladiço, a cerveja cantava quando soltava a tampinha. E o corpo pedindo mais fresco, mais fresco e ela mais perto da janela, mais perto da janela. Olhava a cidade mordendo o pastel de carne, de catupiry, de pizza, sorvendo da garrafa e não do copo, arrotando baixinho.

No escuro, separados por retalhos de asfalto, os dois obedeciam a uma mesma ordem: os braços subiam e desciam ritmados; as bocas ruminavam pautadas uma pela outra e se um estava na luz e o outro na escuridão a mesma lei os obrigou ao equilíbrio. Ele apagou a lâmpada do tecto e acendeu a do exaustor. Ela deixou o escuro, acendeu a do abajur.

Sem espanto os olhares encontraram-se. Um aceno de cabeça, de mão, a cerveja brindando. Um livro que apareceu embrulhado em jornal à porta de casa, uma coleção antiga, e um bilhete: Era da biblioteca da minha tia. As cinco a dez páginas de cá, as cinco a dez, de lá. A escuridão bebendo os dois, cada um em sua casa.

E o tempo longo, rebentando manso sobre a cidade, que ficava muda atrás da cortina, despida na persiana, fresca sobre o clique do vidro.


Raquel Laranjeira Pais vive e trabalha em Lisboa. É psicanalista e escritora. 

Ilustração de Celeza Ramalho

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