A intimidade é o lugar da verdade

1.

O historiador da arte André Chastel começa seu artigo L’Art du geste à la renaissance com uma anedota que provoca o leitor a refletir sobre o valor que atribui à intimidade. Em 1602, o pintor Caravaggio recebeu a encomenda de um grande quadro que representasse a inspiração do evangelista São Mateus. A obra entregue (e que hoje só podemos ver por fotografias: o quadro foi destruído num bombardeio a Berlim durante a Segunda Guerra) mostrava um homem de pernas cruzadas, concentrado, escrevendo. Um anjo guia sua mão, mas o homem não dá sinal de notar sua presença. O que se enfatiza no quadro é a intimidade daquele momento de escrita, e mesmo um católico devoto tende a concordar que, se há inspiração no texto do Evangelho, foi assim que ela aconteceu.

O quadro foi recusado. Chastel conta que o motivo foi que o prosaico homem “não tinha aspecto de santo”. Caravaggio então pintou outro quadro, em que o mesmo homem, numa posição em que nunca ninguém jamais escreveria — encurvado, apoiando um joelho num banquinho, com a outra perna quase esticada — tira os olhos da escrita para assombrar-se com o anjo que vem do alto.

Para nós, hoje, o primeiro quadro pode ser a representação de uma inspiração divina. O segundo quadro (que está na capela Contarelli da igreja de são Luís dos Franceses, em Roma) é a representação de um estilo de época, de técnicas de pintura. A representação do que alguém, em algum momento, achou que seria a inspiração divina.

Alguém poderia objetar: mas os dois quadros representam um momento íntimo. Concordo que sim, na medida em que representam um homem, sozinho, escrevendo. Porém, no primeiro quadro, é a intimidade mesma que está em primeiro plano. No segundo, precisamos lembrar que o momento da escrita é um momento íntimo. O anjo não entra na intimidade do evangelista, como no primeiro quadro: ele a invade, e, de certa maneira, a destrói.

 

2.

Existe um movimento claro pela valorização da intimidade no Ocidente. Leitores (e não espectadores) da Ilíada, pensamos mais em Príamo pedindo o cadáver de Heitor a Aquiles, ou em Heitor despedindo-se de Andrômeda e do filho, do que nas batalhas que ocorriam aos olhos de todos: quantas pessoas se lembram de como Diomedes rouba a cena após a retirada de Aquiles?

A própria história da tradução da Ilíada reflete esse movimento: Odorico Mendes, falecido em 1864, traduziu a Ilíada em decassílabos declamatórios que hoje nos parecem absolutamente datados. Mesmo que o original tenha sido, mais do que declamatório, feito para ser entoado por um rapsodo e acompanhado de instrumentos, hoje preferimos a versão íntima, familiar, de Frederico Lourenço, que ouvimos em nossa mente. A tradução do próprio registro da Ilíada, mais do que domesticar palavras e expressões, domestica a obra inteira para que ela caiba na nossa sensibilidade — isto é, numa experiência íntima de leitura.

Esse movimento da tradução segue a escrita original. Quem conceberia hoje uma obra literária feita para a leitura pública em voz alta? No século 19, José de Alencar, que lia para a mãe e para as tias quando garoto, teve seu supersucesso O Guarani lido em voz alta nas ruas. Os fãs aglomeravam-se para acompanhar a ação assim como hoje as pessoas acompanham séries de TV. Naquele folhetim, não há nenhum parágrafo que tenha mais de dois períodos. Cinquenta e seis anos depois, Proust publicava Du Côté de chez Swann, cujos parágrafos longuíssimos antes pedem a solidão concentrada do que um ambiente de sarau. Qual das duas obras parece mais datada?

Uma ressalva: faço doutorado sobre Alencar, admiro-o enormemente, e não creio que a mudança do gosto do público tenha qualquer relação com o talento do cearense. Assim, por favor, ninguém depreenda que estou meramente afirmando uma superioridade de Proust: estou apenas notando que mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

Não que a poesia fique atrás. Podemos imaginar, hoje, um grande poema público, empostado, como “O navio negreiro”? A própria empostação nos parece vizinha da empáfia. O verdadeiro tem os trejeitos do íntimo: é tranquilo, espontâneo.

 

3.

A intimidade tornou-se o lugar da verdade. Mas por quê? Permanecendo no âmbito religioso, fico tentado a pensar em santo Agostinho.

Dez anos após seu batismo, Agostinho escreveu as Confissões — uma longa exposição de sua intimidade, inclusive sexual. A motivação da obra provavelmente foi apaziguar as suspeitas que pesavam sobre aquele homem brilhante que tinha passado de ex-frequentador de seita a bispo de Hipona, no norte da África. Seu próprio brilhantismo era fonte de suspeita. Por isso, Agostinho teria decidido expor-se por completo — son coeur mis à nu — para fazer cessarem as suspeitas e prevenir-se contra futuras acusações.

Claro que o leitor escaldado do século 21 imediatamente se perguntaria sobre o que foi que Agostinho preferiu não contar. Isso, porém, apenas nos levaria a mais paradoxos da intimidade. Primeiro, a ideia de que a intimidade exposta deixa de ser intimidade, e que, portanto, a verdade precisa estar no que não foi exposto. Segundo, a ideia, mais do que moderna, de que a revelação da intimidade tem um papel na vida pública. Ou então, que a intimidade pode ser instrumentalizada em nome da boa imagem.

 

4.

Pulo de Agostinho para o diretor russo Aleksandr Sokurov. Uma estranha palavra — “humanizar” — marcou a recepção a seus filmes Taurus, Moloch, e O Sol. Não assisti a Taurus (2001), que trata da intimidade de Lênin, mas assisti a Moloch (1999), que mostra um calmo e pitoresco fim de semana na vida de Hitler, e a O Sol (2005), que mostra a intimidade do imperador Hirohito no momento em que os aliados vencem o Japão na Segunda Guerra Mundial.

Digo que “humanizar” é um verbo estranho porque ele indica que um ser humano de algum modo não é humano, como se o registro do humano não pudesse incluir a frieza ou a monstruosidade. Mais ainda, a advertência contra a humanização de monstros parece dizer: cuidado, precisamos odiar aquele ser totalmente, não podemos admitir um pingo de identificação.

Por trás mesmo desse horror está a noção de que a intimidade é o local da verdade. No caso do filme Moloch, como crer que um homem capaz de passar um calmo fim de semana com a namorada nos Alpes também é capaz de mandar matar tanta gente? Não podemos pensar nele assim. Não podemos pensar em sua intimidade; não podemos pensar que ele acordava de manhã sem que isso fosse um ato político. Nós temos intimidade, e queremos protegê-la; os ditadores e facínoras, também. Gostaríamos de ser definidos por nossa intimidade, de pensar que nossos pais, nosso cônjuge, nosso melhor amigo é quem nos conhece “de verdade”. Porém, e a ideia de que apenas Eva Braun conhecia o “verdadeiro” Hitler? Talvez, se Sokurov tivesse explorado mais essa premissa, seu filme tivesse ficado mais forte — ainda que escandaloso.

 

5.

A intimidade é o lugar da verdade. Essa certeza só levanta questões. A primeira, que não consegui responder, é: por quê? Ela é o lugar da verdade só para os bons? Ou ainda: até que ponto somente os bons teriam direito a serem redimidos pela exposição da intimidade? Por que alguém é “humanizado” por sua intimidade, e por que nossa sensibilidade prefere o íntimo? Essa última pergunta, aliás, é a mesma coisa que dizer: para efeitos retóricos e estéticos, a intimidade é o lugar da verdade.

Mais: podemos fugir da analogia entre assistir ao Big Brother na TV e ler a coleção História da vida privada? (Mesmo que as câmeras estejam ligadas o tempo todo, existe a expectativa de que ninguém fica o tempo todo representando um papel para elas.)

A preferência pela intimidade é uma tendência histórica, que deriva da cultura do livro portátil e industrializado (que pede uma experiência íntima de leitura), e o caso das Confissões de Agostinho é isolado, ou estamos diante de um interesse “natural”, que sempre esteve aí, e foi apenas potencializado pela tecnologia?

Por que precisaríamos já ser totalmente simpáticos a uma pessoa para acreditar que o que ela diz em público é 100% verdade e 100% da verdade (sobre a questão presente naquele momento)?

Não tenho resposta. Tenho à minha frente um caderno A5 de espiral com uma de minhas queridas canetas — a edição especial de 2017 da Pilot Vanishing Point — e um iPad mini. Vou escrevendo ora com a caneta, ora com o teclado. Talvez a leitora e o leitor pensem que o meu pensamento verdadeiro é o que ficou no caderno. Talvez pensem que a revelação desses detalhes idiossincráticos, ao sugerir o cenário da escrita, “humaniza” aquele que os escreve, ou talvez até pensem que a verdade está naquilo que foi pensado, mas não escrito — e a verdade é que, ao escrever “X ou Y”, sempre fico meio incomodado com a regra da língua padrão que obriga que o verbo esteja no plural; “‘um ou outro fazem’, que absurdo!”.

Esse é outro paradoxo. Podemos ser paranóicos. Acreditar que o íntimo é sempre o que não vemos. (O maior choque de um cônjuge traído não é descobrir que não, ele não conhece a intimidade de quem trai?) Que, se é assim, a verdade está sempre em outro lugar. Nunca conosco. Que a solução de uma questão pode satisfazer, mas só provisoriamente, porque existe algum detalhe mais íntimo que nos escapa, e que outro verá, porque temos um ciúme fundamental, que faz com que a intimidade do outro (com uma pessoa, com uma questão abstrata, que seja) seja sempre mais plena, e, portanto, mais verdadeira.

O que até parece uma resposta. Mas que pode ser apenas um nome para o problema.


Pedro Sette-Câmara é tradutor e doutorando em Literatura Comparada na Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

Ilustração de Celeza Ramalho

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