Nesta seção, cinco convidadas compartilham conosco suas recomendações de leitura inspiradas no tema desta edição: intimidade.

Amanda Mont’Alvão Veloso, psicanalista; Gabriela Ventura, professora de literatura; Janine Bitencourt, escritora; e Juliana Leuenroth e Michelle Henriques, moderadoras do Leia Mulheres em São Paulo, gentilmente aceitaram nosso convite e compartilharam conosco recomendações de leitura que dialogam direta ou indiretamente com o tema.

Curiosidade: o único livro que apareceu mais de uma vez nas listas foi o romance As avós, da escritora Doris Lessing. Lessing também foi indicada por Amor, de novo. Portanto, é a única a figurar três vezes entre as recomendações. Filha de pais ingleses, Lessing nasceu na Pérsia (atual Irã) em 1919 e venceu o prêmio Nobel em 2007. No Brasil, seus livros são publicados pela Companhia das Letras.


Amanda Mont’Alvão Veloso

  1. De verdade, de Sándor Marai

Este livro foi mencionado pela psicanalista Caterina Koltai durante um Café Filosófico que refletia sobre o amor, em 2009. Ela falava de como uma “mesma” história amorosa era contada com perspectivas e tintas de intimidade completamente diferentes por cada um de seus participantes, a ponto de a própria narrativa sequer ser reconhecida. Foi o suficiente para capturar meu interesse. Essas são as verdades de Ilonka, Péter, Judit e do baterista de cabaré. Publicado pela Companhia das Letras.

 

2. Reinvenção da intimidade: Políticas do sofrimento cotidiano, de Christian Dunker

Há praticamente três décadas de ouvidos atentos a formas, cores e valores do sofrimento humano, o psicanalista Christian Dunker reuniu aqui uma coletânea de textos próprios que abordam temas nada ajustáveis à régua do certo x errado, como ódio, consumo, ativismos, casamento, identificação, conexão digital e intimidade, tratados com a riqueza de detalhes e de profundidade que as relações cotidianas oferecem de bandeja, mas que um modo de vida apressado e antipático às nuances insiste em atropelar. Dunker recupera esses tesouros “banais” e os examina com olhar crítico tanto quanto aponta caminhos, mesclando situações reconhecíveis por todos nós com a observação clínica e às inúmeras referências multidisciplinares que caracterizam seu pensamento reflexivo. Publicado pela Ubu Editora.

 

3. Nós, de Ieveguêni Zamiátin

Existe um ponto comum em utopias e distopias: o desejo de reorganização dos costumes amorosos e sexuais. Nesta distopia escrita em 1923 pelo russo Ieveguêni Zamiátin, o amor é uma proibição e a intimidade, no que diz respeito ao desnudamento no convívio, é uma transgressão. É uma visão assustadora sobre a radicalização da igualdade, levada às últimas consequências com números em vez de nomes próprios, uniformes e total ausência de singularidade dos habitantes do Estado Único. Pensando em tempos atuais, em uma certa orientação social para que “sejamos iguais para estarmos juntos”, este livro se torna um incômodo presentificado. A Aleph publicou uma bela edição traduzida diretamente do russo por Gabriela Soares.

 

4. Amor, metáfora eterna, de Claudio César Montoto

As definições, vivências e idealizações do amor ao longo da História mostram um assunto universal em seu desejo e radicalmente particular em seu sentido. Se hoje vivemos a urgência do “mais amor, por favor”, houve um tempo em que a balança do casamento não admitia ser descompensada pelo amor — vide os casamentos arranjados, nos quais o amor não entrava em pauta. Baseado no diálogo entre a pesquisa histórica e as visões contemporâneas, este rico panorama feito pelo psicanalista aborda também as novas inscrições do ódio, da intimidade e do ciúme. Publicado pela Bluecom em 2012.

 

5. Elliott Smith, de Autumn de Wilde

A fotografia, como poucos, é capaz de denunciar a intimidade pela sua ausência. Deixar-se fotografar pode ser um ato tão protocolar quanto desnudante, mas é nesta última premissa que se apoiam os registros que a fotógrafa Autumn de Wilde fez do músico norte-americano Elliott Smith ao longo de sua carreira e da amizade dos dois. Este é um livro de exaltação às relações construídas pela intimidade. Elliott se deixou revelar por Autumn e suportou o atravessamento do olhar sem senti-lo como invasão — um grande feito para ele, que ao longo da vida enfrentou batalhas contra a depressão e o abuso de álcool e drogas. Elliott permitiu, por pretextos artísticos, a própria vulnerabilidade. É uma sensível memória póstuma — Elliott morreu em 2003, e a causa, ainda inconclusiva, é atribuída ao suicídio — encapada em um belíssimo projeto gráfico. Publicado em 2007 pela Chronicle Books (não há edição brasileira).

 

6. Amor, de novo, de Doris Lessing

A relação entre desejo e tempo nada tem a ver com jovialidade. Tem a ver com a estranha constatação da falta de algo que não se sabe o que é, mas que se identifica uma vez que é experimentado. Aqui acompanhamos a jornada de Sarah Durham pelo apaixonamento inesperado aos 65 anos e seu reconhecimento não somente dos sabores, tremores e coloridos da vida, mas principalmente de seus “eus esquecidos”, que agora emergem trazendo notícias incômodas e acumuladas. É um percurso humano, então traz consigo as rachaduras da realidade, despreocupadas em tapar as dores, imprevisibilidades e intimidades do amor. Publicado no Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de José Rubens Siqueira.

 

7. Laços, de Domenico Starnone

Há separações que mais parecem um relacionamento, costumava dizer um professor. E há manutenções amorosas que não conseguem esconder as rupturas abafadas no passado. Entre laços e estilhaços, este romance italiano nos aproxima do convívio familiar e dos mal-estares presentes nas relações, às vezes explicitados pela rotina, e muitas vezes escancarados no desejo de mudança. Aqui no Brasil foi traduzido por Maurício Santana Dias e publicado pela Todavia.

 

8. A individualidade numa época de incertezas, de Zygmunt Bauman e Rein Raud

Pensar a intimidade é também delimitar lugares e existências no mundo, uma vez que não há intimidade sem o reconhecimento de que um é diferente do outro. E as posições do ser humano no mundo já não são tão firmes ou imutáveis quanto se pensava à época em que o homem passou a ocupar o centro do pensamento. É sobre isso que se debruçam o sociólogo polonês Zygmunt Bauman e o pensador estoniano Rein Raud neste interessante diálogo. Publicado no Brasil pela Zahar e traduzido por Carlos Alberto Medeiros.

 

9. O gosto pela vida em comum, de Claude Habib

Conversando com uma amiga sobre relacionamentos, a filósofa, historiadora e especialista em literatura francesa Claude deu uma resposta evasiva a uma pergunta e ficou cismada com a insuficiência do que disse. Decidiu, então, escrever este livro, centrado no tédio, na quietude e na simplicidade como alicerces da vida a dois. Claude de fato sustenta sua argumentação, trazendo a vida conjugal para o plano em que ela realmente opera — o plano da convivência, da realidade e da alteridade — , em vez de deixá-lo fragilmente suspenso na idealização de dias extraordinários e naquela alergia à rotina que o romantismo tanto adora propagar. Publicado no Brasil pela Objetiva, com tradução de Véra Lucia dos Reis.

 

10. Amar a si mesmo e amar o outro, organizado por Joel Birman, Leopoldo Fulgencio, Daniel Kupermann e Eduardo Leal Cunha

Falar sobre intimidade implica mergulhar na elasticidade e nos contornos (quando existentes) do narcisismo e nas manifestações da sexualidade. Tais temas têm aparecido com urgência na clínica, trazidos muitas vezes com desespero e com uma crescente sensação de desajuste frente à cobrança contemporânea de satisfação, felicidade e sucesso. Sensível às aflições que muitas vezes não têm espaço para circular no dia a dia, a Psicanálise contemporânea está constantemente examinando estas questões. Esta coletânea de textos é resultado das pesquisas e discussões realizadas pelo grupo de trabalho Psicanálise, Subjetivação e Cultura Contemporânea, da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (Anpepp), e publicada em 2016 pela Zagodoni Editora.

 

Gabriela Ventura

1. O livro do travesseiro, de Sei Shônagon

Sei Shônagon era dama de companhia da principal esposa de um imperador japonês na virada do século 5 para o 6. O livro do travesseiro (Editora 34) é a reunião de cerca de trezentos textos no qual a autora anota detalhes da vida palaciana. Dos festivais religiosos aos códigos de conduta, passando pelo gato do imperador e por um sem número de listas inusitadas, a autora nos guia pelo cotidiano e intimidade dos poderosos em pleno Japão feudal.

 

2. A mulher trêmula ou Uma história dos meus nervos, de Siri Sustvedt

Em um misto de ensaio literário, investigação acadêmica e relato pessoal, Siri Hustvedt revisita a própria história médica e seu interesse de décadas sobre o funcionamento do cérebro e da mente. Vários saberes são costurados em um texto de fôlego: literatura, neurociência, psiquiatria, psicologia, psicanálise e filosofia são as ferramentas que Hustvedt usa com habilidade para discutir do que somos feitos — como às vezes funcionamos mal – e o que é isso que chamamos com tanta segurança de “eu”. Publicado no Brasil pela Companhia das Letras.

 

3. Nossas noites, de Kent Haruf

O romance conta a história de Addie e Louis, septuagenários vizinhos (e viúvos) numa cidadezinha pequena, que nunca foram exatamente próximos. Pelo menos não até que Addie surpreende Louis com a proposta de que ele passe algumas noites na casa dela, para que durmam juntos. Ela se sente terrivelmente solitária e, imaginando que ele talvez sinta o mesmo, propõe esse acordo inusitado. O que segue é uma história sobre solidão, amizade e a descoberta do amor no fim da vida. Mas também é uma história de luto, de erros do passado que nunca deixam de nos assombrar e de conflitos geracionais às avessas: uma cidade pequena com propensão para alimentar fofocas e filhos moralistas, preocupados com o “relacionamento escandaloso” de um casal na terceira idade. Publicado no Brasil pela Companhia das Letras.

 

4. Cidade aberta, de Teju Cole

Julius é alemão por parte de mãe, nigeriano por parte de pai. Cresceu em Lagos, foi para os Estados Unidos cursar medicina e agora, já na casa dos 30, está no final de sua residência em psiquiatria num hospital em Nova Iorque. Ele adquiriu o gosto por caminhar, sem rumo. Presente, passado e se misturam enquanto ele caminha por Nova Iorque e Bruxelas. Lagos e a mitologia iorubá estão vivas na memória e nos caminhos. Mas não só isso: há também reflexões sobre economia, geopolítica, pintura, cinema, gênero, raça. Julius é um homem culto e curioso, e acompanhar seu raciocínio rápido e suas reflexões a respeito do mundo é um prazer, assim como todos os outros que passam por ele; do intelectualismo calmo do professor Saito à virulência incendiária de Farouq. Publicado no Brasil pela Companhia das Letras.
A expressão “cidade aberta” é usada em épocas de guerra para cidades que abrem mão de seus governos, e permitem a conquista sem luta, a fim de preservar tanto a infraestrutura quanto a sobrevivência da população. É preciso ter em mente as implicações do termo enquanto acompanhamos Julius. Quem são as pessoas que marcham pelas cidades? Julius é irritantemente humano (inteligente, atormentado, vaidoso, mesquinho, engraçado). Adorável e terrível. Médico e monstro, a metáfora esgarçada aqui serve perfeitamente. Tudo e nada acontece em Cidade Aberta. É um romance de deriva espacial e intelectual, mas também é uma grande reflexão sobre a solidão do sujeito diante do coletivo e sobre o nosso potencial para o bem e para o mal.

 

5. Argonautas, de Maggie Nelson

A autora é escritora, poeta e professora universitária e, nesse livro, conta a história de seu relacionamento com o artista plástico e cineasta Harry Dodge — na época em que se conheceram uma pessoa genderfluid, e, atualmente um homem trans. Gênero, queerness e maternidade caminham lado a lado com conversas sobre arte, política, crítica e teorias diversas. É uma jornada em que a fisicalidade (na mesma época em que Maggie estava grávida Harry começou a terapia hormonal) importa tanto quanto as trajetórias intelectuais e criativas do casal. Maggie Nelson não tem medo de chamar para a conversa autores e referências diversas, sem jamais condescender em um estilo empolado: o parágrafo de abertura do livro fala, afinal, sobre sexo anal & Samuel Beckett. Publicado no Brasil pela editora Autêntica.

 

6. Aqui, de Richard McGuire

Uma história sobre as sucessivas transformações de um espaço. Contado de forma não cronológica (em que os tempos muitas vezes se sobrepõem) o foco permanece fixo enquanto a paisagem e os atores (bem como as eras históricas e geológicas) mudam. Se Aqui fosse um poema, seria o Ozymandias do Shelley. Os séculos passam, histórias de amor e dor e perda e conquistas e traições se sucedem (isso sem falar da paisagem e das mudanças do próprio planeta) e no final nada tem lembrança de nada, tudo vira pó. Se Aqui fosse uma obra em prosa, poderia ser um excerto de reflexão do Carl Sagan. Porque no meio da imensidão as pessoas se encontram e se conectam e experimentam e pensam o Cosmos, e isso já é milagre suficiente. Aqui é um quadrinho. Experimental e diabolicamente inteligente. Formalmente interessante, e com um conteúdo emotivo sem nunca ser piegas. Publicado no Brasil pela Companhia das Letras.

 

7. O ano do pensamento mágico, de Joan Didion

O ano do pensamento mágico é uma tentativa de organização do que provavelmente é inorganizável: o tempo da tragédia é difuso, afinal. Joan Didion foi casada por mais de 30 anos e, de repente, o marido morreu, vítima de um infarto fulminante. Para além disso, sua filha estava internada, em condições graves (ela viria a falecer meses depois). Daí os flashbacks, os saltos temporais, a luta para coordenar as memórias, a necessidade repetida de estabelecer cronologias. Com clareza e erudição, a autora fala sobre como o tempo do luto não é linear, mas chega em ondas. Ou sobre a necessidade de uma ilusão de controle Ou ainda sobre reconhecimento (e o apoio, mesmo que passivo?) que encontramos em quem vive experiências semelhantes. É um ensaio excelente. É a história de quem fica do jeito que é possível de ser contada. Editora Nova Fronteira.

 

8. A convidada de casamento, de Carson McCullers

Frankie tem 12 anos e se sente desconectada de tudo. Através dos olhos dessa personagem, experimentamos um verão que parece interminável. No entanto, sabemos melhor: o que parece pura estagnação na percepção de Frankie é, na verdade, energia potencial acumulada; a montanha russa acabou sua longa subida inicial e há aquela suspensão do tempo na qual se pode avistar todo o parque do alto. A energia potencial vai virar energia cinética em breve, mas ela ainda não sabe. É um romance sobre as dores do crescimento no sul dos EUA, nos anos 60. Uma menina branca de classe média que não é exatamente notada pela família — o pai é um viúvo recluso, o irmão, às vésperas do casamento, não tem tempo para ela — cresce na cozinha sob os cuidados de Berenice, a cozinheira negra e a companhia de John Henry West, um primo de apenas seis anos. Como toda a narrativa está centrada na percepção de Frankie temos o entendimento limitado sobre os acontecimentos que a cercam. Sejam as políticas segregacionistas do sul que fazem Berenice sentar na parte de trás do ônibus (ou os acontecimentos que levaram a cozinheira a perder um olho), seja a consciência do estado de abandono familiar que John Henry se encontra. Quando Frankie coloca na cabeça a fantasia de que o irmão e a noiva a levarão com eles para uma nova vida, sabemos muito bem que o precipício se aproxima. Publicado no Brasil pela Nova Fronteira.

 

9. Prisioneiras, de Drauzio Varella

Eu gosto muito do Dráuzio Varella. Acho que a divulgação médica é tão importante quanto a divulgação científica — isso sem contar na experiência em primeira mão de alguém que está envolvido há tantos anos com a população carcerária do país, cujas histórias costumam ser invisíveis, condicionadas a estereótipos na mídia e na sociedade. Quando estamos falando de mulheres, então, a invisibilidade é ainda maior. A solidão da mulher, os filhos, o abandono social, as hierarquias específicas, a liberdade sexual experimentada dentro dos muros do confinamento. E a voz de Dráuzio é didática sem ser condescendente, compassiva sem perder a ética, compreensiva diante dos problemas estruturais que levaram a maior parte das detentas à penitenciária. Um livro importante para pensar em pobreza estrutural, a ineficiência da guerra às drogas e questões abrangentes de direitos humanos. Publicado pela Companhia das Letras.

 

10. Fomeuma autobiografia do (meu) corpo, de Roxanne Gay

Roxane Gay entrou no meu radar por causa do título de um de seus ensaios: Bad Feminist. Quando li a antologia de textos não demorei a entender que estava diante de uma escritora que se debruça com vontade sobre temas altamente politizados como gênero, raça, violência sexual, mas que também é igualmente interessante em suas análises de cultura pop. Talvez seja por isso que Fome tenha sido uma experiência de leitura tão dolorosa. Porque as memórias da autora sobre o abuso sofrido na infância e a subsequente compulsão por comida são, em si, muito difíceis de ler. Fosse a história de qualquer mulher, a empatia já estaria nas alturas. Mas ver um livro tão sofrido saído da pena de uma mulher que todos sabem que consegue ser hilária, apaixonada, profundamente intelectual, compassiva e incrível, de uma forma geral, é revoltante. E é quase um milagre, não a capacidade que certas pessoas têm de superar episódios traumáticos, mas a de viver com a dor, e ver a dor se espelhar no corpo, todos os dias. Publicado no Brasil pela Globo Livros.

 

Janine Bitencourt

  1. Manual da faxineira, de Lucia Berlin

Esse livro, baseado na vida da autora, é daqueles para ler devagar e descansar ao final do soco no estômago que cada um de seus contos nos traz. Que vida intensa ela teve e que maneira incrível de narrar seus episódios. Publicado no Brasil pela Companhia das Letras.

 

2. Romancista como vocação, de Haruki Murakami

Gosto do tom de confidência que Murakami assume nesse livro para contar alguns episódios de sua carreira de 35 anos como romancista, do paralelo que ele faz entre a preparação física e a mental e da devoção aos seus leitores fiéis. Publicado no Brasil pela Companhia das Letras.

 

3. No seu pescoço, de Chimamanda Ngozi

Descobri esse livro de contos há 6 anos, antes da autora ficar famosa pelo mundo por seu feminismo. Nele, há alguns contos ambientados na África, onde a autora passou a infância, e em que ela consegue fazer o estranho nos parecer familiar. Publicado no Brasil pela Companhia das Letras.

 

4. As avós, de Doris Lessing

Devorei esse livro em poucas horas, graças à prosa hipnotizante da autora. A história capta a intimidade e os segredos dos personagens ao redor de duas amigas de infância em várias fases de suas vidas e transcende as convenções. Publicado no Brasil pela Companhia das Letras. 

 

5. Outros jeitos de usar a boca, de Rupi Kaur

Quanta dor e beleza cabem nesse livro. Os desenhos também ajudam a nos trazer para o universo íntimo e delicado da autora, uma sobrevivente. O curioso é que esse livro foi publicado de forma independente antes de ganhar o mundo. Publicado no Brasil pela Editora Planeta.

 

6. Vésperas, de Adriana Lunardi

Livro brilhante de contos em que a autora imagina os momentos íntimos de nove autoras antes da morte. São elas: Virginia Woolf, Dorothy Parker, Ana Cristina César, Colette, Clarice Lispector, Katherine Mansfield, Sylvia Plath, Zelda Fitzgerald e Júlia da Costa. Publicado pela Editora Rocco.

 

7. Desumanização, de Valter Hugo Mae

Outro livro triste e lindo, com o poder que o autor tem de redimir a tristeza através da beleza de sua escrita. A história acontece na Islândia e consegue nos transportar para lá, para seu clima, paisagens e costumes. Publicado no Brasil pela Cosac Nayfi.

 

8. O passado é um lugar estrangeiro, de Suelen Carvalho

Livro de estreia de uma amiga paraense sobre uma personagem em luto, que esconde um segredo e tenta reelaborar seu passado como forma de seguir em frente. Consegue ser profundo, sem deixar de ser fluído e extremamente visual. Publicado pela Editora Patuá.

 

9. Rakushisha, de Adriana Lisboa

Um romance curto e delicado sobre uma viagem ao Japão, meio diário, meio reflexão. Existe uma palavra japonesa que é Ma e significa vazio (ou não movimento) e que a autora parece explorar ao máximo no livro. Publicado pela Alfaguara.

 

10. A teus pés, de Ana Cristina Cesar

Trouxe da Flip de 2016 esse livro, onde a autora foi homenageada e me encantei com a força de seus poemas. Mesmo escrito em 1982, Ana tem uma voz contemporânea, cheia de referências geográficas e literárias. Publicado pela Companhia das Letras.

 

Juliana Leuenroth e Michelle Henriques

  1. A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath

Sempre recomendamos Sylvia Plath com seu único romance A Redoma de Vidro (Biblioteca Azul, selo da Globo Livros). Com a nova edição de seus diários, o nome de Plath voltou a ser discutido, o que é ótimo, visto que por anos ela foi deixada de lado aqui no Brasil, com livros esgotados. A Redoma de Vidro é um livro que trata sobre ser mulher, viver numa sociedade que espera coisas absurdas de nós, tentar se encaixar nesses padrões e ainda lidar com a depressão. Há o tom confessional da obra, que nos aproxima ainda mais da personagem, ficando difícil também não pensar na própria Sylvia Plath.

 

2. Ana de Amsterdam, de Ana Cássia Rebelo

A portuguesa Ana Cássia Rebelo começou um blog descompromissadamente e nele escrevia sobre sua própria vida, sobre música, maternidade e demais assuntos. Foi “descoberta” e alguns de seus textos foram reunidos em um livro publicado no Brasil em 2016 pelo selo Biblioteca Azul (Globo Livros). No ano seguinte, esteve em São Paulo para alguns debates e disse ao público que não se considerava escritora. Sendo verdade ou não, Ana de Amsterdam é repleto de textos crus e diretos, repletos de sentimentos conflituosos, ainda mais quando Rebelo fala da maternidade, sem idealizações.

 

3. Parafusos, de Ellen Forney

Parafusos é mais uma daquelas HQs autobiográficas em que tanto o texto quanto o desenho são sensacionais. A autora, diagnosticada como bipolar, narra diversos momentos da sua vida entre o diagnóstico, os tratamentos que deram errado e a sua carreira enquanto artista. Há o medo constante de que a medicação tire a sua criatividade, e também diversas reflexões acerca de outros artistas que sofreram com adoecimento psíquico. Sem a criatividade, teriam eles sobrevivido? Publicado pela Martins Fontes.

4. O jornalista e o assassino, de Janet Malcolm

O médico Jeffrey MacDonald, condenado por matar sua esposa e duas filhas, aceita ser biografado por um jornalista, Joe McGinniss, e dá total acesso para que entrevistas presenciais sejam feitas, além de uma intensa troca de carta entre os dois. No entanto, após a publicação do livro, MacDonald entra com um processo contra o jornalista e o acusa de calúnia e fraude. Mais do que um livro que discute a liberdade de imprensa, a autora Janet Malcolm coloca uma série de questionamentos sobre os limites éticos do jornalismo. É possível existir intimidade entre uma fonte e um jornalista? Até que ponto o envolvimento emocional e a confiança entre as duas partes deve acontecer? Existe limite entre a confissão da fonte e as declarações em “off”? Um livro desconfortável, mas importante. Publicado pela Companhia das Letras.

 

5. Doença como metáfora/AIDS e suas metáforas, de Susan Sontag

Susan Sontag escreveu sobre diversos assuntos, inclusive sobre o câncer que enfrentou na década de 1970. Em Doença como metáfora, Sontag explora as relações entre a doença em si e fatores psicológicos, como a nossa sociedade os relaciona. É bastante interessante lê-la escrevendo sobre algo tão íntimo como uma doença e como ela combate a ideia de que o câncer seja um castigo por algo “ruim”. Publicado no Brasil pela Companhia de Bolso.

 

6. Memórias de uma beatnik, de Diane di Prima

Quando se fala de Geração Beat, três são os nomes que costumam vir à mente: Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William S. Burroughs. Onde estavam as mulheres da época? Nos livros dos três autores citados, elas eram meras coadjuvantes, companheiras de autores. Mas havia muitas mulheres escrevendo nessa época, como é o caso de Diane di Prima. Ela possui uma vasta obra poética, e aqui no Brasil temos publicado o seu Memórias de uma beatnik (Editora Veneta). Como diz o título, di Prima conta como era sua vida em meio à efervescência do jazz, da contracultura, da liberdade sexual. A autora foi aconselhada pela editora a colocar mais cenas de sexo para que o livro vendesse melhor, em uma demanda machista. Essas cenas são absurdas e desconexas, destoando completamente do tom do livro. Mas ainda assim, é importante para relembrar que mulheres também faziam parte do movimento, que escreviam assim como os companheiros mais conhecidos. 

 

7. As avós, de Doris Lessing

Amigas desde a infância, Roz e Lili, são vizinhas e vivem numa pacata cidade litorânea. As duas criam seus filhos (dois meninos) juntas, numa relação quase de irmandade. Mas quando os garotos crescem, a relação torna-se ainda mais íntima, uma se envolvendo com o filho da outra. Nessa pequena novela, Doris Lessing traz uma série de temas tabus de uma forma natural e despretensiosa. Publicado no Brasil pela Companhia das Letras.

 

8. Uma morte muito suave, de Simone de Beauvoir

Simone de Beauvoir é autora de um dos livros mais importantes do feminismo, O Segundo Sexo. Aqui, de forma mais sensível e pessoal, Beauvoir narra os últimos dias de sua mãe, dos cuidados que ela e sua irmã precisavam prestar. É um livro doloroso e sincero, mas extremamente bonito. Publicado no Brasil pela Editora Nova Fronteira.

 

9. Meu nome é Lucy Barton, de Elizabeth Strout

Lucy, uma escritora que vive em Nova York, está internada há algumas semanas com uma doença misteriosa. Seu marido pede, então, ajuda da mãe de Lucy para fazer companhia a ela no hospital, enquanto ele se ocupa dos afazeres domésticos. A história se passa nos cinco dias em que Lucy e sua mãe estão confinadas num quarto de hospital. A partir dessa intimidade forçada, mãe e filha têm que conviver enquanto tentam acertar as contas com o passado. E as mágoas são muitas… Publicado pela Companhia das Letras.

 

10. Quarto de Despejo, de Maria Carolina de Jesus

Maria Carolina de Jesus escrevia da forma que podia. Semi alfabetizada e sem recursos, fazia notas nesse diário sobre seu cotidiano como catadora de lixo e sobre a tentativa de criar seus filhos com dignidade na favela do Canindé, ao mesmo tempo em que denunciava o racismo, machismo e desigualdade social que vivenciava. Seu texto é repleto de dor e de uma poesia visceral. Publicado pela Editora Ática.


Ilustração de Celeza Ramalho

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