Ao longo de 20 minutos, Alain Resnais nos guia por estruturas metálicas, porões, corredores e grandes salões que suportam e compõem a Biblioteca Nacional da França. Ali repousa o que ele chama de Toda a Memória do Mundo. A biblioteca adquire, nesse curta-metragem de 1957, formas diversas. O lugar pode ser comparado a um formigueiro por onde seus funcionários circulam em corredores estreitos em busca dos materiais solicitados por seus consulentes. É também um depósito que acumula os objetos não visíveis ao público. É ainda receptáculo, lugar de ciência e busca da felicidade, mantenedora da memória do mundo. Há, óbvio, um exagero aí. Uma apologia a um recorte de mundo ou a uma coleção específica, que jamais daria conta de ser universal, por mais esforço que empregasse (e, creiam, empregou). Mas esse exagero discursivo de Resnais serve pro meu intento: pensar a relação entre memória e colecionismo.

Suas primeiras cenas, com uma voz que diz “como tem a memória curta, os homens acumulam incontáveis ajudas à memória”, são imagens de livros e caixas espalhados por um grande espaço. A estética em preto-e-branco, com ângulos e tomadas até então pouco convencionais, não difere muito de obras do mesmo período do cineasta, como o documentário Noite e Neblina (1956) sobre os campos de concentração nazistas a partir de imagens de Auschwitz e Majdanek e a história de Hiroshima Meu Amor (1959). Apesar de apresentar uma temática e um ambiente evidentemente mais ameno do que os cenários desses dois filmes, a questão da memória aparece com força nas três obras.

A Biblioteca Nacional da França não é universal mas pode ser em Resnais uma metáfora para o Universo como foi a Biblioteca de Babel para Jorge Luis Borges. As bibliotecas aparecem no conto do escritor argentino e no filme do diretor francês como lugares a-históricos, existentes desde sempre (e talvez para sempre). Espaços que possivelmente contenham verdades essenciais sobre os indivíduos mas que exigem o trabalho não apenas racional da pesquisa e da leitura mas também do acaso, que tanto ajuda a formar a coleção quanto permite o encontro entre objeto de leitura e leitor. A destruição icônica da Biblioteca de Alexandria por um incêndio na Antiguidade é simultaneamente o fim trágico de objetos de memória e a interrupção de encontros casuais com o conhecimento acumulado.

Nascido em 1866, o historiador da arte Aby Warburg planejou o Atlas de Imagens Mnemosine, cujo nome se refere à musa grega da memória, e cujo objetivo era enxergar na História da Arte padrões e continuidades imagéticas através do tempo. Há aí um interessante rompimento com uma narrativa evolutiva das formas artísticas e da primazia da personalidade do autor sobre a obra. Warburg nos dá a possibilidade de enxergar permanências na representação, a partir da transmissão de características visuais. Em seu livro Encontros no Museu Feminista Virtual, Griselda Pollock propõe uma aproximação entre Aby Warburg e Sigmund Freud justamente pelo caminho da memória: “enquanto Warburg ordenava seu atlas pictórico para uma história psicológica da imagem, Freud rodeava-se em seu trabalho de imagens que compartilhavam este sentido de ser portadoras de memória para uma cultura amnésica”. A biblioteca apresentada por Resnais é também metáfora para processos de rememoração tão importantes para a psicanálise. Afinal, ainda que “tudo” esteja ali, apenas alguns materiais saem das sombras e são trazidos à luz (à consciência?) para leitura e interpretação de seus códigos.

Então, se Warburg tem a pretensão de olhar para a produção artística em sua totalidade, Freud cria uma coleção de objetos para ajudar o paciente a buscar na lembrança e no esquecimento a sua subjetividade. No filme de Alain Resnais, a relação entre memória do mundo e indivíduo passa pela mediação de uma instituição. Na nossa tradição cultural, arquivos e museus desempenham papel semelhante ao da biblioteca. Cada um desses lugares tem uma dinâmica própria, mas muitos de seus discursos carregam origens comuns. Muitas das coleções públicas tem raízes no século 19, momento em que diversos países se depararam com a necessidade de operacionalizar suas histórias e memórias para criar tradições e ideias de nação. A independência das colônias trouxe essas questões para a América, mas ela está presente também nos processos de unificação de Itália e Alemanha ou nos impérios coloniais britânicos e franceses. Mas em Freud a relação entre objetos, memórias e indivíduos prescindem da instituição (seja ela um museu, um arquivo ou a Biblioteca Nacional da França). Se as coleções públicas são formadas para garantir uma determinada memória de nação ou de mundo, o que intentam as coleções particulares?

O colecionismo privado é um fenômeno difícil de qualificar. Não se trata de mera acumulação de objetos e muitas vezes não é só uma maneira de investir dinheiro. O colecionador é pautado por seu senso estético, por seu capital financeiro, mas também por rituais narcísicos, por práticas sociais mas também por questões de ordem puramente particulares. Os objetos acumulados podem ser de categorias diversas (livros, obras de arte, tampas de garrafas, álbuns de figurinhas da Copa do Mundo), e participam do sistema econômico de maneira muito curiosa, porque em certa medida perdem sua função de mercado e ao mesmo tempo adquirem valor simbólico e, por vezes, monetários. Mas o colecionismo privado não está separado das coleções públicas. Seus trajetos se encontram em muitos momentos, seja em empréstimos e comodatos para exposições, ou na consagração e repercussão que museus proporcionam aos artistas interferindo no valor de suas obras. Não é incomum colecionadores privados doarem para instituições públicas suas coleções, imbuídos das mais diversas intenções.

A memória do mundo, salvaguardada em bibliotecas, arquivos e museus, é, no fundo, o acúmulo de memórias de cada objeto e de seu trajeto por esse mesmo mundo. É a memória de sua produção, mas também de sua circulação e consagração. É a memória das técnicas, dos discursos, mas também dos saques, das vendas e das doações. A Biblioteca Nacional da França explicada por Alain Resnais só pode possuir toda memória do mundo dessa maneira: menos pelo conteúdo epistemológico que acumula e muito mais pela forma como os objetos vivem ou como o ser humano lida com suas próprias lembranças. As coleções são, afinal, pedaços de memória porque são também cheias de vazios e esquecimentos.


Bárbara Carneiro é mestranda em Culturas e Identidades Brasileiras. 
Ilustração de Carolina Nazatto.

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