“The Only Thing“, música do sétimo álbum de Sufjan Stevens, engasgou. Senti como se houvessem botado fermento na massa que passou a ocupar o lugar do meu peito de uns tempos pra cá. Os últimos acordes foram ouvidos com respiração tremida e soluços. Há muito isso não acontecia, e “The Only Thing” nem é a melhor canção do disco Carrie & Lowell.

(Não culpo Sufjan, a massa precisava se expandir e dizer a que veio. Leve-o para o quarto, feche portas e cortinas. Use fones de ouvido para não se distrair com o mundo cá fora; a obra é pouco mais que voz, violão, algum efeito eletrônico e teclados ocasionais.)

O disco todo foi feito para abrir um buraco no coração de quem ouve e se deixa levar — é preciso crer para ver, não o contrário. Filho de pais divorciados, Sufjan perdeu a mãe para um câncer em 2012 e as músicas de Carrie & Lowell são memórias de passeios, paisagens e ecos dos (poucos) momentos que o compositor dividiu com ela. Carrie sofria de alcoolismo, depressão e esquizofrenia. Largou o casamento e deixou os filhos pequenos com o marido.

(Música como gatilho para um acerto de contas emocional.)

Carrie casou-se com Lowell Brams e reatou com os filhos por um curto período. A capa do disco é uma foto do casal enquanto estavam juntos. Lowell continuou em contato com as crianças depois da separação e parece ter sido o mentor musical de Stevens nos anos seguintes, enviando discos e cassetes para o menino que, em casa com o pai, a madrasta e os irmãos, só ouvia música religiosa (a família envolveu-se com algumas denominações. Sufjan gostava de acompanhar os cultos metodistas e se declara cristão em entrevistas). Hoje Sufjan Stevens e Lowell Brams são sócios no selo musical Asthmatic Kitty Records.

(A formação de um homem a partir da sombra da mãe e da presença fundamental de um padrasto.)

Este não é um disco de folk bonitinho, gracinha hipster de gente feliz pulando no parque. Stevens é irônico quando chama o disco de easy listening. Dividi-lo com o som da rua ou a conversa na sala de estar lhe diminui, não seja leviano. Crianças e adolescentes devem se sentir mais facilmente atraídos pela melancolia do som, assombrado e repetitivo. Há dor e hipnose ali disfarçadas de pop cantarolável e certa auto-indulgência jovem, mas Stevens não precisa pedir desculpas ou recalibrar a dor que transmite, de modo a ser palatável a todo o tipo de público.

(Da primeira vez, ouvi o disco de forma aleatória, então “All of Me Wants All of You” veio em seguida. A letra caminha em várias direções: amor de mãe misturado a amor não correspondido? Abandonos? Em certo trecho, o eu-lírico diz se masturbar enquanto o outro checa mensagens. Não se sabe a quem se endereça a canção. Seria Deus talvez, que lhe falhou?)

As melodias circulam, estrofe e coro, estrofe e coro, tudo volta ao começo. Stevens sussurra seu acerto de contas com falsetes dignos de Arthur Garfunkel, evoca fantasmas e ausências usando as metáforas e imagens que aprendeu de menino: mitologia grega, cristianismo e Velho Testamento. As letras estão carregadas de morte, confissões e perdão, como se precisasse expurgar intimidades para entender (e sentir) a morte da mãe — morte que, em símbolo, começa no dia em que ela decide se afastar dos filhos. O tempo de Carrie & Lowell está lá atrás, em pretérito imperfeito.

(Deixar-se purificar. Descrever a dor melhora seu entendimento e sentido.)

Olívia Fraga é jornalista e editora 

* Uma versão anterior deste texto foi publicada na Confeitaria, em 2015.

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