Entre as verdades da jovem Virginia Woolf

“[…] Este é um volume de uma vida bastante intensa (o primeiro ano realmente vivido em minha vida) terminado, trancado & guardado. & outro & outro & outro ainda virá. Ó querido eles são muito longos, & eu pareço covarde ao olhar para eles. Ainda assim, coragem & passos cuidadosamente pensados – Eles devem trazer algo que vale a pena ter – & [ilegível] eles trarão. [Va]Nessa prega que nossos destinos estão em nós mesmos, & o sermão deve ser levado para casa por nós. Aqui está a vida sendo dada a cada um de nós da mesma maneira, & devemos fazer nosso melhor com ela: sua mão no punho da espada – & uma fervorosa promessa não dita!
Fim de 1897.”

Ao terminar a leitura do diário de 1897, dois pensamentos me perpassaram. O primeiro foi: talvez agora eu conheça um pouco mais sobre Virginia Woolf, ou melhor, sobre Adeline Virginia Stephen – nome de solteira da garota de quinze anos que escreve o trecho acima numa fusão de alívio, medo e esperança, e que apesar de já se desejar escritora, não sabe que será um dos grandes nomes da literatura do século 20. Já o segundo pensamento foi: o que dentre essas páginas é, de fato, verdade?

Antes de refletir sobre essa questão é interessante saber que esse diário de 1897 integra os diários de juventude da autora inglesa que configuram um ainda pouco conhecido — apesar de sua publicação datar de 1990 — conjunto de sete cadernos íntimos os quais, entre longas pausas e escritas diárias, passagens anotadas às pressas e sem vontade e trechos que se estendem em descrições detalhadas, deixam entrever Virginia entre seus 15 e os seus 27 anos (1897 – 1909). As páginas iniciadas com intuito de “manter um registro do novo ano” guardam em si um período de grande movimentação na vida da jovem Woolf.

Esses cadernos íntimos principiam dois anos após a morte da mãe de Virginia, Julia Stephen, depois da qual a futura autora inglesa sofre seu primeiro colapso nervoso e passa a ter uma dolorosa sensação de que não será o último, como aponta o crítico Quentin Bell ao escrever a biografia de sua tia, “A partir dali ela sabia que tinha estado louca e que poderia ficar assim outra vez”. Os diários atravessam também a morte prematura, aos 28 anos, de sua meia-irmã, Stella Duckworth, e a de seu pai, Leslie Stephen. Acompanham ainda a menina em suas atitudes de menina — porque futuras grandes autoras também brigam com os irmãos e fazem pirraça—, em sua rotina intensa e muito bem-estruturada de leituras e no crescente desejo por captar e transcrever o ambiente a sua volta, em seu tatear no mundo ficcional, com a escrita de seus primeiros contos e os rascunhos de seu primeiro romance – publicado em 1915 sob o título The Voyage Out —, e em seu ingresso no circuito literário, com a publicação de resenhas e ensaios em suplementos literários.

Terminada essa pequena apresentação, para voltar ao questionamento que me atravessou é preciso antes confessar que, em um primeiro momento, foi com certa ânsia de entrar em contato com esse período de grande movimentação na vida de Woolf, com a Virginia antes de ser Woolf, que me debrucei sobre os diários de juventude e me perdi em suas páginas. Por alguns instantes eu me sentia em contato com verdades da vida de uma autora que admiro. E de novo me pergunto: estaria eu realmente em contato com essas verdades?

Diários, sejam os meus, os seus ou os de Virginia Woolf, contêm descrições do cotidiano, de um passado recente, mas também, por vezes, de um passado longínquo que se faz ainda presente. Guarda medos e desejos para o futuro. Trata-se de um gênero híbrido que pode abarcar toda a sorte de textos, desde passagens simples que contam sem grandes ornamentos um passeio desprovido de graça, até narrativas e poemas para o grande amor, emoldurados por gravuras e recortes. Em suma, tudo que possa servir para preservar os momentos e sentimentos vividos cabe em um caderno íntimo. E essa responsabilidade em preservar os dias faz com que diários e verdade quase que imediatamente sejam entrelaçados de tal forma que um parece não existir sem o outro. No entanto, Maurice Blanchot, escritor e ensaísta francês, diz que “Escrevemos para salvar os dias, mas confiamos sua salvação à escrita, que altera o dia”. Aqui paro e penso no quanto de verdades alteradas leio nos diários de Virginia.

A passagem de abertura do caderno de 1897, já me concede indícios de que começo a entrar em um mundo de verdades transformadas. Entre as frases que narram o dia de passeio com os irmãos existe uma pessoa que não estava lá, um elemento estranho inserido no que realmente aconteceu: “Havia uma multidão de ciclistas e espectadores – Miss Jan andou em sua bicicleta nova, cujo banco infelizmente é bem desconfortável”. Quem, em verdade, descubro parecer incomodar-se com o assento da bicicleta é Virginia. Miss Jan é o elemento estranho. Mais que alterar o dia ao rememorá-lo, transformá-lo em palavras e colocá-lo no papel, a jovem Woolf cria algo em cima do que de fato ocorreu. Miss Jan é um personagem ficcional que permeará diversos trechos desse primeiro caderno. Dentre as várias significações que tal criação pode ter no contexto do diário, no momento prendo-me apenas ao fato de ela romper o aparente pacto que cadernos íntimos têm com a verdade pura e simples. Miss Jan não é real e sua inserção na lembrança do dia me impede, em certa medida, de entrar em contato com a cena que de fato aconteceu.

Quando Virginia, nos diários subsequentes ao de 1897, transparece certa preocupação com um possível leitor, dou-me conta mais uma vez do contato com verdades alteradas. Em 13 de agosto de 1899, Virginia anota: “Às vezes suponho a presença de um leitor para variar um pouco o que escrevo; isso me faz vestir minhas melhores roupas”. Essas melhores roupas levam-me a crer que Woolf em lugar de se desnudar, de escrever tudo que o que sente e vê sem amarras — como eu ansiava ao pegar em mãos os diários de uma jovem —, arruma-se para o seu leitor, preocupa-se com o que ele pensará dela, com o que tornará sua leitura mais palatável. A linguagem, então, ganha ares mais lapidados e a seleção do que é dito torna-se mais rigorosa. O próprio movimento de construção das passagens dos diários ao longo dos anos pode evocar tal percepção. Migra-se de trechos curtos para excertos de escrita ensaística, que abandonam por instantes a pessoalidade comumente relacionada aos diários e abrem espaço para frases com conteúdos mais impessoais, não fornecedoras de uma mera descrição do dia, mas formadoras de um texto que confere ao seu leitor prazer.

As verdades transformadas, alteradas, lapidadas do correr das páginas dos 12 anos abarcados pelos diários de juventude de Virginia Woolf aos poucos me convencem de que a maior verdade com a qual entro em contato ao abrir esses cadernos íntimos é que, muito além de um repositório de desabafos e acontecimentos cotidianos, eles configuram um espaço de experimentação e desenvolvimento de escrita. Esses diários contêm não somente trechos de momentos tristes ou engraçados da rotina de Virginia, da história dos seus tateares no circuito literário, mas sim seus primeiros passos como escritora. Miss Jan, os ensaios, a constante preocupação com a maneira de transcrever o mundo constituem esses passos. Os diários podem, então, ser tomados como uma das primeiras obras de Virginia Woolf. Aquela que guarda o início do seu desejo em passar para o papel o que existe além do alcançado pelos olhos, característica marcante em muitas de suas futuras obras: “Eu gostaria de escrever não só com os olhos, mas com a mente, e descobrir as coisas reais por detrás do que é mostrado”.


Mayara Freitas é mestranda em Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo e pesquisa os primeiros escritos de Virginia Woolf. 
Ilustração de Carolina Nazatto.

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