Uma leitura do poema “Paisagem: como se faz”,  de Carlos Drummond de Andrade

O poema “Paisagem: como se faz” do livro As impurezas do branco (1973), de Carlos Drummond de Andrade, trata à primeira vista das circunstâncias em que uma paisagem é feita. Paisagem na sua acepção artística: pintura, representação de formas naturais; e também no seu sentido etimológico: do francês, acepção de belas-artes, ‘conjunto de países’, ‘extensão de terra que a vista alcança’, de acordo com Houaiss. O título dá destaque às circunstâncias do fazer. São elas que dão as condições para que essa representação da paisagem exista. Nesse sentido da afirmação do título, subentende-se que o poema trará ao leitor o modo como a representação da paisagem se constitui e a quais circunstâncias sua existência está subordinada. Vejamos as estrofes do poema cujo andamento revela o intercurso do sujeito com o mundo sensível e com o tempo e, consequentemente, desenha o percurso pelo qual ele chegará à representação da paisagem.

Esta paisagem? Não existe. Existe espaço vacante,
a semear
de paisagem retrospectiva.

Na primeira estrofe, a frase nominal e interrogativa com que se inicia o primeiro verso relativiza a presença da paisagem no momento mesmo da enunciação do sujeito lírico. Esta paisagem do presente ainda não é, ela é apenas em potencial, como mostra o verbo semear no infinitivo. Para que a potência do vir a ser ocorra, será necessário retomar o processo de construção dessa paisagem no passado, mostrando passo a passo como ela foi criada. O que existe naquele momento é o espaço vago povoado de elementos que servem à semeadura. Retomados do passado, esses elementos mostram o processo de elaboração da paisagem no presente. Nesse sentido, a primeira circunstância negada é a maneira como se apreende o tempo presente. Sua construção e as representações a ele associadas não estão fechadas em si, mas dependem de outros fatores que se relacionam com o passado e a este estão intimamente ligados. Mas como isso se dá? É o que o sujeito irá explicar e demonstrar na segunda estrofe, transcrita abaixo.

A presença da serra, das imbaúbas, das fontes, que presença?
Tudo é mais tarde.
Vinte anos depois, como nos dramas.
Por enquanto o ver não vê; o ver recolhe fibrilas de caminho, de horizonte,
e nem percebe que as recolhe
para um dia tecer tapeçarias
que são fotografias
de impercebida terra visitada.

Nos dois primeiros versos o sujeito lírico enuncia a presença dos elementos constitutivos da paisagem para imediatamente colocá-los em xeque: a serra, as imbaúbas, as fontes não estão lá. Nos versos seguintes, o sujeito lírico projeta a paisagem para o futuro – Tudo é mais tarde. /Vinte anos depois, como nos dramas. Desse modo, ele ratifica a instabilidade do presente enquanto dado de experiência, porque está ancorado naquilo que é projeto de vir a ser no futuro e, ao mesmo tempo, depende do acúmulo de experiência do passado para se realizar. Ou seja, quando o futuro se tornar realidade, o sujeito lírico terá acumulado experiência suficiente para viver as tensões que a elaboração da paisagem exigirá dele para ser no presente. Porém, até agora neste presente, o que se vê não se constitui em dado de experiência.

A única experiência possível dada a ele no momento presente é ver e reunir elementos difusos e dispersos que lhe servirão de matéria-prima para um trabalho futuro. Enquanto a paisagem ainda for ausente, à visão cabe recolher sem selecionar e sem distinguir. O processo de apreensão do mundo sensível é naquele momento involuntário e o sujeito fala da sua visão como um outro independente dele que age por conta própria. Aquilo que se fixará em suas retinas e fará algum sentido ele ainda não sabe nem distinguir nem mensurar. O vir a ser da paisagem depende não só da matéria colhida e armazenada, mas da importância que esses elementos de composição passarão a ter para sujeito lírico enquanto conteúdo elaborado de suas próprias experiências. Nesse sentido, não é só material acumulado, mas acúmulo de experiência. O resultado da trama produz quadros, tapeçarias, fotografias que são fruto daquilo que se acumulou no passado. A paisagem é terra visitada, é experiência vivida, é o que passou a ter sentido e se fixou involuntariamente na memória. Nesta estrofe, a matéria da épica, o passado vivido e narrado, condensa-se e figura-se como expressão da lírica. Os quadros da exposição são momentos líricos que permitem mostrar o desenvolvimento da trama vivida e elaborada pelo sujeito sem, contudo, se constituírem em narrativa. Apesar da memória ser matéria da épica e traços da épica estarem presentes no poema, o que resulta, as fotografias, é expressão lírica. A cena expulsa da paisagem o que é especificamente da narrativa.

Na estrofe seguinte, o sujeito lírico volta a figurar o vir a ser da paisagem a partir dos elementos que a comporão. Mas se na estrofe anterior esses elementos possibilitavam urdir os fios para se tecer a paisagem, na terceira estrofe os elementos se relacionam à pintura. E, do mesmo modo que a estrofe anterior, ainda diz de elementos de uma imagem em potencial.

A paisagem vai ser. Agora é branco
a tingir-se de verde, marrom, cinza, mas a cor não se prende a superfícies, não modela. A pedra só é pedra
no amadurecer longínquo.
E a água deste riacho
não molha o corpo nu:
molha mais tarde.
A água é um projeto de viver.

Mais uma vez, a figuração da paisagem é um vir a ser distante, é projeto que depende do processo de elaboração da matéria que a constituirá a partir do acúmulo de experiência. Mais uma vez o jogo entre o futuro – A paisagem vai ser – e o presente – Agora é branco – evidencia que para a criação da imagem, para a realização do momento presente depende-se de uma expectativa futura que pode não necessariamente se concretizar e que pode escorrer da tela, diluir-se sem necessariamente se fixar.

Na quarta estrofe, transcrita a seguir, o sujeito lírico se depara com as coisas, mas nem sempre elas lhe dizem algo, parece mais que elas lhe são indiferentes, são ainda nada.

Abrir porteira. Range. Indiferente. Uma vaca-silêncio. Nem a olho.
Um dia este silêncio-vaca, este ranger baterão em mim, perfeitos,
existentes de frente,
de costas, de perfil
tangibilíssimos. Alguém pergunta ao lado: O que há com você?
e não há nada
senão o som-porteira, a vaca silenciosa.

A indiferença em relação àquilo que pode vir a ser significante está marcada nos dois primeiros versos no emprego dos verbos e dos pronomes demonstrativos no presente. Do mesmo modo que o artigo indefinido – uma vaca-silêncio – aponta que o presente não permite ainda definir o que fará sentido para o sujeito. No momento em que se vê não é o momento em que se vive, porque o ver ainda é um dado exterior que não discrimina nada.

Nos versos seguintes, ele anuncia que no futuro o que era exterioridade fará sentido porque passará a ser um dado da interioridade. Assim, depois de internalizados, processados e elaborados psiquicamente, os objetos da cena passarão a ser reais, concretos, farão sentido para o sujeito lírico. Por enquanto, no presente, eles não se manifestam nele e se mantêm em repouso.

Na última estrofe, a explicação toma contornos de definição e o sujeito lírico, ao mesmo tempo que figura metaforicamente a realidade por intermédio da imagem da paisagem, pensa naquilo que efetivamente contribui para a sua configuração, reflete sobre o ofício do artista, sobre o fazer poético e sobre a experiência humana, incluindo o leitor na feitura da representação do real.

Paisagem, país
feito de pensamento da paisagem,
na criativa distância espacitempo,
à margem de gravuras, documentos, quando as coisas existem com violência mais do que existimos: nos povoam
e nos olham, nos fixam. Contemplados, submissos, delas somos pasto,
somos a paisagem da paisagem.

Enquanto realidade concreta, o sujeito lírico afirma que a paisagem é território pensado geograficamente, delimitado e constituído por elementos com os quais a realidade histórica existe porque nasce da representação que a torna possível. As distâncias, tanto de tempo quanto de espaço, permitem pensar, elaborar e representar aquilo que virá a ser o real. Sobretudo porque, as coisas vivem em nós por força do pensamento. Com elas nos atritamos e elas nos mostram a força violenta de sua presença em nós; elas nos habitam e nós a alimentamos com nosso pensamento. No palco da memória, vivemos o drama de pensar o vivido, elaborá-lo e participar de sua existência. Independente dos instrumentos escolhidos ou do modo de representação, a transformação do real se dá na capacidade de representá-lo. É pintura, é literatura, é exercício da memória.

Observação: Este artigo surgiu da discussão feita no grupo de orientandos da Prof.ª Dr.ª Ivone Dare Rabello. Agradeço a ela e aos meus colegas Juliana Paula Souza, Tânia Borges e Carlos Moacir Vedovato Jr. pelas sugestões dadas.


Fátima Ghazzaoui é doutoranda em Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo.

Ilustração de Carolina Nazatto.

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