A trajetória literária de Hilda Hilst — que passa pela prosa, poesia e teatro — tem início de fato aos pés de uma figueira centenária, a qual ela denominou de sagrada. Para se dedicar totalmente à literatura, aos 33 anos, a escritora abandonou a vida agitada que tinha em São Paulo e se refugiou em uma fazenda em Campinas — a Casa do Sol foi desenhada pela própria Hilda. Foi quando, aos pés da figueira, construiu uma mesa de pedra, símbolo de que passaria o resto da vida ali. E mais do que isso, Hilda conhecia astrologia, sabia o quanto o elemento terra era presente no seu mapa astral — daí a repetição tão constante, em sua poesia, de termos, como “pedra”, “barro”, “argila”, “ilha” — por isso, também, a mesa poderia ser vista como uma metáfora dela mesma ou do que queria que seu trabalho ali se tornasse.

“Vê, Ricardo, se falo tanto do ser feito de terra
É porque o resto é paisagem.
Olhei minha própria carne certa noite. E essa dor
Secular que a recobria. Tu passeavas teus olhos
Revivescendo a ilha, e meus braços castigados
Do gesto de alcançar, buscavam esse tempo de colher.
Mas eu não fui pastora. Há na terra que sou largas artérias
Mas um vento de assomos, um deslumbramento me tomava
E o gesto de plantar cristalizava-se no meu mais puro olhar.

Olhava: A figueira, a pedra umedecida da cisterna
O sol sobre o rosto das mulheres, um rosto semelhante
Àquele barro esquecido de rios. E ubíqua, viajava (…)”

Segundo Hilda, a figueira realizava desejos — fez com que a voz de Caio Fernando Abreu ficasse mais grossa, deu-lhe o Prêmio Chinaglia e uma viagem à Europa, exatamente como ele pedira à árvore. À Hilda, dera a própria Casa. E mais do que partes do local em que criou sua obra, a mesa de pedra e a figueira revelam algo importante sobre a autora: a sua procura pela aproximação entre a matéria e aquilo que considerava sagrado, e como isso se dá a partir de uma quebra de pactos, como o afastamento da vida social em que se inserira tanto. É na ruptura que se sustenta a poesia de Hilda Hilst.

Rainer Maria Rilke fala da aproximação da poesia como uma forma de exercer o amor pelo ínfimo e a confiança daquilo que parece pobre, “as pequenas coisas que quase não vemos e que, de maneira imprevista, podem se tornar grandes e incomensuráveis”. A noção de intimidade aqui já não é mais aquela pensada no afeto entre duas pessoas, mas na aproximação entre pessoa e coisa, a qual ultrapassa o campo do entendimento e se insere “no campo da vigília e do saber”.

Além de tal aproximação, a criação poética requer a ruptura da noção da própria palavra, pois o significado da palavra é fundado em uma convenção e, quando usamos a palavra a partir de uma referência convencionada, estamos sendo também todas as outras pessoas que compartilham da convenção. Já a linguagem poética solicita que o indivíduo procure, a partir do que sente, alargar as possibilidades de significado da palavra, o que só pode ser pessoal (mesmo que haja uma convenção no sentir, o exercer do sentimento é sempre singular), logo requer tal ruptura.

“(…) Por que não tentas esse poço de dentro
O incomensurável, um passeio veemente pela vida?

Teu outro rosto. Único primeiro. E encantada
De ter teu rosto verdadeiro, desejarias nada.”

A aparente excentricidade ou irreverência é a quebra de pactos que se insere na própria personalidade de Hilda, o tom de deboche imoral — ora sutil, ora escancarado —, inserido na encenação de seriedade, é percebido em qualquer uma de suas entrevistas. A vida sexual que levava, tão incomum à época para uma mulher. A ousadia em, ao criticar o obsceno do mercado editorial, ter escolhido um eu-lírico que era uma criança falando de suas experiências sexuais quando se vendia — é difícil ir além do incômodo da leitura e perceber a crítica, mas Hilda não se importa com vocês, leitores, ela se importa com a desestabilização.

“Não se pode mais escrever coisas como: ‘O sol estava forte naquela tarde’, ou ‘Eu me sentia bem, levantei-me em um tal estado de felicidade’ etc. Eu proponho uma remodelagem, dirijo uma proposta diferente para atingir o outro, de acordo com uma visão que tenho dele, uma torrente, fazer com que o outro exploda, que ele seja obrigado a praticar por conta própria esse processo que é, ao mesmo tempo, de regresso e de autoconhecimento. Todos os meus textos se resumem a este tipo de proposta: uma sequência de instantâneos, uma sequência de flashes, como se eu estivesse fotografando a visão que tenho do outro, minha visão sobre você. E meus textos reunidos só têm uma ambição: expor essa visão do outro. Aquele que diz que não entende, um dia será cobrado, e vai chegar o momento em que esse processo de desnudamento lhe será exigido e ele vai ter que fazê-lo.”

A quebra de pactos também se insere em sua experiência de ter deixado a literatura de lado, mesmo que minimamente, para se dedicar a gravar vozes sobrenaturais, segundo as experiências de Friedrich Jürgenson — já que a noção do que é natural é também um pacto. A junção do mundo espiritual à ideia de estudo, a concentração de realizar tais gravações durante horas a fio, rebobiná-las da maneira correta e disciplinar os ouvidos para se atentar a vozes que aparecem entre os sons de fato registrados, e no fim ser taxada de louca por isso é um processo que não se difere muito do que Hilda exerceu na própria literatura. Em uma reportagem do Fantástico, Hilda mostra as suas gravações, em uma delas, é possível ouvir um: “Hilda, tu es près de moi” (Hilda, você está perto de mim), sussurrado.

Em 2015, quando gravei uma matéria pra faculdade na Casa do Sol, no meio de uma entrevista com Olga Bilenky, artista plástica e moradora do local, quando falávamos da Hilda, a vitrola da sala ligou sozinha, e uma música alta começou a tocar, o barulho interrompendo qualquer possibilidade conversa. Lembro de ter brincado que era a Hilda se rebelando e Olga disse: “mas é a cara dela!”.

A prosa hilstiana é sempre debruçar-se no labirinto. O que ela propõe não é chegar ao centro (até porque, o centro, para as temáticas que escolheu, é impossível), mas perder-se, aproveitar se perder, apreciar a arquitetura do labirinto. De forma mais crua, talvez a geração que cresceu com a internet esteja muito mais apta a entender essa narrativa que parte de uma coisa que vai dar em outra que vai dar em outra etc. É como se lêssemos um texto online e, antes de terminá-lo, clicássemos em um hiperlink e, ao ler o texto deste, clicássemos em outro, sem tê-lo terminado novamente, e assim por diante. Ao fim, há a troca da noção de linearidade e organização pela noção de pluralidade impressa na individualidade de cada coisa; com isso, quebra-se a noção que se tinha da coisa em si e se está mais perto de outra coisa, mais funda. Mas que outra coisa?

Se Hilda nos propõe o labirinto, o que é que ela mesma teria encontrado nele? Nada— é a resposta. Em seguida, o quanto esse nada pode ser fragmentado em diversos conceitos. Colecioná-los no invólucro da palavra, juntá-los sem jamais conseguir a face vazia primeira, dá-lo outra face — o sexo, o deus, o amor, o cão, a mulher, o amor, o amigo, o obsceno. Cruzar as esquinas do labirinto, perceber que, nela, dois lugares se encontram. Descobrir, no palpável da palavra, o rarefeito do que se chama sagrado, estar próximo deles, estar perto de uma voz que sussurra, ser íntimo. Mas íntimo de quê? De nada.

Na semana seguinte à visita à Casa do Sol, sonhei com aquele mesmo lugar e com Olga. No sonho, disse que eu sentia que a Casa carregava a aura da Hilda Hilst, e que a sentia lá. Olga me respondeu que era claro que ela estava, que eu não a via de fato porque tinha medo de ver, até que me perguntou se eu acreditava mesmo que ela estava lá e que era preciso responder com verdade. Ao dizer que sim, Hilda surgiu por baixo de um lenço caído no chão, como se do chão pra cima. E me sorriu. Fiquei encantada e comecei a perguntar coisas, como se ela estive ali para ser minha vidente pessoal. Com deboche, disse que não sabia nada da minha vida e que não é porque ela era um espírito que tinha tempo para ficar me espionando. Ao fim do sonho, Hilda falou que era preciso se jogar do telhado, porque tinha se materializado e, como já não era matéria, apenas espírito, era preciso aniquilar a matéria. Já não era apenas terra, afinal.


Gabrielle Albiero é jornalista, professora e autora do livro-reportagem PANGEIA —  Fragmentos da guerra da Síria no Brasil ao lado de Luiza Aguiar.

Ilustração de Celeza Ramalho

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