“Dou-lhe este relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo o seu fôlego tentando conquistá-lo. “

Com o rifle numa mão e o livro na outra, fico um instante sem saber o que fazer. Parece um momento de fato esquecido, no escanteio do relógio. Ouço vagamente o barulho das botas no chão duro e o baque das ondas nas rochas. A voz estridente do Coronel Montagna, que normalmente me faz rilhar os dentes, soa longínqua, abafada. Vejo o título da capa e o nome do autor e os reconheço, da estante de meu pai, hoje sabe-se lá em que estado. Lembro de como ele o admirava, de como tentava explicar para minha mãe, que só gosta de biografias de santos, a maravilha que eram aquelas páginas, aquelas frases num estilo difícil, mas recompensador. Nunca o li por causa de Teresa, que abomina novidades. Quantas coisas não fiz por causa dela! E quantas outras fiz, também por causa dela. Como estar aqui, com esse livro na mão, o rifle na outra, a baioneta meio frouxa, tentando entender por que esta frase está grifada com tanta ênfase, com caneta, sem possibilidade de ser apagada, e tentando atinar quem poderia ser o dono daquele romance estranho, que mexia tanto com a cabeça do meu pai.

Não há carimbo, não há assinatura em nenhuma das primeiras folhas. Os soldados do Forte eram meros burocratas, rapazes normalmente sem fibra para a luta ou sem imaginação; um desafio descobrir quem dali poderia ter o mesmo gosto subversivo do meu pai, que talvez esteja preso ou foragido a essa altura, e que certamente nunca vai perdoar minha opção. Olho em volta, levanto-me, procuro uma janela. Eles estão do outro lado do pátio, encostados na parede, meio assustados, sem muito motivo. A invasão do Forte foi uma vergonha, com o Coronel Montagna fazendo seu papel de machão à John Wayne, esbofeteando o pobre sentinela para entrar numa guarnição que já estava praticamente rendida. Será que esse sentinela é o dono do livro? Será ele que o lê nas noites de vigília, com a caneta na mão? Será ele quem tenta se convencer de que o tempo pode ser esquecido?

Sou chamado. Tento colocar o livro no bolso do paletó. Não cabe. Se estivesse com o uniforme caberia, mas viemos à paisana, como elemento surpresa. O subterfúgio é tão ridículo quanto a força do sol do meio-dia e os gritos marcialmente caricatos de nosso chefe. Só mesmo rindo. Até Teresa riria, se soubesse das reais condições. Arranco a página com a frase grifada e deixo o livro sobre uma banqueta, na esperança de talvez encontrá-lo depois. O coronel certamente vai mandar que cerquemos o Forte e eu provavelmente estarei logo ali, para minha glória e infortúnio, na entrada que dá para a Avenida Atlântica, bem perto dos escritórios da TV Rio, onde serei visto por todos e julgado ou celebrado. Ao menos sei que Teresa há de aprovar. E, afinal, é só por ela que estou aqui. É só por suas pernas, por sua boca, pela calcinha que finalmente arranquei-lhe na semana passada, que estou aqui, me envergonhando, desgraçando o nome da família, cobrindo de luto quem me trouxe ao mundo.

Como imaginei, o Coronel me coloca logo na entrada. Ah, como eu queria não estar ali. Olho para o lado e vejo Santos e Beraldo. Peço um cigarro, e eles, nervosos, nem respondem. Posso ver o esforço com que respiram, o peito preso no paletó. Estão com medo de que as forças do Aparato venham de São Paulo nos destroçar. Mal sabem eles que tudo isso não passa de uma farsa. Jango é fraco, está derrubado. Fosse Prestes em seu lugar…Para mim não há volta, sou um miserável, sofro e não me arrependo. Duas horas com Teresa bastaram para destruir qualquer vestígio ideológico que ainda restasse. A igualdade para o povo é certamente maior que Teresa, mas nada se iguala à forma como ela se mexe sob o lençol, estendendo o braço até o copo de uísque e perguntando: o que você olha tanto? O quê? Ora…

Penso na página no bolso e em quanto tempo se passou desde que invadimos o Forte, hoje cedo. O sol está alto, mas sinto como se fosse noite, deixo-me levar pela sombra produzida pela aba do chapéu. Imagino as nuvens cruzando lentamente o céu, alheias a toda balbúrdia terrena. Acendo, enfim, um cigarro, mas é semana passada. Estou também de vigia, diante de um prédio em Copacabana, tentando ver Teresa entre os passantes, tentando adivinhar-lhe o vestido, o pescoço longo, que tanto gosto de morder. Quando crianças, brincávamos de vampiro, era a deixa. Até que meu pai nos pegou num abraço que certamente lhe pareceu inapropriado, na despensa. Pediu a Teresa que saísse e me deu um tapa. Não precisava dizer nada; eu sabia que o filho do motorista não podia namorar a filha do patrão. Mas ela continuou a sugar meu sangue, o que fazia com força e vontade proporcionais às minhas esquivas. Não a vejo quando chega. Põe as mãos nos meus olhos. Não gosto, ela sabe. O apartamento é de um amigo, suspeito que um antigo namorado, o que me deixa com raiva, que tenho de engolir. Ouço sua risada e chacoalho a cabeça; penso no desdém que emana das colegas de colégio, dos playboys e seus carros, da forma como desperdiçam as coisas, porque sabem que serão substituídas na primeira oportunidade. Coisas e pessoas. Eu provavelmente sou uma delas. Sou, Teresa, uma delas? Queria que morressem, todos. E restassem apenas eu e ela, num lugar sem prédios e testemunhas, sem diplomas e contas no banco. Ela percebe meu olhar contrariado e arranca o cigarro dos meus lábios para me beijar.

Aqui não, digo.

Aqui não, aqui não. Beraldo e Santos continuam tremendo. Vergonha. Jamais estariam entre os 18 do Forte. Ah, Teresa! Meu corpo dói sem você, dói sem a visão de sua pele queimada, nua, dói! Não me dou conta de que também tremo. Somos três infelizes, e eu o maior de todos. Justamente porque não tenho medo. O grito odioso do Coronel faz meus músculos, amolecidos pelas lembranças, se retesarem de pronto. Tenho vontade de socá-lo até transformar seu rosto numa sopa de sangue. Um rosto não muito diferente daquele do amigo de Teresa, rosto bem nascido, podia ser seu pai. Como se percebesse meu ódio, pergunta-me que cara é essa, o que eu olho tanto? Nada, digo. Nada, Senhor! Repito, nada, Senhor! E bato os calcanhares, como os nazistas. Não sei se ele notou a ironia, fato é que resolveu encostar o nariz no meu nariz e me inquirir de diversas maneiras. Respondi como pude, incrédulo que perdesse tempo com um reles tenente num momento histórico como aquele. Até que se afastou e viu a ponta da página rasgada em meu bolso. Por instinto, cobri o bolso com a mão, apertando-o junto ao corpo. O gesto, sem importância real, foi como se eu me denunciasse. O que é isso?, perguntou.

Como poderia explicar-lhe que isso é o tempo esquecido, é a fé de meu pai na arte, é a prova da traição que cometi? Meu pai, um motorista letrado, que lia dentro do carro enquanto esperava o maldito James Hellback, o hipócrita Mr. James. Cheio da grana, o gringo se casara com a mãe de Teresa, ex-Miss Guanabara. Era ele, santa ironia, quem lhe dava os livros: Amado, Faulkner, Dos Passos. Mal sabia que eram todos comunistas. O inglês, meu pai foi aprendendo, com dicionário e inteligência. Mr. James tinha orgulho dele, como se fosse um bicho de estimação. E só não o exibia demais porque de alguma forma o respeitava e talvez até o temesse. O silêncio e dignidade de meu pai eram mortais para um sujeito tagarela e mau caráter como ele. Mr. James não era burro e no fundo devia desconfiar das simpatias de meu pai, pois não perdia uma oportunidade para desmoralizar Prestes. Parecia divertir-se com esse jogo tácito, que nunca tinha resposta. Em compensação, quando o assunto era o Botafogo, Cacilda Becker ou os filhos, conversavam animadamente, como velhos amigos. E talvez o fossem, de algum jeito estranho.

Eu e ela, os filhos…O que é isso?, insistiu o coronel. Entreguei a ele a página rasgada. Enquanto ele lia o parágrafo sublinhado a caneta, olhei por cima de seu ombro para as pessoas que se acumulavam a cem metros dali. Nada mais me preocupava. Eu merecia aquela situação. O tempo deixara mesmo de existir. Teresa me levava para trás da cortina e levantava a saia para me mostrar sua calcinha. Aos cinco anos eu tinha pudor, e me recusei a olhar. Ela me deu um tapa. Isso é alguma brincadeira, tenente? Então olhei. E lá estava ela, em meio à pequena multidão que se formava, vestido vermelho, só podia ser! Aquele cabelo, aquele jeito de inclinar a cabeça…Ao seu lado, o maldito dono do apartamento. Estarei vendo direito? Ia gritar, quando me seguraram. Fui levado para dentro, por um corredor úmido. Passamos pelo pátio, onde estava, possivelmente, o dono do livro. Sentia meus pés se arrastando no chão. Fechei os olhos. A luz que atravessava as pálpebras diminuiu de repente. Ouvi um barulho metálico. O primeiro soco me atingiu o estômago. Uma paulada nas costas me derrubou. Um pontapé no rosto quebrou meu nariz e fez o sangue escorrer até o queixo. O que quer dizer isso? A que grupo você pertence? Esse “relógio” é algum código? Quem é o chefe da operação? A calcinha era cor de rosa, como de toda menina. Mas ela não era uma menina, era um demônio. Agora me mostra o seu!, exigia, apontando para meu shorts com o dedinho pintado de vermelho. Eu não quis e ela me deu outro tapa e cruzou os braços. Abaixei com relutância meu calção. E então ela abaixou a calcinha e, com um puxão, abaixou minha cuequinha também. Quem é o chefe da operação?, ouvi gritarem, depois de, amarrado, levar um choque ali, onde ela pegou pela primeira vez, com sua mãozinha autoritária, de pele macia, adorável. Quem é o chefe da operação? Outro choque. Quem é o chefe da operação? Mais um. Quem é o chefe? Quem é? Quem? Na sétima ou oitava vez, disse, simplesmente, como num sussurro de amor, como se você estivesse na minha frente:

Teresa.


Daniel Benevides é jornalista, editor e tradutor.

Ilustração de Celeza Ramanho

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