Notas sobre as Tecnologias da Memória

Após vinte e cinco anos na frente de um computador, foi só quando parei para refletir sobre a memória como tema isolado que me dei conta do que há de estranho em já ter comprado memória— e comprado memória mensurada! São meus três HDs externos, meu celular com mais memória, meus pen drives (que, em inglês, são mais frequentemente chamados de USB keys). Essas tecnologias não só servem de metáforas para a memória, como ainda afetam a memória psíquica individual e coletiva, e também a cultura.

Neil Postman, falecido diretor do departamento de Communications Studies da New York University, onde comecei minha carreira universitária, não teria ficado contente com minha demora em estranhar a mensuração hexadecimal e a compra de memória, mas, fiel a seu campo de estudos, teria entendido que estou imerso numa certa cultura, que essas tecnologias são na verdade o pano de fundo da minha vida, aquilo que deve tornar-se invisível para que eu dirija minha atenção para algo mais importante.

Seu livro Technopoly (também publicado no Brasil) começa com uma discussão do impacto que a escrita, também ela uma tecnologia, tem na memória. No diálogo platônico Fedro, o rei egípcio Thamus aceita várias tecnologias que o deu Thoth oferece, mas rejeita a escrita, alegando que ela “é um elixir não da memória, mas da reminiscência”, que seus adeptos “deixarão de exercitar a memória, ficando muito esquecidos”, e “terão fama de sábios sem realmente ser”.

 

A Terceirização da Memória Cria a “Literatura”

Cem anos depois de Platão, que faleceu por volta do ano 348 a.C., a terceirização da memória que é a escrita já alterava, no mundo helenístico, a percepção das necessidades humanas e a própria noção de literatura. Poucas coisas dão melhor a ideia de uma necessidade criada por uma tecnologia do que a Biblioteca de Alexandria. Se é possível registrar o que se fala, nada mais natural do que um rei egípcio ter a vaidade de acumular esses registros. Assim surgiu aquilo que chamamos de Biblioteca de Alexandria, na verdade parte do Museu de Alexandria — e “museu” nada mais é do que o instituto das musas, entre as quais Mnemosyne, a musa da memória.

Um dos funcionários da biblioteca, responsável por catalogar (e, portanto ler) os manuscritos foi Calímaco de Cirene, em vários sentidos o primeiro poeta moderno, porque a apreciação de sua obra depende do acesso a memórias terceirizadas, registradas. Seus poemas referem-se a outros textos, pressupondo um leitor que os conheça. Mais ainda, eles também pressupõem a possibilidade de releitura imediata, para que os jogos verbais — sonoros, semânticos, sintáticos — possam ser captados. Essa releitura, é claro, deve ser feita na paz e na quietude. Trata-se de algo totalmente diferente da poesia homérica (que Calímaco dizia detestar), cantada em praça pública, com acompanhamento musical, com fórmulas verbais sempre repetidas para oferecer muletas às memórias da plateia e do rapsodo.

Em suma, e dando alguns passos adiante: sem essa terceirização da memória que é a escrita, talvez nunca tivéssemos tido a literatura moderna. Porém, eu disse “alguns passos”, porque, na verdade, até agora só houve uma outra tecnologia cujo impacto sobre a literatura e sobre a memória teve impacto comparável: a imprensa móvel, inventada por Gutenberg.

Já sabemos que, com a invenção da escrita, foi o escrito que passou a representar a “verdade” na vida social. A palavra “Bíblia”, ou biblía, em grego, nada mais do que o plural de biblíon, diminutivo de byblos, “rolo de pergaminho” ou “livro”. Dizer que “a Bíblia diz” originalmente era apenas dizer que “um certo conjunto de escritos diz”. Hoje temos contratos, oferecemos provas documentais. Um acordo escrito vale mais do que um acordo falado. Uma das principais discordâncias entre católicos e protestantes, aliás, diz respeito ao peso relativo da Bíblia e da tradição, isto é, da memória coletiva. Essa discordância serviu de pretexto para as guerras de religião europeias, e a Paz de Vestfália ainda é a base da política internacional moderna.

 

Memória Involuntária e Verdade

No entanto, em algum momento, provavelmente no começo do século 20, quando a quantidade de memórias terceirizadas já subia aos céus, a literatura começou a sinalizar uma mudança naquilo que se aceita como verdade, isto é, naquilo em que o leitor está disposto a acreditar para manter a “suspensão voluntária da descrença” de que falava Coleridge.

Escrever é um ato voluntário, mas a memória involuntária parece mais verdadeira: não só, a memória involuntária passa a ser a chave que explica a memória voluntária, o ser mesmo de cada indivíduo, como se a essência de cada pessoa só pudesse ser captada em gestos fugidios, os quais, exatamente por serem fugidios, não são muito bem registrados pela memória consciente, pelo primeiro plano da memória, e ficam perdidos em algum canto do HD.
Ou então esses gestos, esses atos, são varridos para baixo do tapete da memória, de onde ainda causam grande impacto, mas sem ser percebidos. Essa é a noção transmitida por W.H. Auden em seu poema Em Memória de Sigmund Freud, no qual o doutor vienense:

“não era de todo esperto: apenas disse
ao infeliz presente que recitasse o Passado
como uma lição de poesia até que mais cedo
ou mais tarde vacilasse no verso em que

há muito tempo haviam começado as acusações,
e soube de repente por quem fora julgado,
como a vida fora rica e como fora tonta,
e sentiu-se perdoado por toda a vida e mais humilde.”

 

(Tradução de Margarida Vale de Gato. Lisboa: Relógio d’Água, 2003, p. 229. É a segunda vez que escrevo para a Deriva, e é a segunda vez que, perto da conclusão, recorro à tradução de Auden feita por Margarida Vale de Gato.)

Talvez tenham sido os séculos de escrita e de imprensa que tenham gerado uma sensação de esgotamento, assim como a transferência da verdade para o involuntário, o não-deliberado, o espontâneo. Baudelaire se deslumbra com uma passante, e, na ficção Proust mergulha a madeleine, e Joyce apresenta o fluxo de consciência.

Já em nossa era digital, tentamos dominar a arte das fotos não-posadas, ou então tiradas discretamente, sem que o retratado perceba, porque sua falta de aviso é que dá verdade ou credibilidade ao registro. A memória terceirizada e virtualmente infinita da máquina digital ainda permite clicar à vontade, gerando o desejo de registrar memórias indefinidamente, como se cada um pudesse ter a sua Biblioteca de Alexandria absolutamente pessoal. (O preço pago por essa vaidade, como todos sabemos e sofremos, são a interrupção constante do fluxo da vida, e a destruição daquilo que há meros dez anos conhecíamos como “intimidade”.)

Podemos discutir até que ponto o rei Thamus tinha razão — até porque a crítica feita à escrita parte da própria escrita, este artigo foi rascunhado algumas vezes à mão antes de ser digitado etc. Contudo, o prestígio atual do involuntário mostra que nunca estivemos tão cientes de que uma memória terceirizada é apenas um registro, que no máximo evoca o registrado, sem tornar-se um objeto cujo interesse está em si mesmo. No entanto, para nós, o pacto já foi feito, só podemos contar com registros que vão reativar nossas memórias. Para Thamus, a memória consistia num ato cognitivo perpetuamente renovado. As nossas memórias de hoje são “submemórias” ou “reminiscências”, para irmos direto ao texto do Fedro, e eu mesmo, olhando meus três HDs externos, mal consigo me lembrar do que há neles.


Pedro Sette-Câmara é tradutor e atualmente está em Buenos Aires para concluir seu doutorado em Literatura Comparada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

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