13/10/2018

Neste exato momento, brigo com meu corpo e com as palavras, eles brigam entre si e em mim há uma guerra. Uma dor aguda que começa na base do crânio e desce pelo pescoço e se ramifica; braços, tronco, desce pela lombar até onde termino de existir. 

Tomo um comprimido de morfina. Tomo um comprimido estratégico de morfina, silencio o corpo para me permitir as palavras, tenho dor apenas do lado direito e não consigo deixar de pensar no que Lucía me falou.

Ainda podemos falar, foi o que fizemos durante esses mais de vinte anos sem nunca nos darmos conta de que devíamos ter registrado os fatos, de que nos calarem é sempre um risco vivo. Palavras faladas caem das frases, precisamos retirá-las uma a uma do passado que julgávamos não voltar.

E escrever.

Escrever que uma criança destra se forçava, em silêncio, a aprender a escrever com a mão esquerda, confundindo seu corpo com o posicionamento político de seus pais, de seu país em ditadura, ceder sua existência ao medo. “Eu achava que se não aprendesse iria morrer”, foi o que Lucía me disse.

Lucía tinha oito anos. Mas seu corpo já havia sido violado antes, seu e de María, sua irmã gêmea. Ainda na Argentina, militares entraram no apartamento de sua avó, militares que entravam onde queriam, nos corpos das mulheres para estuprá-las, para colocar ratos em suas vaginas, para tomar seus filhos.

A dor nos músculos sob a escápula direita não cede à morfina, a contratura profunda, o fluxo de sangue reduzido, os corpos ensanguentados sob tortura, estou com muito medo, o medo não cede à morfina.

É preciso escrever, é preciso contar que militares entraram no apartamento da avó de Lucía em 1976 e porque se encantaram com as bebês esqueceram de fazer as perguntas. Pergunto à María sobre o passado mais uma vez, a primeira em que não vou deixar morrer as palavras, “A grande preocupação da minha mãe era que eles quisessem saber onde estava o pai daquelas crianças, mas fomos a distração dos militares. Duas bebezinhas gêmeas, eles até nos pegaram no colo”.

Estou entre os dois portões do prédio em que moro quando ouço o áudio da narrativa de María, há um homem comigo, eu, absorta, ignoro sua presença, “eles até nos pegaram no colo, e é muito louco isso porque, ao mesmo tempo, eles torturavam as mulheres grávidas, esperavam que tivessem os filhos no cativeiro e depois ficavam com os bebês”.

“Ao mesmo tempo” é a expressão que ela usa. Quantos nove meses couberam ao mesmo tempo entre 1976 e 1983 na Argentina, sabemos que pelo menos 500, sabemos que pelo menos 500 corpos de mulheres foram transformados em invólucro, mulheres mutiladas, separadas de seus bebês. Mulheres mortas.

Estou presa com um homem entre os dois portões do prédio em que moro quando ouço o áudio da narrativa de María, ele também ouve, me faz perguntas, coloca em dúvida o que é dito por ela, por mim. Coloca em dúvida registros oficiais da história de um país. Ainda assim, é preciso continuar a escrever.

O pai daquelas crianças já estava no exílio, respondo a pergunta que os militares esqueceram de fazer. No dia seguinte, Ana viajaria ao Brasil ao encontro do marido, uma mulher, as duas bebês, os dois outros filhos pequenos e a incerteza. Quantos estados de exceção há na história dessa família?

Quando o portão finalmente é aberto, quando me liberto do homem, ele vai ao encontro de uma mulher que me é familiar. Me dou conta de que são os vizinhos do apartamento ao lado e de que a única coisa que temos em comum é a parede da sala, tão tênue quanto a democracia no meu país. Não escrevo metáforas.

Os músculos do meu corpo endurecem, sinto um medo real do vizinho, as sobras das palavras faladas que ouvimos pelo fino do concreto, emudeço, ‘é muito louco isso’, foi a expressão que María usou, me sinto refém dentro de casa, será que estou ficando louca?

O ar me falta, o sangue me falta, sou retesamento, tristeza e silêncio. Deitada no sofá, revisito mais uma vez a história das minhas amigas argentinas. Falamos tanto durante esses mais de vinte anos, os fatos passados e o que não passa, o que é sentimento, angústia, o que se transformou em sintoma. A cicatriz em relevo na qual, vira e mexe, colocamos a mão e nos lembramos que existe e por que existe.

Não posso ficar mais aqui, levanto, ainda sou dor, mas preciso escrever.

 

27/10/2018 

Estou deitada na cama com “Camilo”, o Chile em ditadura, choro durante o conto de Alejandro Zambra. Chorei na noite de quarta ouvindo o áudio de Hernán, o pai das minhas amigas argentinas, ”Uno vivia con mucho miedo, (…) yo había subido más de una vez en la terraza para ver como se comunicaba el edificio en que vivíamos, en Rosario, a los edificios vecinos, por se era necesario escapar“, tenho que parar de me entristecer antes de dormir, coar o choro no café forte da manhã.

Quero acordar em meu próprio país, não neste que se revela adoecido; quero acordar em meu próprio país sem precisar exilar minha escrita, minha voz, meu corpo ingovernável. 

Na noite de ontem, assisto a um debate com participação de Tales Ab’Saber, ele pergunta: “O que será que as pessoas que estão atacando gays, mulheres, negros, estão deixando de sonhar como função política do sonho? (…) Certamente estão revertidas em uma posição de subjetivação que não tem o espaço poético, criativo, duvidativo do sonho, o espaço que parte de uma experiência fundamentalmente amorosa”. 

Quero fechar os olhos e apagar o mundo por pelo menos oito horas, por quantos anos forem necessários para que cesse esse horror que se anuncia.

Abro os olhos e me dou conta de que sonhei pela primeira vez nessa semana, me sento aliviada, tem sido dias difíceis. O caos do país está dentro da minha vigília, da minha casa; quinta-feira à noite explodo uma tomada ao afastar o sofá da parede, a luz do abajur apagou e estamos todos no escuro. Amanhã sairemos para votar carregando lanternas acesas, livros que levamos nas mãos em busca de uma rota alternativa que nos permita ficar. 

O livro de cabeceira do candidato de extrema-direita do meu país foi escrito por um torturador sádico da ditadura militar. Muitos eleitores do candidato de extrema-direita do meu país vestem camisetas com o rosto desse torturador sádico e desejam a volta da ditadura. “Ustra Vive” e vamos morrendo em uma realidade memética, palavras forjadas como espadas, facas; no lugar de livros, eles carregam revólveres. 

“… hacían allanamientos, iban casa por casa, la policía revisava todo y yo tenía miedo. Tenía alguna bibliografía, tiré los libros como pude, los libros que de alguna forma pensé que eran comprometedores”, ouço o áudio de Hernán mais uma vez, desta, transformo suas palavras em escrita, corro o risco de ter que jogá-las fora. 

Quando entram na casa da avó das minhas amigas argentinas, os militares passeiam pela estante de livros, Hernán já não está lá; no Brasil, aguarda a vinda da família no dia seguinte; na estante, O Pequeno Príncipe esconde a letra da Internacional Comunista, mas os militares leem apenas as lombadas. 

Em O Espírito dos Meus Pais Continua a Subir na Chuva, o argentino Patricio Pron escreve “(…) me lembro da febre, da prostração e de uma série de sonhos recorrentes que se repetiam como um carrossel cujo operador tivesse enlouquecido ou fosse um sádico”.  

Leio, leio sem parar, livros, notícias, mensagens que nos enviamos freneticamente pelo celular, não somos tão diferentes deles e todos carregamos títulos de eleitor. Parece mentira que haja novamente o risco de termos que jogá-los fora, dissolvê-los em água para que se apaguem, termos nossas cabeças enfiadas na água de vasos sanitários por torturadores sádicos. Ustra vive. 

“A questão que está em jogo é o cerceamento do sonhar por um ambiente que de algum modo passa a ser opaco, passa a ser objeto que não pode ser digerido pela função sonho”, continua Ab’ Saber, e o personagem de Pron narra em série 13 sonhos a partir do momento em que sua história chega, finalmente, ao entendimento do que o leva ao escrevê-la. 

Sonhei que estava vendo um filme com meu pai. Uns sapatos, acho que eram meus, estavam no chão entre nós e o televisor, que mostrava um comercial feito com imagens de máquinas voadoras desenhadas por crianças. Um texto manuscrito vinha logo depois do comercial: Todos nós somos parte do nosso idioma; quando um de nós morre, morre também nosso nome e uma parte pequena, mas também significativa, da nossa língua. Por essa razão, e porque não desejo empobrecer o idioma, decidi continuar vivendo até que surjam novas palavras. A assinatura no final do texto era ilegível e só dava para entender as três datas que vinham em seguida: 1977, 2008 e 2010. Meu pai se virava para mim e dizia: 2010 é 2008 sem 1977, e 1977 é 2010 ao contrário. Você não tem nada a temer, e eu respondia: Eu não tenho medo, e meu pai voltava a olhar para a tela do televisor e dizia: Mas eu tenho.

Leio que, para Lacan, o inconsciente se estrutura como linguagem; prefiro não pronunciar as imagens dos meus sonhos quando acordo, deixá-las mudas e sem forma, fingir assim que não existem, que nada disso existe. Até amanhã à noite estamos apenas sonhando um pesadelo. Depois disso, continuamos com medo.


Isabela Mena é jornalista e autora do blog 200mililitros.

Ilustração de Sumaya Fagury

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