1. #1766, Emily Dickinson

As águas o perseguiam na fuga,
Sem ousar olhar para trás;
Uma onda lhe sussurrou ao Ouvido:
“Vem comigo, caro amigo;
Meu salão é feito de vitrais
E há peixes na despensa
P’ra todos os gostos anuais” –
A essa revoltante aventurança
O objeto flutuante a seu lado
Não deu qualquer resposta clara.

(Tradução de Denise Bottmann)

 

2. Ó grefas belezas dos fúlgidos subúrbios, de Denise Bottmann

Sônia parecia russa, e o tio sabia (dizia ela)
quarenta e duas línguas (ou seriam dez?).
Magra, magra, olhos verdes,
e feia.
O outro tio era açougueiro.
O portãozinho de ferro se abria,
paraíso esconso da sensualidade.
O espelho ocupava a porta toda do armário.
E Sônia exibia os peitinhos mirrados,
nua, os pelinhos fulvos mais embaixo.
Reta, em pé, uma elipse entre as coxas.
Ela se debruçava na janela,
acenava para os passantes.
Eu ia embora, com gosto de chocolate quente na boca.


Denise Bottmann é historiadora, tradutora e autora do blog Não gosto de plágio.

Ilustração de Carolina Nazatto

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