O que há de extraordinário na trama de Corpo e Alma (Teströl és Lélekröi, 2017),  filme da diretora Ildiko Enyedi, com Alexandra Borbély (Mária) e Morcsányl Géza (Endre), é — posso revelá-lo agora pois o filme já há um certo tempo saiu de cartaz— que os dois protagonistas principais, Ela e Ele (vou chamá-los assim para não cometer lapsos com os nomes húngaros) compartilham de um fenômeno completamente inesperado, que se torna o pivô da história. Devido a um roubo que ocorre no abatedouro onde ambos trabalham — Ele como diretor financeiro, Ela como  inspetora de qualidade —, é chamada uma psicóloga que, para descobrir o “culpado” vai compondo o dossiê de cada funcionário, onde entra também a pergunta: “o que sonhou esta noite?”

Para grande surpresa nossa, da psicóloga e dos dois protagonistas, descobre-se que ambos sonharam o mesmo sonho. O fato de o sonho retratar  um bosque invernal com o solo coberto de neve, com um riacho semi-congelado escorrendo sua água cristalina até um pequeno lago onde dois cervos, macho e fêmea, se abeberam tocando seus focinhos, é apenas uma das tantas imagens argutas e delicadas que moldam o filme, sobre o pano de fundo cruento do matadouro.

Por que pivô da história?

Ora, caso não soubessem dessa insólita coincidência, os dois protagonistas, que haviam sentido uma vaga atração recíproca desde o início, podiam sim ter tentado aprofundá-la, mas ao primeiro insucesso — devido à excessiva timidez da moça (quase autista) que coloca um colchão para Ele dormir, ao lado de sua cama — teriam dado a tentativa  por encerrada. É isso que Ele faz, parte para uma noite de sexo consumado com uma velha e mais fogosa conhecida.

Só que na hora do desespero, quando Ela pensa em dar por encerrada não apenas a aventura frustrada, mas a própria vida, o telefone toca e ambos confessam um ao outro seu até então inconsciente amor.

Se o sonho de ambos é utilizado aqui de acordo com a interpretação freudiana canônica do deslocamento/realização de desejo, há autores que se valem dos sonhos de forma, digamos, mais particular.

Em seu recente tradução autoral de Finnegans Wake, de James Joyce (Editora Iluminuras, 2018), Dirce Waltrick do Amarante lembra que, além de tudo o mais, Finnegans Wake é um grande sonho e, como tal, feito de detalhes, de nuances de fatos, de fios que podem ser puxados de modo original por cada tradutor que compõe sua própria síntese interpretativa. Ela faz isso, na sua tradução e na nova organização dos que Freud chamava “elementos” isolados que, como se sabe, são retirados da “fachada” de coerência que o sonho lhes impôs no seu conjunto,  e que ela chama “menires”, selecionados por ela de acordo com sua linha interpretativa, diferente da dos irmãos Campos que, em seu Panaroma do Finnegans Wake (Editora Perspectiva, 2001), apresentaram o que consideraram os “momentos mágicos” da obra.

Já os poetas John Cage e Anna Hatherly — referidos no livro de Dirce — cada um a seu modo, usaram textos do Finnegans para sua própria arte. O exemplo que ela traz de Cage, convidado pela revista TriQuarterly a escrever uma música ou um poema baseados na obra de Joyce é bastante ilustrativo: “(…) ele decidiu abrir o livro de Joyce ao acaso. A página sorteada foi a de número 356. Nessa página, Cage começou, como ele conta, ‘ procurando um J sem o A. E então procurei o próximo A sem um M. Etcétera. Eu prossegui encontrando James e Joyce até o final do capítulo. Escrevi vinte e três mesósticos ao todo’.”

Aqui vai um desses mesósticos:

my lips went livid from the Joy
                                of  feAr
                         like alMost now, how?how you said
                  how you’d givE me
                         the keys of me heart.
                                     Just a whisk brisk sly spry spink
                  spank sprint Of a thing.
                                    i pity your oldself i was used to,
                                     a Cloud.
                                   in pEace.

Para Ana Hatherly (conforme Um calculador de improbabilidades, Editora Quimera, 2001),  uma frase de Finnegans Wake — “back to Howth Castle and Environs”— basta para transformar no seguinte poema:

23.back to Howth Castle and Environs

Howth
house
fauce
face
volta a face
pr’ó Castelo
que é tão belo
eenvirons
countthrice
contatrês
sobe e vê
o castelo
como é belo
como é elo
como é belo
como é como
como é cume
como é cimo
como é modo
como volta
o castelo
comovolta
à sua volta
tudo volta
como é belo
como  é elo
como é belo
o castelo
como é como
como é cume
como é cimo
como ensina
como é sina
como é mina
como ensina
como ensina


Aurora Fornoni Bernardini é tradutora, crítica literária e professora de Literatura Russa e Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo.

Ilustração de Celeza Ramalho

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