Fragmentos de uma delicada pulsação

 

Um espanto, um fulgor, um sabor, um eflúvio, um silêncio, um rubor, uma síncope, um murmúrio, um estremecimento, um milagre: a experiência íntima diz de um acontecimento que atravessa, em princípio, o corpo falante, subvertendo-o. Um estímulo brota em contato com o exterior e ricocheteia no sujeito, em um lugar sem origem escrita, sem nenhum destino dado à priori, desvelando um outro corpo que aquele da identidade. Esta vibração é o prenúncio do que desejo marcar no fundamento do íntimo.

Pode viver esta experiência o corpo dividido, crivado pela palavra, que suporta e consente em si algum espaço de estranhamento, de opacidade, de perturbação de suas fronteiras. Tal experiência é, antes de mais nada, um dos traumas que funda —  e não cessa de refundar —  o sujeito como estrangeiro a si mesmo. Íntimo e estrangeiro caminham juntos.

Junto a isso, dizer de um corpo passível de tal efeito nos convida a um alargamento ou mesmo a uma revisão da especificidade de corpo que se deseja apontar neste processo. Trata-se de um corpo que precisa ser seduzido, falado, escutado, convocado, talhado: experiência indissociável da dialética com o outro.

Diante do significante intimidade, uma série de afirmações me vieram à mente, como um relâmpago, e procurei quase não lhes fazer oposição. Reconheço nelas pedaços da minha história, meus enigmas, minhas buscas. A eles, busquei acrescentar complementos que dessem um contorno inteligível à reflexão.

O objetivo que me estabeleço aqui se dá em uma espécie de dupla traição: apresentar um texto que mostre algo da experiência íntima ao mesmo tempo em que procura torná-la inteligível. Traição, pois só é possível mostrar algo de íntimo acolhendo aquilo que resiste a se fazer inteligível. É preciso, pois, consentir em um descontrole neste gesto de escrita.

Assim, convém deixar claro o lugar desde onde escrevo estas linhas: são produtos de uma memória insensata, afetiva, corporal. Em última instância, hipóteses íntimas, porque também me escapam.

Escrevo porque sou hipnotizável. E porque sou des-hipnotizável. Há uma dimensão minha que ultrapassa meu domínio, sensível a palavras, sons, imagens que chegam de alhures e me fazem enigma. São estímulos sobre os quais não sei prever seu impacto à priori, só sei que me concernem depois que me deslocam. Escrevo ao testemunhar continuamente em mim uma potência insensata que me impele a efeitos de fascinação e des-fascinação. Escrevo porque as palavras são como mãos, dedos e unhas que percorrem e bordejam a superfície de meu corpo alternando texturas entre incrivelmente sutis e imensamente violentas.

Deixo surgir a tessitura dessas marcas que carrego do encontro com autores e figuras que me ruborizam, fazem vacilar minha linguagem e meus sentidos, que me estremecem, fazem claudicar e me revelam como um outro para mim mesmo. Embora as palavras que me habitam tenham inicialmente vindo de muitos, o fato de serem estes —  os que trarei neste texto —  aqueles cujas palavras retive e que se enlaçam segundo algum fio invisível, revela a incidência do meu íntimo. Minha responsabilidade sobre este texto é consentir que estes impulsos sejam transmitidos e ofertá-los a algum tipo de ressonância imprevista com quem me lê.

Mas de onde vieram estas afirmações? Que saber é este que se faz afirmar em mim? Que legitimidade conferir a esta irrupção? Desinteresso-me das respostas, embora aprecie o mistério e a sensação de extravio que me produzem. O leitor, faço-o ciente de meu gesto e cúmplice no risco deste contágio que eu faço passar adiante: eu disse sim a isso.

Uma nota: há uma multiplicidade de leituras aplicadas à noção de intimidade, seja em uma dimensão mais relacional (como um espaço pessoal oferecido àqueles em quem confiamos) ou mais individual. Aqui, me desvio da abordagem mais interpessoal, tal como tratada por Anthony Giddens (A transformação da intimidade, 1993) ou, recentemente, por Christian Dunker (A reinvenção da intimidade, 2017). Também me afasto da leitura de Richard Sennet (O Declínio do Homem Público — As Tiranias da Intimidade, 1976), que propõe uma crítica ao que chama de exacerbação intimista às custas de uma suposta desvalorização da esfera pública. Quaisquer que sejam, trata-se de uma escolha política, estética e histórica. São escolhas possíveis, e aqui experimento minha própria via: trata-se também de uma escolha poética.

 

Íntima é a revisitação das ressonâncias do outro em minha origem

Superlativo do latim intus (“dentro de”), íntimo já denota aquilo que estaria mais no interior de um sujeito. A partir do referente Deus, de Santo Agostinho: “Deus me é mais íntimo que meu íntimo, mais íntimo que eu a mim mesmo” (Confissões, 1996), restaria saber, entretanto, onde situar este cerne decisivo. É desde onde se contorna este referente que qualquer hipótese pode se desdobrar.

De minha parte, reabro o lugar que o autor atribui a Deus, mas a potência de sua ideia merece ser preservada: o outro está em mim, ele me habita: é a partir dos nomes vindos dele que posso forjar os meus. O íntimo é feito da falha de todo nome em dizer tudo a nosso respeito.

Distante vários séculos de Santo Agostinho, mas inteirado de suas formulações, Lacan dirá, por outras veredas, em 1954, que “o inconsciente é o discurso do Outro” (Escritos, 1966). Inconsciente e Deus: dois nomes para dizer deste ponto outro em mim, minha parte mais interior e mais alheia. Isto permite recuperar o neologismo que o mesmo Lacan ofereceu a esta condição: “Esse lugar central, essa exterioridade íntima, essa extimidade…” (Seminário VII, 1960).

Digo que o íntimo corresponde menos à presença do inconsciente (ou de Deus) em mim que a ressonância decorrente deste exílio produzido. O que o constitui é menos sua condição de estrutura e mais seu efeito de descontinuidade. Com isto, enfatizo que não se trata de uma experiência natural, ela precisa ser construída, escutada, recolhida continuamente. Dito de outra forma: íntimo é este instante de repentina abertura de um espaço sem significação prévia, em que o sujeito experimenta, com seu corpo, a falha nos sentidos de sua língua, a vacilação de sua consistência, o furo de todo nome, o novo ainda por se escrever.

Em um ensaio publicado nos anos 50, Blanchot —  um dos autores que mais me evoca minha própria intimidade —  dizia desse apelo do íntimo em sua fricção com o mundo: “A imagem (…) parece entregar-nos profundamente a nós mesmos. Íntima é a imagem, porque ela faz de nossa intimidade uma potência exterior a que nos submetemos passivamente: fora de nós, no recuo do mundo que ela provoca, arrasta-se, desgarrada e brilhante, a profundidade de nossas paixões” (Les deux versions de l’imaginaire, 1951, grifo meu).

 

A intimidade é o avesso da identidade

É a partir desta dimensão alienante que a psicanálise tece suas hipóteses sobre a constituição do sujeito, sua entrada na linguagem e na cultura, sua imersão no campo do Outro, onde se submete para se recortar e vestir —  segundo critérios singulares e imprevistos —  os sentidos com os quais poderá habitar o mundo e responder ao conjunto de mensagens que recebeu. Somos o efeito da leitura que pudemos fazer destes fragmentos de desejos, enigmas, paixões de outros, que nos banharam e marcaram a superfície de nosso corpo, nossos orifícios, por meio de nomes, sons, toques, calores, odores, silêncios, não-ditos e que fizeram vibrar nossa carne, se inscrevendo como traços e furos em nosso ser.

Nossas primeiras respostas a estes eventos é o que chamo de identidade: versão sempre ficcional que procura conferir unidade e sustentação a um lugar onde o sujeito possa se reconhecer como Eu. Onde a identidade procura integrar e acomodar um conjunto de vivências descontínuas, dando-lhes corpo, sentido e segurança junto ao Outro, a experiência íntima apresenta-se como perturbação a este projeto, destituindo a primazia egóica.

A intimidade insinua este ponto de ex-sistência do sujeito: ele existe fora de si, para além da razão, do sentido, da identificação com os outros. Como responde cada um a isso de próprio? É isto que nomeio como intimidade.

No entanto, para haver experiência possível de intimidade, é preciso antes haver um corpo iludido em sua ficção. Embora necessariamente ligada ao acesso ao silêncio e à separação, a intimidade também é tributária de experiências de intrusão e atrito com o outro e suas mensagens. Ela surge em uma báscula entre uma estabilidade que se pretende harmoniosa e acontecimentos que façam vacilar este arranjo.

Se estou apontando para a dimensão de fissura que se situa no cerne desta experiência, é porque ela depende de um lugar suficientemente apartado da presença massiva e intrusiva do outro. É nas falhas, intermitências, nos trânsitos entre a presença e a ausência do outro, que posso ter acesso a isto que somente se revela de forma incidental e clandestina. Fissura e fronteira. Dentro e fora. Consistência e inconsistência. Distância e intrusão. Faço a intimidade derivar de um ponto insituável e errante.

 

A intimidade ameaça a ordem social

A intimidade pode ser tomada tanto como experiência social como associal. Por um lado, porque pode possibilitar laços com o outro, na medida em que se inclua e cultive este espaço de diferença, de alternância e opacidade e, principalmente, de erotismo.

No entanto, isto se aplica pouco ao projeto social contemporâneo. Que espaço pode haver para tal perspectiva dentro de uma cultura que opera na oferta ininterrupta e exorbitante de estímulos, no combate à pluralidade da língua, na exibição e espetacularização da esfera privada, na eliminação do enigma diante do desencontro? Que traço de intimidade pode ser escutado em quem já não suporta transitar por espaços desprovidos de garantias, ou que não aguenta coexistir com alguém sem um apelo violento a um infinito esclarecimento e alinhamento de línguas? Quem afinal pode habitar este abandono do grupo para escutar tal dimensão do dissenso em si?

É o que diz Nathali Sarthou-Lajus (2009): “O íntimo não se encaixa na lógica da propriedade ou do domínio. Ele é a expressão de um laço no qual o sujeito corre o risco da despossessão, se deixando ser visto a partir de sua vulnerabilidade, e não somente em termos de seu desempenho”. Dizer disto que não se partilha, que nos destitui, perturba o funcionamento social.

Atribuo um caráter quase solene à experiência íntima, na medida em que ela se mostra ameaçada massivamente pelos assédios políticos e culturais. Sob este prisma, trata-se de dimensão subversiva: defendê-la é sustentar um furo nas pretensões totalizantes do discurso coletivo, fazendo constar uma dimensão de retirada da esfera pública (contra Sennett) e dos juízos moralizantes. É apontar para a existência de uma vida secreta, como Pascal Quignard o faz de forma exuberante em seu livro de mesmo nome (Vie Secrète, 1998). Secreta é a vida que se desobriga de fazer-se alinhada inteiramente ao grupo; é um campo de dissidência, de deserção, onde uma palavra própria pode surgir como acontecimento que enlace a dimensão de solidão que nos constitui como falantes.

Passa pelas minhas mãos um artigo tão breve quanto potente de Édouard Glissant, falecido em 2001, sustentando um elogio à noção de opacidade. O poeta advoga em um campo de debate político para “não apenas consentir no direito à diferença, mas, antes disso, no direito à opacidade, que não é o fechamento em uma autarquia impenetrável, mas a subsistência em uma singularidade não redutível” (Poétique de la Relation, 1990). Retive sua marca: uma singularidade irredutível, isto é, que não se apaga para espelhar-se com o outro.

Nos anos 40, Bataille procurou levar às últimas consequências sua busca por esta experiência em um livro tão denso quanto fascinante: “Chamo experiência uma viagem ao extremo do possível do homem. Cada qual pode não fazer essa viagem, mas, se a faz, isso supõe que foram negadas as autoridades, os valores existentes, que limitam o possível” (A experiência interior, 1943). Leio aí duas ideias que se encontram em meu texto: a viagem ao íntimo (uma escolha) e o descolamento da autoridade do coletivo.

 

Quatro aforismos silenciosos e uma nota abismada

  • O maior inimigo do íntimo é a ciência.
  • A selfie é a busca violenta e malograda de metamorfosear à força o íntimo em visível.
  • A música convoca o íntimo.
  • O íntimo passa pelo feminino.
  • A mulher que mais amei lia Bataille, detestava ser fotografada, crivou-me de música e me impeliu ao abismo de minha própria intimidade, isto é, à vertigem do feminino. Esta mulher me abismou.

 

O amor: ser vizinho ao segredo do outro

Se a intimidade é a afirmação da potência justamente daquilo que é invisível, que não se deixa objetivar, então a experiência amorosa corresponde não ao compartilhamento visível dos segredos, mas à partilha do não-redutível de cada um dos parceiros, que podem escolher sustentar esta oferta perturbadora.

Consentir em ser vizinho do mistério do outro, dessa estrangeiridade que habita uma parceria, talvez seja um dos nomes máximos do encontro amoroso: ponto que, embora atravessado pelo outro, guarda necessariamente uma distância intransponível. “O amor, o segredo do outro, são a mesma coisa” (Pascal Quignard, Vie Secrète).

Baudrillard defendia sua ideia de íntimo atrelando-a a uma experiência sensível, com a qual concordo inteiramente: “O íntimo não é nem um conceito, nem uma noção teórica, mas uma palavra carregada de afeto, de vivência (…), algo de doce, de poético, onde teríamos eliminado a violência da exterioridade, da objetividade, da verdade, uma partilha, uma cumplicidade na doçura” (La sphère enchantée de l’intime, 1986).

O amor é o lugar onde se pode recolher, com duração e disposição, as perturbações que revelam uma intimidade que nos concerne e ao mesmo tempo nos frustra em nossos impulsos de colonização do desconhecido. Trago uma leitura de Quignard que guardo com carinho e que diz de tal estranheza:

“O silêncio permite escutar e não ocupar o espaço que deixa nu na alma do outro. Somente o silêncio permite contemplar o outro. (…)”

No silêncio, tornando-se um estrangeiro diante de um estrangeiro, eles tornam-se íntimos. Este estado é o da estranheza íntima. No verdadeiro abraço descobre-se que o corpo fala uma língua estrangeira extraordinariamente muda (Vie Secrète, 1998)

É claro: pode-se pretender estar em uma relação amorosa justamente para evitar e erradicar qualquer dimensão íntima. O outro seria, então, aquele que me protege de minha própria intimidade (e vice-versa). Seria o perfeito derivado das relações sociais, contratuais: o outro achatado à sua função de espelho reconfortante. Seria buscar um outro não para nos alargar a experiência que podemos ter do mundo e de nós mesmos, mas para nos envelopar na redoma soporífera do mesmo. Amores tristes.

Contra isso, chamo Glissant novamente: “Posso então conceber a opacidade do outro para mim, sem que eu cobre minha opacidade a ele. Não necessito “compreendê-lo” para sentir-me solidário a ele, para construir com ele, para amar o que ele faz. Não necessito tentar tornar-me outro nem “fazê-lo” à minha imagem” (Poétique de la Relation, 1990). Não é qualquer outro, já o disse, é um outro que toca esse ponto. Para além de qualquer explicação: faz vibrar.

A intimidade é um segredo que fala em uma língua que é estrangeira: a nossa própria. Pulsa em presença intermitente. A relação amorosa é o trabalho de ouvir também a pulsação íntima do mistério do outro.

 

A escrita da intimidade

Como retratar aquilo que erra, que não se domestica, que guarda seu grão de sombra e silêncio? Como dizer algo aí e ao mesmo tempo respeitar sua especificidade? Trata-se da própria dimensão evanescente da escrita poética, da obra de arte, e que vale igualmente para o íntimo, na medida em que sua expressão puder ser objeto de gozo a quem o oferta e a quem o recebe. O íntimo está menos no objeto e mais no efeito produzido de vibração. Como diz Heloísa Caldas, trata-se de operar com essa “retirada de um objeto do senso comum para com ele formatar uma janela quando a estranheza do mundo abre abismos” (A fala e a escrita da mulher que não existe, 2013).

A escrita poética celebraria, para tomar emprestada uma expressão de Bataille, a apoteose do não-sentido, ou, mais que isso, a invenção de novos sentidos, que permitam que se goze deles. Deleuze diz que a linguagem poética é aquela que perfura buracos na linguagem, que “arrasta a língua para fora de seus sulcos costumeiros, leva-a a siderar” (Crítica e clínica, 1993). Trata-se de uma privilegiada tentativa de fazer ex-sistir este fragmento de íntimo.

No fulcro da experiência íntima, está a escuta do silêncio, do invisível que atravessa o corpo, daquilo que escapa a toda palavra e imagem, de uma origem errante, revelando-se como elemento de uma conexão invisível e sempre inédita em nós. A poesia busca operar um testemunho deste acontecimento: aludir a este pedaço oblíquo de verdade que se ilumina justamente aí onde revela seu núcleo obscuro. Tantos escritores falam tão bem neste lugar: Clarice, Kundera, Barthes, Hilda Hilst, Llansol, Manoel de Barros…

Para concluir este texto, deixo uma passagem de Duras, escritora do íntimo, que toca nesta potência que existe dividida dentro de nós: “A escrita é o desconhecido. (…) É o desconhecido de si, de sua mente, de seu corpo. Não é nem mesmo uma reflexão, escrever, é uma espécie de faculdade que se tem à margem de nosso ser, paralelamente a ele, de uma outra pessoa que surge e que avança, invisível, dotada de pensamento, de cólera, e que às vezes, por si só, corre o risco de perder a vida.” (Écrire,1993)


Laerte de Paula é psicanalista, escritor, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e membro da Rede de Atendimento do Centro de Estudos Psicanalíticos. 
Ilustração de Celeza Ramalho

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