TRANSPARÊNCIAS [em dez movimentos]

 

I – O INÍCIO

Chegou-me no fim do outono. “Não sou feliz”. Na segunda vez: “Serei transparente – como uma abreugrafia!” [metáfora]. Terceira: “Não sei o que dizer” [precisa pré-saber?]. […] Sétima, finalmente, afirma: “O Sonho é o maior quintal que existe” [wow!].

Porém, sabemos que as melhores associações vêm antes do relato de um sonho — e não depois. Então, busquei meu bloco (no depois) — e li o que segue [dos encontros anteriores], páginas amareladas, palavras dele [desconexas, tentativas vãs de concisão aqui]:

II – REGISTROS… [obstante curta duração abundante material]

Tenho um amigo que me estraga a vida. Me estraga os filmes e as peças. Se vou a um espetáculo com ele, começo a não gostar de nada — só porque ele está ali ao lado”.

… [ilegível]…

Pra gente saber de si, tem que haver um outro. É uma questão filosófica! Não entendo de filosofia. Mas de amor eu entendo”.

Depois, arremedo de teorias [selvagens]. Resgato quatro pequenos trechos [abaixo].

III – EQUÍVOCO [fui nomeando eu mesmo as partes — indico passo a passo; onde não há aspas, as interferências são sempre minhas] [telegráfico; interrompido; cortado — peguei o que pude…][esforço de ordenação — pois seu discurso em itálico se decompõe em fiapos] [mantive as rubricas — explico depois] [conclusões no corpo do texto]. Vejamos.

1- RELATIVO

O que dizemos depende de quem está perto.

O que pensamos depende de quem está perto.

O que fazemos depende de quem está perto.

O que somos depende de quem está perto”.

… [prescinde de questionamentos] [desenho de um mundo incerto]

2- LUCIDEZ

deixa saudades, se valeu a pena, o amor, quando acaba [hesita; gagueja].

Donde [decorre] Acreditamos que as saudades são devidas ao amor perdido.

Daquela pessoa física! Com seus componentes.

[saudades] Do hálito. Do braço. Do abraço. Do cotovelo. Da atitude. Do sotaque…

Da pegada. Do travesseiro [metonímia?] [Do beijo? não diz]

Acreditamos que sentimos falta Dela [pessoa física]. Do cardápio completo de que ela é composta. Cada item. Com tudo [dentro] Contudo, isso não procede” [colchetes e sublinhos, grifos e negritos – meus, evidentemente] [suspensão como quebra de estrofe]

3- NITIDEZ…

NÃO! [grita, convicto, no encontro seguinte]

As saudades NÃO são dirigidas ao Amor perdido.

Senão, antes: são da pessoa que éramos na presença daquele amor.

Daquele EU que o outro nos fazia ser – e que desaparece junto com o fim do amor.

Todas as coisas que pensávamos [e éramos] – que brotavam como rio caudaloso [exuberante].

Puf! TUDO sumiu.

TUDO = si mesmo maravilhoso [“à nossa revelia”, ele explica]: eu/não eu [sem bordas].

Da bonança à miséria. Do dia para noite”.

[fala brevemente de reservas econômicas e traz gráfico financeiro – apresenta em PPS; mesmo que eu lhe assegure ser desnecessário…] [quer ‘provar’ algo?]

Rabisca o que parece ser uma vaca muito magra. E arremata:

Oh! Meu amor; quantas saudades eu sinto de mim! Dor”.

4- DOR – pelas Graças perdidas – “Uma graça perdida foi antes uma graça alcançada… A escuta de um sonho fresco. O próprio sonho sonhado. Dicionário apagado… códigos. encaixes. Tantos sonhos… [dois sentidos: literal e enquanto projeto] O que fazer na escassez de ficção? [era a sua interrogação, eu já sabia…]. CUIDADO!” [recomenda, tom grave]

IV – IGNORÂNCIA [do ser] [eu mesmo nomeando, sempre] [deixa de misturar ficção e teoria a partir daqui – mais sincero, talvez?]

Não sei de mim.

O amor é quem sabe [pigarro].

Nunca soube de mim.

Não saberei de mim.

[admissão de falta? tanto melhor…]

E, de amor, afinal, não entendo…

[foi seu reconhecimento — cabal] [contradiz afirmação anterior — progresso]

V – REVOLTA — décima sétima vez – confissões, quase religioso. Assim:

Nunca pedi muito na vida.

Nunca pedi um corpo. Um corpão.

Dinheiro? Riqueza? Nunca pedi.

Sexo? Amor? Não pedi. Nada.

Acho que isso deveria vir sem que a gente pedisse.

É sorte; assim? Aleatório?

Minto! Alguma coisa eu pedi!

Mas muito pouco.

E nunca tive nem o pouco que eu pedi. Nada.

Eu só queria — oh Deus — poder apalpar os outros na rua. Nem isso?

Peço tão pouco. Só apalpar [sic].

Nunca tive…

Não tive amor”.

Repete: “Não saberei de mim!” [definitivo].

Até quarta feira, pensei [mas não disse].

VI – INTIMIDADE – Volta ainda uma vez [18ª] — Para concluir [penso que é a sua conclusão]

Intimidade é ter alguém logo cedo de manhã pra contar com pão e manteiga sonhos frescos… Fabricados pela presença daquele corpo deitado ali bem ao lado… […] Quatro dimensões, tem o corpo [no amor]” [‘estrangeiro’, é o que ele quis dizer, acredito…] “E quem há de discordar?” [afirmação sob forma de pergunta]

[…]

O divã, imóvel, permanece [a montanha não se altera].

No inverno, partiu. Num voo. […] Eu não fui.

VII – POST-SCRIPTUM — Assim transcorreu esse caso. Do processo, guardei impressões — sem mostrar [como sempre acontece]. Tantas coisas… Entretanto, vale dizer, o não verbal se transmite [especialmente nestas situações].

Então, me lembrei do sonho que tive antes do primeiro encontro – do qual esquecera completamente. Isso, mais que tudo, tinha importância. Tanto o sonho, quanto o esquecimento.

[Esquecimento errático: esquecimento é uma águia que seleciona e agarra alguma presa. Vagueia, planando por gasosos labirintos, até encontrar o que lhe convém. Bica e leva pelos ares a pobre criatura — que só então é propositadamente deletada].

VIII – O SONHO [cautela] –

Eu deveria passar um fax para ele [garranchos]. Não! Desculpe. Vice-versa. Ele ia me passar um fax. Porém, não dá certo: começa a sair um papel da máquina, mas não prospera! O fax engasga. Aparece uma mensagem ali: ‘Paper jammed’ [sic]! Papel amassado?

Ligo pra ele [de outro telefone]. Aviso que não foi bem sucedida a operação: o documento não vinga. Entretanto, enquanto explico, ele me alerta: “observe bem”. Obedeço. E olho melhor.

Algo notável: vejo que — sim— o papel vem saindo da máquina. Porém, lentamente. Amassado e amarelado. Antigo. É a pele seca de um animal. Então, sou atravessado [por algo] [talvez calafrio?]

E, para meu espanto, percebo que é a Torá que está chegando [o Velho Testamento]. Tão grosso o pergaminho, que custa passar pelo vão. Ele se espreme, úmido, tentando sair, sem ar, esmagado… Quase vivo. Poderia ser um nascimento.

Sei que se trata de uma antecipação, embora não possa explicar.

Pergunto: mas você está me mandando o original?? Ele não responde – e, em seguida, desliga [porém, novamente, não era pergunta].

Acordo assustado. Ao meu lado, ninguém…

IX – SETE OBSERVAÇÕES:

1- antes mesmo de ser, a antecipação de susto [como a que tive] é susto.

2- a transparência é opaca. De modo que não é possível precisar de quem é a caligrafia [dele ou minha] [mesmo que se tentasse]

3- Pelo aspecto refratário, só posso me desculpar. Porém, de outro modo, não se captura o desejo. O objeto de exame pede que sejamos dois [que os autores sejam dois].

4- Resultado sempre impenetrável em algum grau [a um terceiro].

5- Em algumas partes, o texto foi adaptado a partir de pequenos trechos de duas peças de teatro: Berenice morre [2016] e Andai, Duck! [2018]. Com acréscimos inevitáveis.

6- Mantendo as rubricas intactas, dá-se a ver [além do palco] as coxias. São “rascunhos” que compõem aquilo que se nomeia “intimidade”. Ou então: “Transparências” [que também a compõem]. “Palimpsesto” é a palavra. Nada é apagado. Camadas [de amor?] [será uma pergunta?].

7- Outras partes [a maioria], inéditas = jamais escritas.

X – FIM [zzzlot]


Sergio Zlotnic é psicanalista e dramaturgo. Doutor em Psicanálise pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

 

Ilustração de Carolina Nazatto

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