Advertência a conta-gotas — ou como Carolina de Jesus pode nos ajudar a refletir sobre os dias atuais

 

Tem horas em que a vontade de uma compreensão inexorável chega e não sai. Incomoda. Na infância e adolescência essa compreensão de fato se achega e tudo, de repente, parece definido. O passar do tempo deixa as coisas mais claras (ou mais turvas), e, ao mesmo tempo mais complexas aos nossos olhos. Certezas tornam-se mais flexíveis, discutíveis, às vezes, até, inadequadas… obsoletas.

A literatura satisfaz algumas dessas vontades, particularmente em seus gêneros mais curtos, como os provérbios, ditados e aforismas. A leitura de apenas um deles, em poucos segundos, dá a impressão de que a realidade foi compreendida e o mundo colocado de volta em seu lugar. Provérbios e afins encerram verdades que dispensam destrinchamentos. Por exemplo, “O homem oportunista é uma fração de homem”. Salvo se houver outra indicação, os provérbios e termos apresentados entre aspas foram retirados do livro Provérbios (1963), de Carolina Maria de Jesus, mantendo-se a grafia originalmente apresentada na obra.

A epifania da leitura é quase sempre imediata. Logo que ela termina, a gente sente um vento passado, um pigarrear desconcertado, e aquele meneio, mais ou menos rápido, nos leva para frente, geralmente ainda precisando tossir.

Mas, o saber é do provérbio, o provar é do sujeito. Por isso, estamos sempre provando novos e antigos ditados. E quando menos se espera, por exemplo, frações de homens estão no governo.

 

Há tempos

No início dos anos 1960 respiravam-se novos ares no Brasil. Havia uma abertura cultural importante, buscavam-se respostas com ousadia. Queríamos nos alimentar de perguntas, nos aproximar do inusitado. Era a contracultura.

Temos frutos dessa época até hoje. Alguns, como Carolina Maria de Jesus, ficaram tempos no fundo das prateleiras, quase sem consumo.

Mas daí veio o golpe e tudo mudou de ritmo.

Contudo, algumas fomes se manifestam, mesmo no escuro, e a de questionar a vida, repensar o dia a dia, é uma dessas. Carolina ajuda a aplacar. Por isso, para “auxiliar alguns dos leitores a reflexão”, publicou, em 1963, o livro Provérbios, gênero que definiu como “antes de tudo, uma advertência em forma de conta-gotas”.

 

E agora?

2019 se inscreve num outro momento, de outras fomes, de outro golpe. Mas, de novo, um desejo de compreensão inexorável nos rodeia. E uma das perguntas que surge é: do que precisamos, então? De grandes nomes? “Um governo que pensa governar o seu país para deixar o nome na história é um homem com a mentalidade embrionária”, afirma Carolina. Talvez, então, não seja esse o caminho.

Outra gotinha adverte: “num país onde só os ricos podem estudar e os pobres duplicam-se analfabetos hão de ser o problema social do país no futuro”. Isso! Afinal de contas, há mais ou menos 80 anos, somos oficialmente “um país do futuro” — o livro Brasil, país do futuro, do filósofo austríaco Stefan Zweig, foi publicado em 1941.

Reconheço que a questão do estudo nos aflige há um pouco mais de tempo. “Após a libertação dos escravos e a Proclamação da República, o que restou para o Brasil foi um saldo de analfabetos”, contabilizava Carolina. Já deveríamos ter feito algo a respeito.

Busco um pouco mais de epifania, querendo espremer o conta-gotas para extrair alguma solução mágica. Mas, ela também não está na ilusão de confiar demais em quem tem longos anos de estudo já que “Existem pessoas que estudam. Em vez de receber um diploma deveriam receber uma ferradura”. Fato é que “Não devemos ambicionar um cargo que não temos competência para administrá-lo”. Mesmo que as ideias sejam boas, que a equipe seja de técnicos e especialistas… “O que engrandece o homem são suas realizações e não os projetos”, diz outra gotinha.

Atentemos sempre, pois “As canetas e os lápis dos tolos, são os revólveres”. Escreveu, não leu…

Nem tudo está perdido, eu sei. “Ainda existe bons tipos humanos. Mas a percentagem é tão pequena que é difícil distingui-los”. Ainda assim, não é impossível e algumas características facilitam essa distinção: “O preconceito racial é próprio dos medíocres”. Sendo mais direta, para Carolina, “O homem que cultiva o ódio racial é um imbecil”. Indo além ela é categórica: “Um imbecil dirigindo um cargo insensatamente é igual um asno no trono”. Simples assim.

O céu não era de brigadeiro antes do golpe de 2016, mas me pergunto em que momento, numa paráfrase de Lupicínio Rodrigues, nós deixamos o céu por ser escuro e fomos ao inferno à procura de luz. “O custo de vida faz o operário perder a simpatia pela democracia”, escreve em Quarto de despejo. É uma pista. Mas sei que são muitos os caminhos que levam ao inferno.

Inúmeras advertências da Carolina têm pleno lugar nos dias atuais, continuam precisas e férteis. Temo, inclusive, num futuro próximo que uma delas seja, na verdade uma premonição:

“Vão erigir uma estátua ao burro: é que o burro não critica o alcaide. Não reclama salário, não faz greve, não aumenta subsídio, não faz questão de vencimentos, não visa melhor honorários e é feliz porque come capim.”

É bom ficarmos de olho.


Naia Veneranda é jornalista e tradutora, com especialização em Língua, Literatura e Semiótica. Atualmente, é mestranda em Estudos da Tradução na Universidade de São Paulo.

Ilustração de Sumaya Fagury

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