Eu estava jantando perto do hotel, em um Pizza Hut ou McDonald’s, não lembro, com seis ou sete melhores amigos recém-conhecidos. Tínhamos todos entre catorze e dezesseis anos e aquela era a primeira viagem sem nossos pais. Longe da minha família, dos guias da excursão e das horrendas camisetas alaranjadas fluorescentes que precisávamos usar durante o dia, eu era a satisfeita inquilina do ser mais livre do universo ou, ao menos, do ser mais livre em que eu já tinha conseguido me hospedar no meu vigiado dia a dia de tradicional família mineira: o restaurante era zero original e o destino, a famigerada Disney, idem, mas eu me sentia dentro de um musical muito novo, muito meu e muito bom. Tão bom que, em determinado momento, incapaz de continuar carregando o peso daquele prazer, abandonei abruptamente a trilha movimentada das conversas altas e gargalhadas coletivas e rumei para uma solitária via esburacada. O gatilho foi uma simples foto que um garoto do grupo inventou de tirar. Enquanto eu posava, só conseguia pensar: isto aqui, tudo isto aqui que estou experimentando, vai virar uma foto. Vai ser reduzido a um porta-retrato, no meu quarto, perdido entre as brigas com a minha mãe e as tarefas da escola. Sorrindo para o fotógrafo, constatei que minha noite estava arruinada. Já de volta ao hotel, só me restou chorar ouvindo Roxette no discman.

E pensar que hoje nem lembro o nome do hotel, das companhias daquela noite ou mesmo se aquela sensibilidade digna de uma ouvinte de Spending my Time desabou sobre mim em um Pizza Hut ou McDonald’s.


 

Sustentar melhor a (falta de) gramática do êxtase demanda uma convivência razoavelmente boa com a efemeridade das experiências, mas passei muito tempo sem ter ideia de como fazer isso. Depois de outros episódios de nostalgias-do-momento-presente, dois acontecimentos me ajudaram a desconstruir, aos poucos, essa ambivalente relação com prazeres acima da média, e desfrutar com mais leveza aquelas paisagens deslumbrantes que a existência, vamos admitir, nos apresenta muitas vezes.

O primeiro foi o contato com algumas ideias de Epicuro (341 a.C.- 270 a.C). Acho curioso como algumas leituras, por mais que façam todo o sentido racionalmente, não são absorvidas por nossos poros, enquanto outras facilmente nos encharcam por dentro, como se tivéssemos uma sede específica, muito receptiva àquele jorro. Eu nem sou especialmente admiradora do epicurismo, mas uma ideia muito simples do filósofo — que as boas memórias servem de alento durante as fases difíceis da vida — me pegou. Pensei: se estou mal, fico pior se me lembro de momentos bons. Como pode uma coisa dessas, celebrar as memórias boas? Estou doente, me regozijo revivendo momentos saudáveis, em vez de lamentá-los? Estou infeliz, me pego consolada pelos jantares em que me vi sorrindo, brindando? O rastro de abraços de pessoas que não estão mais aqui pode mesmo ser um rastro alegre? Eis uma relação generosa com a leitura de nossas vidas — em vez de rasgar os capítulos, nós os relemos quantas vezes desejarmos, com a avidez de um leitor que realmente desfrutou aquela história. No lugar da amargura, o contentamento por ter vivido aquilo e poder reviver quando quiser. É nosso. Ninguém nos tira.

Seria este, aliás, um desfrutar mais consistente, mais digno desse nome? Um desfrutar longevo, que segue nos acompanhando numa espécie de apego alegre?

O segundo acontecimento ocorreu num grupo de leitura bem informal de que fiz parte por cerca de um ano. Líamos textos por vinte minutos e os debatíamos por duas horas; em uma dessas discussões, compartilhando a experiência de um parente que estava sofrendo longos lapsos de memória devido a um problema neurológico, um integrante comentou: “Imagine que você não sabe quem é. O que é isso, não saber quem se é? Olhar-se no espelho desconhecendo a história daquele estranho que aparece no reflexo?”

Ocupando um lugar mais neutro e descritivo do que ingrato, refleti: não importa se estamos falando das passagens mais tristes ou banais da nossa história, a memória é parte fundamental de nossa identidade. Reviver, ressentir, ter saudade, arrepende-se, até mesmo sofrer por feridas mal cicatrizadas e se assustar com a presença dos tantos fantasmas que nos assombram: isso faz parte de ordenar as experiências que vivemos, de amarrar no nosso longo romance, repleto de partes interessantes e outras nem tanto, os episódios que atravessamos e que a partir dos quais edificamos nossas percepções sobre nós mesmos e sobre os outros. Isso faz parte de saber quem somos, ainda que esse seja um saber confuso, frágil, fluido e atravessado por alegrias e mágoas.

Hoje, anos após aquele confusão mental epicurista, o acolhimento de minhas vivências anda mais nietzschiano do que nunca.

Ando pensando que abraçar tanto as experiências e memórias que entendo como positivas como aquelas que classifico como incômodas é uma boa definição de paz.

I’m spending my time
(Spending my time)
I can’t live without your love!
(Spending my time)
I’m spending my time, my time, my time!
It’s bad to live without you, honey, honey

 

 

Claro, perder nosso “honey” não é legal, mas passar o tempo sem uma relação minimamente serena com o tempo passado talvez nos atire em um atropelamento bem mais trágico, me ocorre agora, longe dos meus catorze anos, mas também de um discman cujas pilhas mal duravam um CD inteiro e das luzes frias de um restaurante de fast-food em Orlando de que nem vale a pena me recordar. No fim, a foto tirada no restaurante, nem cheguei a vê-la, e as brigas com minha mãe e as tarefas da escola seguiram sem ser observadas por porta-retrato algum: aliás, nunca fui de botar porta-retratos no quarto.

Entre as memórias boas e ruins, dançam (bagunçam) as fantasias daquela noite dos meus catorze anos e as da noite de hoje, enquanto escrevo este texto, só para deixar a relação com a realidade (sic) e com o tempo (sic?) ainda mais tumultuada.


Liliane Prata é jornalista e escritora. Autora de ‘Sem Rumo’ (Editora Planeta), entre outros livros.

Ilustração de Carolina Nazatto.

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