No curta-metragem Two Men, baseado em um conto de Franz Kafka, a história se passa em Kimberley, uma comunidade aborígene na Austrália Ocidental. Acompanhamos, em síntese, dois homens correndo. Ninguém, além deles, saberá por que motivo correm.

Muitas narrativas na literatura, no cinema e na televisão nos deixam condicionados a supervalorizar a conclusão das experiências, gerando expectativas de que o final dará significado a toda jornada. O fim, para ser fim segundo essa lógica, tem que ser dado completamente. Quase nunca há espaço para a nossa imaginação preencher lacunas. Acho que pensar nesse vazio de uma história que parece incompleta, e o fato de sermos coadjuvantes mesmo nas narrativas de que participamos, é o que faz com que Adeus, Haiti (Brother, I’m Dying!), livro de memórias familiares escrito pela autora haitiana Edwidge Danticat, seja, sem dúvidas, o meu livro preferido.

“Descobri que estava grávida no mesmo dia que a rápida perda de peso e a crônica respiração arquejante do meu pai foram diagnosticadas como fibrose pulmonar terminal.”

 

Adeus, Haiti (2007) fala tanto daquilo que sabemos como do que não esperávamos. Para isso, usa vida e morte como fatores que iniciam e encerram sua narrativa. Mas não se engane pensando que é uma leitura triste. É um livro sobre amor, sobre como é possível, de dentro das adversidades, construir e nutrir laços afetivos verdadeiros e saudáveis.

Danticat é a filha grávida, assustada com a morte de seu pai, que escreve uma espécie de memoir sobre a história de sua família. Escreve sobre as vidas que se somaram e foram tiradas ao longos dos anos, sobre os caminhos traçados pelos pais, que deixaram os filhos no Haiti com os tios e migraram para os Estados Unidos na tentativa de encontrar uma vida melhor, longe dos conflitos civis de seu país. Durante a leitura, mergulhamos em uma história íntima e comovente, na qual passado e presente estão sendo contados lado a lado, sobrepondo-se.

A história, que foca nas dificuldades e alegrias de uma família, vai retratando a realidade do Haiti, que, por sinal, só se agravou ao longo dos anos. Embora Danticat seja a narradora, o protagonismo evidentemente é de seu pai e do tio Joseph, dois homens negros haitianos que criaram essa filha juntos, ao mesmo tempo, em distâncias diferentes. Tio Joseph é um homem que aceitou cuidar dos filhos do irmão André, enquanto ele tentava uma vida melhor em outro país, e não apenas cuidou e educou os sobrinhos, como estabeleceu com eles uma relação fraterna afetuosa.

Dois homens, dois irmãos e dois “pais” dos mesmos filhos que não competiam entre si, que se preocupavam e cuidavam um do outro. Adeus, Haiti mostra que é possível escapar de padrões masculinos nocivos, pautados por violência e abandono, construindo relações de amor e cumplicidade.

Mesmo sendo um livro denso, Adeus, Haiti também consegue ser de uma leveza que faz avançar na leitura sem sentir o peso dos episódios narrados — ao menos até a segunda parte. Danticat consegue compartilhar memórias tristes de uma família assombrada pelo racismo estrutural em um país que ainda paga por ter se revoltado e vencido seu colonizador, e que hoje se encontra em ruínas. A história negra já foi muito perdida no processo de diáspora. Para muitos, reconstruir sua identidade é uma das maiores dificuldades. Terremotos não criam só fendas no solo, eles abalam e fendam famílias. É por isso que esse livro se torna tão importante.

A autora conta sobre suas lembranças e mostra que, antes mesmo de terremotos acontecerem, já lidamos com lacunas, mas que esses exílios que não separam nossos laços. Seu livro nos dá a oportunidade de pensar que é possível, de dentro dos fragmentos, erguer algo sólido.

Na segunda parte, ficamos aflitos, já sabendo que o pai em algum momento vai morrer. A partir do capítulo “Não há vergonha maior”, Danticat conta que, mesmo com visto, seu tio, que pretende entrar nos Estados Unidos para fugir da guerra em seu país, é visto como persona non grata. A prisão e o tratamento que foi dado a ele, aos 81 anos, fazem esse homem vivenciar esse episódio como a maior vergonha em sua vida. Tio Joseph, que tinha pressão alta, é impedido pelos policiais de tomar remédios, o que o leva à morte. Isso mesmo, ele morre antes do irmão, que, ao longo do livro, vai piorando gradativamente. Ao ler, acompanhamos todos os exames realizados, quanto de sangue foi tirado, onde foi a convulsão que ele teve. Danticat não nos poupa de uma dor que não é só dela, é nossa. A realidade se repete: quantas famílias apostam no “sonho americano” como a esperança de construção de uma nova vida, mas encontram ainda mais hostilidade. A nossa história é cíclica: o mundo vai repetindo a mesma narrativa em contextos distintos, pois temos falhado em quebrar esses ciclos.

A morte do tio Joseph e, tempos depois, a de seu irmão, é o que me levou às lágrimas em Adeus, Haiti. A morte anunciada no começo do livro se torna menor diante da morte brutal de alguém que, aos 81 anos, está confinado a uma cela apenas por ter nascido haitiano e negro.

A morte é um fim, um começo, nunca vamos compreender. Chorei pelo tio Joseph da mesma forma que chorei pelo meu avô e por nossas próprias memórias.

Muitos talvez não contem suas histórias, pois acreditam que não são importantes. Outros não contam suas memórias pessoais e familiares porque pensam que escrever seria reviver o passado, aquilo que doeu e que ainda nos fere. Nem sempre somos responsáveis pelos rumos que as histórias tomaram. Nem sempre podemos mudar o futuro. Nem sempre somos protagonistas de uma história que participamos. Mas em Adeus, Haiti, Danticat deixa claro que, mesmo quando não somos protagonistas, as histórias precisam ser contadas.

“Esta é uma tentativa de coesão e de recriar alguns poucos meses maravilhosos e terríveis, quando suas vidas e a minha se cruzaram de maneira espantosa, forçando-me a olhar para a frente e para trás ao mesmo tempo. Só estou escrevendo isto porque eles não puderam.”

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