A incessante comunicação: uma pequena crônica

Ela fica algumas horas sem olhar o celular, imersa no trabalho. Quando abre o Whatsapp, mais de trezentas mensagens não lidas no grupo que se formou do que havia sido criado para organizar o churrasco de vinte anos de formatura do colégio, uma centena de pessoas que não se veem há duas décadas. Alguém começa a falar de política (era o auge do transe eleitoral), outro responde, outro discorda, e a discussão passa a ser se podem ou não discutir política ali, naquele fragmento de dispositivo tão “do bem”, poxa, brigar para quê, vamos confraternizar. Decidiu-se então pelo subgrupo “política”, no qual só entrou quem quis, pediu ou fez algum comentário sobre o assunto proibido na outra ala.

Mais de trezentas mensagens, então, em poucas horas de ausência, mensagens escritas por pessoas formadas em uma das consideradas melhores escolas do país. Gente com currículo admirável, digno da elite intelectual e financeira do país, e atualizado: cada um já havia dito no grupo primeiro o que se tornou, biografia tamanho WhatsApp, a maioria com filhos e feitos nas costas, bem colocados no mercado e no mundo, parente de gente importante, gente importante. Gente que estuda e trabalha inclusive com as questões discutidas: economistas, advogadas e advogados, defensoras e defensores, cineastas, diretores, roteiristas, médicas e médicos, pesquisadores.

Preciso ler essas mais de trezentas mensagens, pensa; preciso ler o que pensam pessoas bem informadas de esquerda e de direita (a maioria de esquerda, ou a maioria anti-presidente eleito, os limites, afinal de contas, estão mais do que borrados), os dois lados com argumentos aparentemente racionais e bem fundamentados.

Mas, conforme ela tenta ler as trezentas mensagens, outras tantas surgem. Um escreve, outro retruca, um terceiro sai em defesa do primeiro, um quarto, do segundo, e assim infinitamente. Ela se vê incitada a participar da discussão, a contribuir com o próprio conhecimento, e responde com argumentos, e pesquisa dados antes de escrever, afinal de contas, não quer dizer nenhuma bobagem. A essa altura, outro subgrupo é criado, o de quem está do mesmo lado na discussão, assim podem desabafar sobre as bobagens que seus opositores lançam no subgrupo número um.

Muitos abandonam a conversa; ela não. Está aprendendo e refletindo como nunca, apesar do tempo despendido: é uma discussão contínua, praticamente 24 horas por dia. Ao acordar, mais 120 mensagens; aproveita os intervalos do trabalho para responder, as refeições, cada minuto que sobra ou que nem havia sobrado. Sente-se desafiada pelos adversários do grupo, e não dizer nada é como perder a discussão, uma discussão sem pausa, constante, ilimitada, conhecimento invadindo a tela de seu smartphone ininterruptamente, e a ansiedade de não conseguir acompanhar a invade tão intensamente quanto a luz que clareia o quarto escuro, à noite, quando o companheiro já dorme ao lado.

No navegador, vão-se empilhando dezenas dos artigos que se propôs a ler, todos de fontes interessantes, jornais, blogues, mídia alternativa, mas a pilha só cresce: enquanto ela consegue ler um, os colegas do grupo mandam mais sete. O tempo é escasso, e, na mesma medida da pilha, cresce também a sensação de insuficiência, a sensação de que nunca será capaz de ler tudo aquilo, quanto mais de pensar, refletir, silenciosamente deixar assentar o conhecimento recém adquirido, tão importante quanto descartável, pois, passados alguns dias, algumas páginas já parecem obsoletas, a discussão já andou para um lugar diferente, o assunto da vez é outro, outras manchetes, outras urgências. Não só nos novos grupos do colégio: há os do trabalho, das amigas xis, dos amigos ípsilon, um reduzido da família (do maior, ela saiu entre o primeiro e o segundo turno), uma quantidade impressionante de grupos de WhatsApp que disparam incessantemente mensagens com conteúdo algumas vezes importante, mas nem sempre, sem as quais, no entanto, quando olha a tela e não há mensagem alguma (coisa rara), ela sente um enorme vazio.

Após algumas semanas, irritada com o rumo da discussão, com o fato de que os que concordam com ela continuam concordando e os que discordam continuam discordando, ela, sem dizer nada, com algum receio de se arrepender, mas também com algum alívio, sai do grupo “Política turma de 1998”.

 

As consequências da comunicação incessante: as redes sociais e a confusão entre público e privado

O conceito moderno de esfera pública remete a uma produção que, não por acaso, foi publicada em um jornal. Em 1783, Kant escreveu uma resposta à pergunta: “que é esclarecimento?”. O texto tornou-se conhecido como Aufklarung e responsabiliza o sujeito por sua própria ignorância. Caberia a cada um o Sapere Aude, o ousar saber: seria tarefa individual atuar no mundo a partir dos desígnios da razão e colaborar para a formulação de um ambiente social pautado pela ética e afirmação de valores gregários e solidários.

O surgimento das redes sociais levou ao ápice a reconfiguração moderna das esferas privada e pública. Ainda que há séculos pouco delimitadas, elas continuavam desempenhando, cada uma, papel crucial na vida dos homens e mulheres, diferenciando para o cidadão o que lhe era próprio e o que era comum.

A diferenciação entre público e privado surge em Atenas, na Grécia Antiga, ainda que não houvesse, então, a noção de indivíduo, e só os homens maiores de 18 anos e filhos de atenienses participassem da vida pública. Era na esfera privada — que assim se chamava por ser de fato “privativa”, privando as mulheres e os não atenienses da liberdade possível na esfera pública — que se garantia a sobrevivência, a satisfação das necessidades vitais, tais como se alimentar e se vestir. O processo histórico alçou o que era doméstico a social quando a existência de um estado passou a dever a garantia de sobrevivência a seus habitantes, operando-se, aí, uma inversão crucial. Se antes, segundo Hannah Arendt em A condição humana, “a esfera pública era reservada à individualidade, o único lugar em que os homens podiam mostrar quem realmente e inconfundivelmente eram”, a partir da “igualdade moderna, baseada no conformismo inerente à sociedade e que só é possível porque o comportamento humano substituiu a ação como principal forma de relação humana”, é na intimidade da convivência familiar que uma pessoa revela suas especificidades.

As redes sociais fizeram publicizar o que a partir da modernidade só era aceitável que se revelasse intimamente; é como se, por um lado, tivéssemos retornado à origem, quando era na pólis que se fazia ver a individualidade e especificidade de um cidadão ao agir. Por outro lado, no entanto, o conteúdo do que se revela continua, grande parte das vezes, tendo a irrelevância de assuntos domésticos. Mesmo quando o que se traz à tona tem interesse público, a paixão com que se o mostra ou sustenta, irracional por definição, ofusca o que poderia concernir ao coletivo em cada afirmação; ao deixar de relegar ao foro íntimo o que, até o surgimento das redes sociais, todos se esforçavam por manter fora de alcance público, perdemos diariamente a oportunidade de calar. Hannah Arendt afirma que “o ato de encontrar as palavras adequadas no momento certo, independentemente da informação ou comunicação que transmitem, constitui uma ação”; o que temos hoje, com a comunicação incessante, é a perda do momento certo, já que quase todo e cada instante está preenchido; esvazia-se, então, o discurso, retirando seu potencial caráter de ação.

Por outro lado, numa sociedade como a nossa, em que todos estão sentenciados a agir de modo interessado e orientado, os arranjos coletivos e grupos se tornam sujeitos sociais de certa forma privilegiados. Organizar-se viabiliza a disputa dos distintos projetos de sociedade postos em jogo, na medida em que promove identidades, aproximações e alteridades. A atuação, que tantas vezes passa pelo discurso, promove diferenciação e reconhecimento. A performance adquire sentido não apenas pelo posicionamento perante os antagonistas, mas perante os pares, na medida em que define o inaceitável e fortalece o que deve ser adotado como comum. A performance se torna parâmetro do que é consonante e do que é inadmissível, o terreno movediço das pretensões que serão igualadas ou eliminadas, determinando uma disputa estética, de estilo de vida, como disse Vladimir Safatle acerca da configuração política no recente período eleitoral. Nos esclarece Jacques Rancière: a política não é feita de relações de poder, é feita de relações entre mundos.

Jamais existiu uma esfera pública entre os membros de uma família, assegura Hannah Arendt: por isso se esfacelaram tantos grupos de família no WhatsApp diante da conjuntura política polarizada à época das eleições. Perdemos não só o convívio pacífico com nossos familiares, que nos garantia o lugar de sermos nós mesmos: já havíamos perdido antes, por escolha (pois ninguém nos obriga a estar conectados em tempo quase integral) a própria garantia da esfera privada. Arendt é categórica: “Uma existência vivida inteiramente em público, na presença de outros, torna-se, como diríamos, superficial. Retém a sua visibilidade, mas perde a qualidade resultante de de vir à tona a partir de um terreno mais sombrio, terreno este que deve permanecer oculto a fim de não perder sua profundidade num sentido muito real e não subjetivo”.

O preço da comunicação incessante, cujo paradigma é o WhatsApp, é a perda da capacidade de reflexão, seja pelo excesso de informação, seja pela falta. O primeiro caso é o exemplo de nossa pequena crônica: a abundância inatingível de dados, artigos, ensaios, torna raro o mergulho: o mar de informação da internet, por excessivo, é boa parte das vezes raso. No extremo oposto está a propagação massiva de memes, manchetes enviesadas e vídeos contendo fake news, sabidamente decisiva no curso das últimas eleições no Brasil, para mencionar apenas nosso exemplo. Em ambos os casos, mas principalmente no segundo, há um elemento decisivo: os grupos são sustentados por relações de confiança que suplantam a necessidade de profundidade ou mesmo veracidade das informações.

A mistura é perigosa, e a própria dinâmica das redes sociais abala o que poderia remediar o risco: a capacidade de contemplar, ponderar, raciocinar, seja pelo tempo gasto nas redes, seja pela qualidade do que se acessa (em boa parte das vezes, insignificâncias da vida alheia), mas também pelas consequências do borramento entre as esferas pública e privada. O custo intelectual e psíquico é enorme: estamos cada vez mais condenados à falta de profundidade e a uma ansiedade sufocante.

Superar esses dilemas é o mesmo que ultrapassar a fundação de nosso tempo. Chegamos no ponto em que a produção de conhecimento, ainda que com o intuito de refletir sobre nosso momento histórico, continua aumentando a quantidade de informação e alimentando o problema, como se estivéssemos em um beco e mesmo a reflexão sobre como escapar dele nos vedasse ainda mais qualquer possibilidade de saída.

A premência da ação nas redes sociais mobiliza posicionamentos, raramente debates. Ainda que as redes criem novas camadas no modo como nos organizamos, elas dependem de relações de reciprocidade, acordos de cumplicidade e pactos de vizinhança que estão em formulação.

Um horizonte ainda pouco ou não concebido é necessário. Algo como instaurar a perspectiva de convivência com a inundação de informações, mas tendo a clareza de que se mantém uma determinada visão de mundo através da empatia e não apenas por meio da razão e de seus argumentos.

Talvez o silêncio, nos diria Hannah Arendt: “o único modo eficaz de garantir a sombra do que deve ser escondido contra a luz da publicidade é (…) um lugar só nosso, no qual podemos nos esconder”. Ao menos de tempos em tempos.


Eder Camargo é historiador e professor formado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

Natalia Timerman é médica psiquiatra e escritora, com mestrado pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

Ilustração de Sumaya Fagury

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