Começa com a fábula:

Há muito tempo, num período cortês e cavalheiresco da história, quando a vida do poder e a da arte andavam de mãos dadas, Marie de France escreveu a fábula do Lobo que virou rei. Na estória, o Leão resolve ir pra outro país e deixa os animais escolherem quem será seu sucessor. A princípio, a assembleia de bichos pede outro Leão, mas o soberano aposentado não tem um para dar (no fundo, tem medo que um sucessor-Leão seria uma ameaça para ele próprio), então os animais acabam escolhendo o Lobo. Todos sabem que o Lobo é um predador, mas ele jura solenemente que “Nunca mais vai comer gente!”.  

Começa o reinado do Lobo. Não passa muito tempo até que ele fique faminto de carne. Então manda chamar um cervo e pede, quando estão sós, que o outro diga sinceramente se o Lobo tem um bafo desagradável. O cervo, preso à sua promessa de honestidade, diz que sim, que o bafo do Lobo é insuportável. O rei se enfurece e manda reunir seus conselheiros. Pergunta a eles o que deveria ser feito com um súdito que dirige a seu senhor injúrias desonrosas e infamantes. Todos concordam sem margem para a dúvida que um tal súdito deveria morrer. Então o Lobo vai buscar o cervo e o mata na frente de todos, come a melhor parte e, para disfarçar, distribui os restos entre os conselheiros. 

O Lobo manda chamar outro bicho. Quando estão a sós, pede sinceramente que diga o que acha de seu bafo. O bicho responde pois sim, que o bafo do Lobo é sublime. O rei logo manda reunir os conselheiros e lhes pede sua opinião: que fazer com um súdito que mente e engana seu rei? Ora, a resposta não poderia ser outra: que morra. Dessa vez, o Lobo come o bicho sozinho, sem dividir.

O Lobo então chama um macaco. Pergunta do bafo. O macaco, esperto, responde que não sabe responder. O Lobo não sabe o que fazer, a princípio. Fica de cama e se finge de doente. Os animais vêm visitá-lo, os médicos estão perplexos. Decidem que o único jeito é deixar o Lobo comer o que quer que seja, a fim de se reestabelecer. O Lobo então anuncia: queria tanto um macaquinho…

Moral da história

A fábula de Marie de France oferece em suas imagens um esquema da Lei. Tudo se passa como se a Lei fosse soberana. Ninguém morre sem ser julgado. Todo aquele que sofre uma pena é também um infrator, alguém que cometeu uma ofensa. Quando chega a vez do macaco, uma ordem superior se impõe: a sobrevivência do rei é a sobrevivência do corpo político. A esse corpo pode ser necessário sacrificar alguns cidadãos… Nem mesmo a posição do Lobo é uma impostura. Ele não só recebeu sua majestade do rei anterior como ainda foi eleito pela assembleia dos animais. Nenhuma de suas decisões é autocrática: ele sempre consulta seus conselheiros, cuja decisão têm peso de lei. 

E, no entanto, como está claro, o que move todo esse sistema é a fome do Lobo e seu desejo de sangue. Embora os meios que utilize para satisfazer seu desejo sejam os meios legais, o fim é o mesmo: devorar seus súditos. O essencial é justamente isso: o Lobo fez promessas, foi eleito, prestou um juramento. Ele se colocou sob a letra da lei e sob o “sistema político vigente”. Mas isso não muda em um centímetro seu caráter predador. Talvez até o ajude a lidar com a culpa. Afinal, não foi ele quem condenou aqueles animais à morte, mas a Lei e seus conselheiros.   

Pessoas mais qualificadas que eu já escreveram sobre as metamorfoses do autoritarismo no século 21. Sua principal característica é a Via Legal: os tiranos já não chegam mais ao poder por meio de golpes, mas de eleições. Uma vez eleitos, se valem da letra da Lei para perseguir seus objetivos. Por um lado, isso aponta para um caráter mais profundo da Lei: esta não seria um sistema de balanceamento do poder, mas uma rede que distribui os efeitos do poder de maneira a esconder sua origem e sua finalidade. Por outro lado, também serve de alerta para uma nova esperteza e uma nova malícia da tirania, que vai se tornando mais e mais imperceptível, mais difícil de agarrar — e, ao mesmo tempo, tão prevalente e nociva como sempre foi.  

Outra fábula

Era uma vez um sobrinho. Todos seus tios e tias diziam que ele era um menino de ouro, que tinha o coração do tamanho do mundo, que era sempre carinhoso e gentil. Quando chegaram as eleições e ele começou a fazer campanha contra o candidato que tinham escolhido, os tios e as tias perguntaram para o sobrinho: “Como pode um garoto como você ser de esquerda?” 

Essa pergunta é mais um exemplo das armadilhas que o Lobo da Lei arma para suas presas. Se o sobrinho responde: Sim, eu sou de esquerda, por causa disso e disso e disso…, a justificativa será anulada por aquilo que veio antes, quer dizer, a resposta afirmativa. Na pergunta já estava contida a premissa de que a esquerda é o inimigo, o mal, o perverso. Nenhuma racionalização é capaz de apagar isso. Por outro lado, responder Não sou de esquerda, Não sou petista, ou mesmo Esquerda não é isso que você está pensando já é conceder à pergunta a afirmação de seus próprio termos. 

Como na fábula, responder que sim à pergunta do Lobo ou dizer não e mentir são respostas igualmente vitimadas pela astúcia de quem pergunta. A pergunta do Lobo é um exemplo daquilo que o antropólogo Gregory Bateson chamou de double bind (dupla amarração), aquelas injunções contraditórias às quais seu destinatário não pode nem obedecer nem desobedecer sem se prejudicar. Por exemplo, quando um pai violento diz ao filho “Vamos, me critique”: tanto a desobediência quanto a crítica serão interpretadas como uma afronta e, portanto, como justificativa para a agressão. Já está contida na ordem, ou na pergunta, a impossibilidade de sair dela ileso.         

Durante as eleições, muitas perguntas desse tipo foram formuladas:

“Você vai votar nos responsáveis pelo maior esquema de corrupção da história do Brasil?”

Eu vou votar nos responsáveis pela falência da minha empresa?”

“Você vai votar nesse candidato que não tem chances de vencer no segundo turno?”

“Você vai deixar esse partido que é contra a família voltar ao poder?”

Em comum, todas essas perguntas possuem a impossibilidade intrínseca de serem respondidas sem que sejamos capturados por suas premissas. Pouco importa que as premissas sejam falsas ou questionáveis. A partir do momento em que a pergunta é formulada nesses termos, ela estabelece um jogo que não é possível ganhar.

Aquele que chega mais próximo de escapar do Lobo é o macaco, que responde, mas não responde, quer dizer, oferece uma resposta tão ambígua quanto a pergunta. No entanto, a partir do momento em que entrou nos aposentos do rei, ele já estava condenado. Tudo o que pôde fazer foi adiar sua sentença. Esse adiamento teria sido suficiente, tivesse o Lobo de fato morrido de alguma doença e dado lugar a outro soberano. Mas não é suficiente para desmontar o sistema fome-pergunta-Lei que alimenta o Lobo às custas de seus súditos. 

Não há saídas?

Na última fase da campanha presidencial, vimos pessoas saindo às ruas com um outro tipo de pergunta: Ainda indeciso? Quer conversar? Perguntas como essa não são injunções nem desafios, mas convites. Elas oferecem a quem responde a chance de realmente falar com liberdade. O resultado desse movimento foi uma verdadeira onda de reestruturação dos termos da disputa. Outras questões entraram em jogo, outras maneiras de enquadrar a situação. Não chegou a ser suficiente para virar o resultado, mas ofereceu uma boa cota de alívio e esperança.

A contraposição entre esses dois tipos de pergunta parece oferecer, de maneira talvez um pouco simplificada, mas efetiva, os dois caminhos que se apresentam na situação atual: aqueles que lutam pela liberdade devem saber perguntar com liberdade, e saber que as perguntas dos autoritários não são feitas para serem respondidas. Enquanto continuarmos a responder às provocações e aos questionamentos dessa turma, continuaremos perdendo. Isso não significa ignorar sua existência (até porque é impossível), e sim inventar outras perguntas, capazes de oferecer outras respostas. 

O jogo discursivo precisa ser disputado no campo discursivo. Não adianta tentar responder as perguntas do Lobo com fatos. Fatos pertencem a uma outra ordem. Só é possível “responder” a essas perguntas formulando outras e melhores perguntas. Com isso não quero dizer que os fatos não importam, que a verdade não existe, ou que mentir e dizer a verdade são questões relativas. Quero dizer simplesmente que verdade e mentira se referem a um nível diferente daquele do discurso e do convencimento político. Esses dois níveis obviamente estão conectados, mas confundir um com o outro é o caminho para a derrota, ou para o autoritarismo. 

O autor americano Thomas Pynchon, em um de seus melhores romances, Mason & Dixon, escreve uma narrativa histórica que não se atém aos fatos, mas os falsifica para melhor revelar as dimensões da História. Seu narrador, o pouco confiável Reverendo Winthrop, em dado momento profere um discurso em defesa da fabulação histórica (tradução de Paulo Henriques Britto):        

“Quem se arroga a Verdade, abandona a Verdade. A História é contratada, ou coagida, apenas em favor de Interesses que sempre se revelam vis. Ela é inocente demais para que a deixemos ao alcance de qualquer um que detenha Poder — que, bastando apenas tocá-la, faz desaparecer todo o seu Crédito no mesmo instante, como se jamais tivera existido. O que ela precisa é do cuidado amoroso e honrado dos fabulistas e falsários, Cantadores de Baladas e Excêntricos dos mais variados Raios, Mestres do Disfarce que lhe proporcionem as Vestimentas, os Adornos e o Porte, Discurso ágil o bastante para mantê-la fora do alcance dos Desejos, e mesmo da Curiosidade, dos Governos.”

É preciso fabular os desejos para permitir que eles se expressem. Nesse trecho, se substituirmos “História” por “Lei”, chegamos à mesma conclusão de Marie de France: tão logo o poder toca a lei, “todo o seu Crédito desaparece no mesmo instante”. Não se trata de fatos, de ser culpado ou inocente, mas de como a pergunta é formulada. Os anseios de nós brasileiros não se constituem segundo um espectro político, mas segundo uma ordem de necessidades, no fundo muito semelhantes. O que o espectro político faz é distribuir essas necessidades em uma linha, ao fazê-las emergir da toca onde habitam. A tarefa histórica dos que lutam pela liberdade é atrair para si esses anseios, pois só isso vai evitar que eles debandem para o lado de lá.  


Thomaz Amâncio é professor, Mestre em Teoria e Crítica Literária pela Universidade Estadual de Campinas e autor da newsletter Ócio Compulsivo.

Ilustração de Sumaya Fagury

 

0 Comments