A primeira vez que perdi alguém próximo desenvolvi uma técnica: criava uma imagem mental de um baú e de uma estante. Do baú, pegava diversos momentos que ainda estavam bem conservados em minha memória, visitava-os, tirava a poeira, deixava a imagem mais vívida possível e, então, guardava na estante.

Independente das minhas crenças na vida após a morte, sei que, enquanto estivesse por aqui, a pessoa continuaria viva em minhas memórias. Elas são tudo o que tenho para visitar o passado. Sempre que quero, dou play nessas imagens e mergulho em minha própria realidade virtual.

Mas nem todas memórias são assim. Algumas, em vez de ir para a estante, vão para baixo do tapete. E lá ficam. Não deixam de existir, da mesma forma que alguém que passou pela porta de casa não desapareceu.

Vez ou outras essas imagens e memórias desagradáveis retornam em flashs confusos ou de formas surreais, que mais parecem um sonho. Talvez um devaneio.

É em um labirinto kafkiano de memórias que conhecemos David Haller (Dan Stevens), protagonista da série Legião. O protagonista é apresentado em um manicômio e pintado como esquizofrênico. Com um esperto e rico jogo de imagens, o espectador entra na espiral da confusão e logo enfrenta a dúvida: ele está realmente enlouquecendo ou é apenas atormentado pelos próprios superpoderes?

Sim, superpoderes. Produzida pelo canal FX, Legião é a primeira série televisiva ambientada no universo dos X-Men, inspirada em um quadrinho homônimo. Espectadores mais distraídos podem sequer se dar conta do fato. As únicas referências explícitas na primeira temporada, de oito episódios, são algumas esparsas conversas sobre mutantes. Mas, muito mais do que mais uma série de super-heróis, Legião preocupa-se em explorar a psique e os embates internos de alguém com uma mente superpoderosa.

David é um dos mutantes mais poderosos que existem, quase um Deus. Não se sabe exatamente quais são os limites de seus poderes, mas aparentemente ele pode modificar a matéria como quiser. Se precisar de mais uma referência, pense no Dr. Manhattan, de Watchmen.

Grandes poderes pedem grandes vilões. No caso, um que vive dentro da mente de David como um parasita que confunde o protagonista. Apesar de extrema, a batalha de David é parecida com a de qualquer ser humano: um grande embate para impedir que os demônios que habitam os cantos obscuros da mente venham à tona.

Os cortes marcam a alternância, em velocidade nauseante, entre o consciente e o inconsciente de David. Tudo é vertigem, tudo é confusão. Tudo é bonito e assustador. E no meio desse torpor, Legião desfila uma série de metáforas psicológicas.

O que seria um monstro que acompanha alguém a vida toda em sua mente? Por que ele se manifesta ora como Lenny, uma mulher lasciva; ora como um Benny, um homem abusador; ora como um gordo e estranho demônio de olhos amarelos; e ora como um boneco assassino retirado de um livro infantil? Seriam múltiplas identidades do personagem?

Lenny é a imagem mais recorrente. Interpretada magistralmente por Aubrey Plaza, ela lembra uma versão mais poderosa, assustadora e sexy de Marla Singer, do Clube da Luta. A figura feminina simboliza pulsões desconhecidas pelo protagonista. Seu demônio é, na maior parte do tempo, uma mulher sedutora.

Sem saber se o que é real, o espectador se sente tão perdido quanto o protagonista. Mas há algo a se agarrar: Syd Barrett. Também mutante, ela tem o poder de trocar de corpo com alguém ao tocar a pele. Ela é a alteridade. É pelos seus olhos que David se reconhece. É pelo amor que sente por ela que encontra algo pelo qual lutar.

Syd Barrett é uma personagem que não existe nos quadrinhos e ganha papel central na série. Questiona-se se ela realmente existe. Mas será que isso importa? A mensagem mais óbvia está no nome: Syd Barrett foi também o líder inicial do Pink Floyd, descrito por seus amigos como um gênio que se perdeu nas drogas, tornando-se lunático. Em Brain Damage, uma das várias músicas da banda com referências a Syd, a banda canta: “You raise the blade, you make the change / You re-arrange me ‘til I’m sane / You lock the door / And throw away the key / There’s someone in my head but it’s not me“.

Algo semelhante ao parasita na mente de David: Syd talvez seja só uma criação imaginária, talvez exista de verdade. Mas para ele não importa. Quando você tem uma mente que pode criar tudo, qual a diferença entre o que é realidade e o que é fantasia?

Memória é linguagem. E como tal, é capaz de mudar não só a percepção da realidade como a criação dela. Mais do que um baú, uma estante ou um tapete, a memória, em Legião, é a casa toda.


Kaluan Bernardo é jornalista e mestre em Comunicação e Contemporaneidade pela Faculdade Casper Líbero.

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