1.

a poesia no mundo

peço que a bruxa em mim
me ocupe
me instale
me habite
brava brava
reminiscente do passado
advinha do futuro
que me tome a mão
do asfalto ao pântano
bagre sapo baço
desate as bestas
adivinhe os algoritmos
me cuspa linguaruda
me fure o pulmão
peixa esguia cobra lisa
que a língua é com que se mede o infinito

 

2.

chamado

os cultos me dizem
ao que vim licântropa lobanil
os pastores me dizem faminta
assombração demônia
o papa bem
me ignora ocupado em tuitar versículos
nos fóruns lobiszinha lobisoma
não é falta de nome

é lua clara
sou a lobisomem

 

3.

este dia é um dia na tua vida

por onde largou a carcaça?
perde três quilos de pele por ano
no pó dos tampos
no farol das avenidas
na fuga meia-voz em surdina
trinta quilos de pele por década
uma cobra sem ritual
uma cigarra sem verão
quem não colheu o dia
nem menos confia no amanhã
noventa quilos de pele aos trinta
teu corpo é o cadáver nascido
é um espelho que não se alumbra
teu corpo é o frio da sombra
é um copo na estação perdido
por onde largaste a carcaça
dos teus dias que sobrou?

 

4.

queimem as cadernetas

queimem as cadernetas!
não deixe nada por escrito nunca
o finado legado da tua porca miséria!
jogue aos urubus pedradas de chuva,
pois o mundo é escorregadio como um rato.
sabia que gravam inclusive o que você desistiu?
gravam o que você desistiu de submeter,
o que você desistiu em você
na tua porca vida?
e no dia do juízo vão projetar
todas as tuas mensagens
num seboso telão no prédio da fiesp? é sim, no grande juízo!
vão rasgar teus véus de medo amarelo, acossar tuas amizades
até o vazio imundo, sabia? tudo o que você submeteu
ao canal com restos de barrigada, ao facebook,
ao leito de pedras e animais carniceiros,
ao olho transparente dos peixes mortos frescos e de carne rija!
nesse céu baixo, do futuro incerto,
pega essa tua cara estúpida, caixote escuro,
queima as cadernetas num escândalo!
e finja que se submete como você prefere a tua nudez.

 

5.

campos de lua

noite noturna
o vermelho é a única cor
o resto não tem gosto

e pode começar a correr
pq eu vou te carnar

vou te carnar
e te botar meu espartilho
de costelas emprestadas
avalanchar os demônios
que moram dentro das minhas
asas cortadas

vou te carnar
e te cheirar a sangue
pele pelo cigarro
te lanhar as tatuagens
corpo a corpo poro a poro
ponto a ponto

vou te carnar
até vc existir
diante de mim

noite noturna
o vermelho é a única cor

 

Agradecimentos às inspiradoras Anna Clara de Vitto, Cris Ventura,
Francesca Cricelli, Marcia Fraguas, Tarsila Mercer de Souza.


Ana Rüsche é escritora e ministra oficinas de criação literária e cursos sobre arte contemporânea. Doutora em Letras pela Universidade de São Paulo.

Ilustração de Carolina Nazatto.

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