Só o monstro é original na morte.
Heitor arrastado por Aquiles diante dos muros de Troia
não é a morte.
A morte de Ofélia não é a morte.
O suicídio ritual de Mishima não é a morte.
Torquato Neto.
Francesca Woodman.
O tiro de Hemingway na própria boca
talvez seja a morte.

Só o monstro é original na morte.
Todo tumor é parecido.
Todo coração enfarta igual.
O atropelamento é do asfalto.
A bala perdida é do metal.

Só o monstro é original na morte.
Eu costuro panos de prato para a morte.
Faço café toda manhã.
Como bananadas.
Tento parar de fumar.
A morte sabe o quanto engordei
e me vê nu quando trepo.
Sente o cheiro de suor quando volto do trabalho.
Guarda conta dos filmes que vejo
dos corpos que cobiço.
A morte me viu lamentar outras mortes.
Está comigo nas festas e eu bebo
com ela.

Só o monstro é original na morte.
Nada de novo guerra bordéis bocas de fumo
facada pulo de ponte acidente de trânsito
o mal súbito que ninguém entende.
Conheço o perfume das toalhas que a morte usa
para se secar depois do banho.

Só o monstro é original na morte.
Minhas cuecas.
As vezes em que dormi nu.
Os dias em que minha mãe chorou.
Os dias em que saí com as roupas amarrotadas.
Minhas meias.
Minhas malas.
Meus passaportes.
Meus exames de sangue.
Meus parentes morrendo
pouco a pouco
meus parentes morrendo.
A morte conhece meus amigos.
Sabe as fronteiras que cruzei.
Sabe terminar as frases que começo.
Sabe porque não quebro os versos
onde deveria.

Só o monstro é original na morte.
Minha amiga.
A morte está nas ruas
mas volta
bêbada
para a minha cama.
As lanchonetes botam salgados no forno
às cinco da manhã.

Só o monstro é original na morte.
E se me permitirem quero ser homem
ou garoto, se preferirem.
A morte bebe toda a água da geladeira
e não enche as garrafas depois.

Faz tanto calor no Rio de Janeiro.


Victor Heringer foi um poeta e romancista carioca. Recebeu o Prêmio Jabuti pelo romance Glória (2012) e foi finalista do Prêmio Oceanos por O amor dos homens avulsos (2016).  Também escreveu um livro de poemas, O Automatógrafo (7Letras), e um de contos, o Lígia (e-galáxia). Este poema inédito foi enviado pelo autor em 22 de janeiro de 2018 para publicação nesta edição da Deriva.

Ilustração de Carolina Nazatto

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