Cada vez que contamos nossa história nos reinventamos

É curioso como nos acostumamos a olhar nossos pais apenas como nossos pais. Parece até que eles são nossos pais desde o dia em que nasceram. Ainda que me lembrasse de algumas histórias que meu pai me contava quando eu era criança, foi no dia em que assisti ao depoimento que ele deu ao Museu da Pessoa, levado por uma neta que trabalha lá, que me dei conta de que aquele homem que, por acaso, é meu pai tem uma história, e eu só faço parte dela.

Naquele momento, senti-me como sendo apresentada a uma pessoa a quem eu quisesse conhecer um pouco mais. Daí pensei: Quem sabe eu consiga escrevendo algumas das histórias que ele sabe contar tão bem?

Depois de escrevê-las, surgiu a ideia de registrá-las num pequeno livro, que melhor seria chamá-lo de registro afetivo. Imaginei que talvez um dia, ao ser lido pelos netos de meu pai, esses pudessem identificar nele um pedacinho de si, tal qual aconteceu comigo ao escrevê-lo.

Aqui apresento três dessas pequenas histórias:

1. Rastros

“Fiquei tão feliz que até olhei o rastro.” Esta foi a frase que ouvi do meu pai ao lhe perguntar se havia gostado do tênis que lhe dei de presente, não faz muito tempo.

De imediato, até pensei que ele não havia entendido a pergunta, pois nos seus 79 anos, felizmente de boa saúde, a audição já anda meio comprometida. Então insisti – o senhor gostou do tênis? Mais uma vez, ele respondeu: “Não estou lhe dizendo que fiquei tão feliz que até olhei o rastro?”.

Diante de minha expressão de estranhamento, de imediato, ele foi me explicando que ganhara seu primeiro par de sapatos aos 18 anos, presente de um irmão que já havia migrado para São Paulo e voltara para visitar os parentes que ainda moravam no interior de Pernambuco. Ele ficou tão feliz quando calçou o sapato e saiu caminhando, que olhava para trás para ver o desenho que o solado esculpia sobre a areia do chão árido do sertão.

Só então tive a dimensão da frase “Fiquei tão feliz que até olhei o rastro.” As marcas impressas na areia devem ter desaparecido com o primeiro vento quente que soprou, porém, na memória de meu pai o gosto de felicidade ficou impresso para sempre. Naquele momento, percebi por que ele sempre tem um sorriso nos lábios. Provavelmente, são os rastros de felicidade que ele vem colecionando durante a vida.

2. A promessa

Foi só aos oito anos de idade que meu pai viu chegar a oportunidade de conhecer sua cidade. Até então não havia arredado o pé do sítio onde nascera e que ficava a dezoito quilômetros do centro de Garanhuns, município do agreste pernambucano.

A mãe, quando soube que a filha mais velha pretendia levá-lo à Garanhuns no sábado, dia de feira na cidade, foi logo dizendo: “estás procurando dor de cabeça, ele vai te dar trabalho”.

A essa altura, a imaginação de meu pai já estava povoada das fantasias do que veria naquele mundo desconhecido, separado dele por 18 quilômetros de estrada de terra. A excitação era tanta que nem levou em conta a discordância da mãe.

Então chegou sábado; às quatro horas da manhã, ele que dormia na rede percebeu uma movimentação na casa: era sua irmã usando seu melhor vestido, pronta para sair. Quando se deu conta de que ela estava saindo e não iria levá-lo, pulou como um corisco de dentro da rede e iniciou uma choradeira que pôs fim à quietude da madrugada.

A decepção e raiva por ter sido enganado se transformaram numa gosma de lágrima e catarro que escorria do nariz e que ele passou a limpar no vestido da irmã que segurava tentando impedi-la de partir sem ele.

Não sei se comovida pela cena ou para preservar o sono dos que ainda dormiam, a irmã trocou de vestido e saiu arrastando o menino pela estrada.

Quando lhe perguntei sobre a caminhada de dezoito quilômetros, ele me disse que não foi difícil, pois moleques são como cabritos, vão pulando de um lado pro outro, divertindo-se com as surpresas do caminho: um pequeno riacho para molhar os pés, um calango que atravessa a estrada, uma borboleta que pousa na pedra.

Quanto às impressões sobre a cidade, não percebi muito entusiasmo da parte dele; provavelmente, ficaram aquém do que imaginou. Por outro lado, quando fala desse episódio, sua voz não disfarça o orgulho do menino lambuzado de choro que lutou pelo que haviam lhe prometido.

3. O calção

Nos grotões do sertão de Garanhuns, a vestimenta usada pelas crianças, meninas e meninos, consistia numa camisola de sacaria, nada além disso. Afinal, numa família de doze filhos, era a roupa que dava para comprar. Conta meu pai que usou a tal camisola até os oito anos de idade, pois foi no dia em que o chamaram de mocinha que ele resolveu dar um basta, rasgando-a de cima até embaixo.

Chegando em casa, sua mãe foi logo lhe perguntando: “O que aconteceu com sua roupa?”, meu pai, com a mais pura convicção, respondeu: “Fui chamado de mocinha, não uso mais esta camisola.” De pronto, como que acolhendo a justa reivindicação, a mãe lhe disse “Vou pedir à sua tia que lhe faça um calção”.

O tecido para confecção da nova roupa foi reaproveitado da camisola rasgada. Porém, parece que isso não significou um problema, pois conta meu pai que quase desmaiou de alegria ao ver sua tia costurando o tão esperado calção.

Já vestido e investido da masculinidade conquistada às duras penas, eis que chegam dois irmãos de meu pai já bem mais velhos. Um deles disse “Ah, já está usando calção, então chegou a hora de ir para a roça”. Ao ouvir a sentença, conta meu pai: “aí, eu desmonorei”. O sonho de brincar com os meninos que dele caçoaram, agora, ostentando a vestimenta que lhe conferia a identidade masculina , se desfez, desmoronou.

E foi assim que aos oito anos de idade ele foi trabalhar na roça e lá permaneceu até os dezoito, saindo apenas para subir no pau de arara que o traria para São Paulo.

Sabe-se lá se também não rasgou a roupa surrada da roça, como fez com a camisola, quando decidiu vir para cá construir um novo sonho.


Dalvanira Pais de Lima é psicanalista com formação pelo Centro de Estudos Psicanalíticos.

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