Os diálogos entre textos ou, talvez melhor dizendo, as conversas de mão única entre diferentes textos e autores constituem, provavelmente, a sede mais rica e mais bem abastecida de experiências, o locus por excelência da vida autoral.

Nem sempre, porém, ficam claros à leitura os elementos tratados nessas conversas de mão única de um texto a outro. Um exemplo que me é caríssimo é a relação que Edgar Allan Poe travou com Henry David Thoreau, adotando e desdobrando amplamente uma figuração metafísica deste último. Vejamos.

Thoreau, numa entrada em seu diário em agosto de 1838, havia escrito uma nota chamada “The Time of Universe”. Ali dizia ele:

THE TIME OF THE UNIVERSE
Aug. 10. Nor can all the vanities that so vex the world alter one whit the measure that night has chosen, but ever it must be short particular metre. The human soul is a silent harp in God’s quire, whose strings need only to be swept by the divine breath to chime in with the harmonies of creation. Every pulse-beat is in exact time with the cricket’s chant, and the tickings of the deathwatch in the wall. Alternate with these if you can.

Em seu “The Natural History of Massachusetts”, longo artigo que saiu anônimo no periódico transcendentalista The Dial em 1842, Thoreau utilizou sua nota acima, enxugando-a para:

“Nor can all the vanities that vex the world alter one whit the measure that night has chosen. Every pulse-beat is in exact time with the cricket’s chant, and the tickings of the deathwatch in the wall. Alternate with these if you can.”

Embora o termo se aplicasse outrora a vários coleópteros, o deathwatch designa mais particularmente o Xestobium rufovillosum, um pequeno coleóptero da família dos carunchos, apreciador especialmente de madeira de carvalho, já meio umedecida ou embolorada, seja na mata ou em velhas casas de madeira. Ele emite um som regular, que faz lembrar o tique-taque de um relógio, e, geralmente estando dentro da madeira, fica oculto ao olho humano. Por superstição popular, esse som ficou associado a um presságio sinistro, prenunciando a morte — e daí o nome do inseto, deathwatch, “relógio da morte” (aliás, em francês o bichinho, la grosse vrillette, também tem o nome de horloge de la mort.) Paralelamente, vale lembrar que deathwatch significa também a vigília de um moribundo ou ainda o velório de um morto.

Já a analogia literária — ou a síntese de fundo romântico-transcendental — de Thoreau entre o cricrilar do grilo, o tiquetaquear do caruncho e o bater do coração (e durante a noite) era, esta sim, ao que consta, inteiramente original.

Assim, aguçada minha curiosidade pelo breve artigo de E. Arthur Robinson a tal respeito, pareceu-me extremamente sugestivo e até esclarecedor reler em The Tell-Tale Heart (1843), de Edgar Allan Poe, a passagem:

“He was still sitting up in the bed, listening; just as I have done night after night hearkening to the deathwatches in the wall.”

Como se sabe, “O Coração Delator” (ou denunciador, ou revelador, variam as traduções) descreve, a partir de certa altura da narrativa, a alucinação crescente de um assassino que sente latejar em seus ouvidos um som cada vez mais alto e pulsante, que por fim julga ser o coração do velho que havia esquartejado.

A situação inteira é muito interessante: oito longas noites de silenciosa e sinistra vigília, à espera da ocasião propícia para liquidar a vítima. O assassino no escuro, sozinho, o velho dormindo, imagina-se o vazio sonoro em que qualquer mínimo ruído repercutiria muito. Digno de atenção o verbo hearkening: não apenas ouvindo casualmente, mas escutando com muita atenção. Basta pensar: oito longas noites de profundo silêncio, ouvindo com atenção obsessiva os prenúncios de morte, os deathwatches in the wall! A psique como que esvaziada após se dissolver a tremenda tensão acumulada até o momento do assassinato; os carunchos que, imagina-se, continuam a tiquetaquear na madeira, mesmo tendo o assassino se esquecido da existência deles; a sensação de um terrível aumento do espaço interno de sua cabeça; a pulsação rítmica se avolumando na tremenda caixa de ressonância em que se transformou a mente do protagonista, finda sua vigília de morte; quase como consequência de férrea lógica alucinatória, surge a projeção final do som do caruncho fatídico para a pulsação do coração do morto.

E ainda mais interessante é constatar esse vínculo entre uma referência muito concreta— o som no interior da parede — e o enlouquecimento progressivo do protagonista. Isso, a meu ver, enriquece, dá uma densidade bem maior ao processo psicológico do personagem do que se se alimentasse apenas de sua ansiedade mental, desligada de qualquer elemento exterior tangível.

Depois de reler o conto à luz da conexão entre Thoreau, com sua rica analogia metafísica entre o tiquear do caruncho e o bater do coração, e Poe, com sua transposição alucinatória do tiquear noturno dos carunchos na parede para o bater do coração do morto, sinto-me razoavelmente persuadida de que o elemento central do conto The Tell-Tale Heart é mesmo o deathwatch thoreauísta, que dá a chave para entendermos o desenvolvimento do processo mental do protagonista. Se o entrelaçamento dos sentidos na mesma expressão — o bichinho em si, o som que prenuncia a morte, a espera marcada pelo tiquetaquear desse relógio-da-morte, a vigília ao lado do moribundo, a vigília para infligir a morte — já leva a um grau não negligenciável de espessura literária, ao acrescentarmos a ele a ligação tácita (mas tão convincente, praticamente inegável depois de a conhecermos!) com o pulse-beat, a batida do coração de Thoreau, a interligação dos elementos da narrativa lhe confere qualidade adicional.

Ainda a essa luz, outros detalhes adquirem interesse renovado: o som que o velho ouve após despertar; sua esperança de que o som pressago seja apenas um cricrilar, as outras menções a relógios. E se considerarmos que, tradicionalmente, o grilo é sinal de boa sorte, simétrico inverso dos maus presságios do deathwatch, –, a própria esperança do velho de que aquele som fosse um cricrilar encontra seu lugar dentro de um arcabouço de muito maior consistência.

E aqui relembremos a bela tríade cósmica do tempo universal em sua sonoridade noturna – o pulsar da vida, o cricrilar da esperança, o tiquear da morte à espreita, nas palavras de Thoreau: “Every pulse-beat is in exact time with the cricket’s chant, and the tickings of the deathwatch in the wall“. Aí estão os sons investidos de máxima carga simbólica, numa plena correspondência que se harmoniza no mesmo compasso metafísico materializado no noturno mundo físico.


Denise Bottmann é historiadora, tradutora e autora do blog Não gosto de plágio.

Ilustração de Carolina Nazatto.

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