“Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras — quais? talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no poço fundo.” Clarice Lispector, em ‘Um Sopro de Vida’

 

Ela gostava de escrever. Mas a mãe bisbilhotava suas gavetas à procura do que a filha não podia falar. Como dizer o que ainda não tinha palavras? E se tivesse, talvez não quisesse dizê-las.

Em papéis soltos, que guardava em dobraduras infinitas, escrevia: “Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo.” Clarice Lispector, em Perdoando Deus.

Escrevia… “Largar o cobertor, a cama, o terço, o quarto, largar“, Antônio Cícero, em Sair.

Escrevia… “A vida é um incêndio: nela dançamos salamandras mágicas”, Mario Quintana, em A lareira.

A mãe remexia os papelinhos, o que é isso menina, quanta bobagem!

Ela, então, queimava as dobraduras, escrevia, dobrava e queimava.

Precisava de um lugar só seu onde pudesse escrever o que ainda não tem nome, “o que não tem certeza nem nunca terá, o que não tem conserto nem nunca terá, que não tem tamanho, o que será, que será?”, Chico Buarque de Holanda, em O que será (À flor da terra).

Já mocinha, começou a escrever nas mesas dos cafés; pedia um café, água, mais café, mais água e passava horas. Tinha um lugar, uma morada – o papel .

Quanto mais escrevia, mais tinha o que escrever. Depois de uma jornada— tudo exumado — , caía exausta. Escrever é mastigar pedras.

Gostava de escrever à noite, na solidão, mas não podia, a mãe, sempre a mãe… Precisava ter recursos para arcar com um espaço próprio, uma mulher deve ter dinheiro e um teto todo seu se quiser escrever em paz — Virginia Woolf, em Um teto todo seu.

Um canto preservado da curiosidade alheia, um lugar de proteção de suas intimidades, onde escrever suas cartas, seus diários guardados no fundo da gaveta, fechados à chave, à luz de uma luminária. Em segredo, suas experiências de mulher, onde a presença de qualquer outro seria insuportável.

Casou-se. Ela casou-se, finalmente! disse a mãe. Agora vai parar com essa bobagem, mania de se isolar!

Com o casamento veio o quarto conjugal, que não tolera privacidade. Abandonou os diários, as cartas, o lugar de refúgio e isolamento. A intimidade a dois exigiu sua renúncia, ameaçou a necessidade de segredo. Exigiu sua renúncia?

O mundo contemporâneo, permeado pelas mídias sociais, é um lugar complexo e perigoso. Pertencer é a ordem do dia, pertencer a um grupo social, a um grupo intelectual, a um grupo político, cultural, identitário, ao dos transgêneros, dos sem gêneros, dos sem grupo, o que seja. Para pertencer, há que se padronizar uma forma de vestir, de comprar, de consumir, de pensar, de se comportar.

Há que se postar, no Facebook, no Instagram, em todas as redes, estar por dentro, ser in. Todas as atividades são compartilhadas, desde o nascimento de um filho até o falecimento de um parente ou amigo. Receitas culinárias, consultas ginecológicas, acontecimentos e matizes da vida privada.

A fronteira entre o privado e o público se desfez, sabemos tudo de todos. As fronteiras foram abertas mas, o que ocorre, é uma imensa confusão entre privacidade e intimidade.

A intimidade requer alguém em particular, um outro encarnado, com quem estabelecer diálogo, e na falta dele, um outro imaginário, como na fala dos poetas, dos escritores e dos músicos.

O diário, tão fora de moda, é um diálogo íntimo, em que o autor escreve para alguém, que muitas vezes é ele mesmo.

Devaneio diurno é o nome que Freud dá, no ensaio “Escritores criativos e devaneios” (ou “O poeta e o fantasiar”, a depender da tradução consultada), a um enredo imaginado no estado de vigília, em que o sujeito fantasia situações que estão relacionadas com realizações de desejo. Com a ajuda da memória, estabelece-se um diálogo entre o devaneio e o passado, criando uma nova narrativa da história vivida.

Esse tipo de narrativa da intimidade, parece não ter fim. Uma história contada puxa outra, e mais outra… essa é a abertura que tal diálogo propicia.

A confusão entre privacidade e intimidade é tal que, o olhar e, apenas o olhar, tomou o lugar do estar, do contar, do silenciar, do recordar, do calar, do sorrir, do chorar, do sentir saudades. Da intimidade.

Tudo se mostra, explode à luz do sol, tudo é devorado e expelido até o próximo post, até a próxima foto, gerando, ao final, um amargo sentimento de solidão, tão comum nos dias de hoje, povoados de likes e emojis, que dizem nada, a não ser do nosso desamparo.


Sylvia Loeb é psicanalista e escritora.

Ilustração de Celeza Ramalho

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