O meu livro preferido: eu vezes eu

 

Já estava no meio de um livro do Bruno Schulz quando um período detectou todo um sistema de ideias e de intimidades que eu pouco ou quase nada havia sentido no meu universo para fora daquela ficção. A vida caminha em direção oposta à ficção, assim como o contrário da piada não é a seriedade, mas sim a realidade, e esses momentos de contato puro com a literatura nos transportam para uma outra camada da existência, sobreposta e carregada de símbolos. A sensação é de fato muito boa, por isso tão rara.

De modo que aquele livro, página após página, por mais angustiado que me deixasse, como um Kafka, ou alguns momentos de Isaac Babel, tornava-se um dos meus preferidos. Entrou para a cabeceira; entrou, ainda mais, em uma relação íntima com os meus conceitos, experiências, expectativas. Passado e presente unidos em uma espécie de quadridimensionalidade que somente a ficção mais profunda nos cria.
Não é desde sempre, todavia, que nós, os leitores, temos essa relação com a literatura. Por muito tempo a literatura tinha outros fins, menos íntimos, algo de formação intelectual, de status, de aprendizagem da vida. Foi somente com o romantismo alemão, ou seja, ontem, que passamos a ter uma conexão afetiva com aqueles livros e com aquelas histórias, consumidas em escala comercial. Goethe foi uma dessas figuras pioneiras na história que nos botou no colo e disse: “deixe-me contar uma história para você”. Antes disso, as histórias eram contadas e impressas, é claro, mas havia um outro ideal buscado na leitura: a aprendizagem dos modos ou a ironia, via um Swift, Sterne, ou um Cervantes, entre outros.

Com o romantismo, e com a ascensão do romance como forma literária maioral, não se lia mais para apurar os espíritos, ou para nos elitizar, mas também, ou em uma subversão total do passado, para nos entreter, nos divertir, nos fazer fantasiar. É o realismo, um século depois, que vai apontar as consequências muitas vezes desastrosas desse processo, como nos romances que Emma Bovary lia, enchendo suas cabeças de ideias. Contudo, o fato é que passamos a ler com o autor bem ao nosso lado, conhecendo suas marcas no rosto. O autor deixou de ser uma figura invisível.

Foi com a ascensão do romance que ler passou a corresponder a uma experiência pessoal, subjetiva, o seu livro preferido, a sua aventura preferida, na hora de dormir. O que gerou o cânone e possibilitou o triunfo do “autor”. José de Alencar, em 1873, escreveu que “hoje em dia quando surge algum novo escritor, o aparecimento de seu primeiro trabalho é uma festa, que celebra-se na imprensa com luminárias e fogos de vistas. Rufam todos os tambores do jornalismo, e a literatura forma parada e apresenta armas ao gênio triunfante que sobe ao Panteão.”

A experiência interiorizada do leitor, e da memória, que eleva o autor, atinge seu ápice em Proust. Com a Recherche, publicada entre 1913 e 1927, o autor francês, recluso em seu apartamento situado no efervescente bulevar Haussmann, celebrava o apogeu de seu narrador, um personagem que, tal qual Proust, desejava escrever um livro a partir de suas memórias; ao mesmo tempo, contudo, a obra se debatia dentro de um vórtice antagônico diante da sociedade então ali retratada: a vida nos salões de Paris que se contrapõe à experiência individual, da leitura, da escrita, da recuperação das imagens que mais nos marcam, via literatura, no silêncio de um quarto.

A solidão propicia e delibera o romance e, quando este se volta a si mesmo, como no caso da Recherche, entramos, nós como leitores, em um circuito de alta tensão com a sociedade que demanda a nossa cara na rua, nos salões. Assim, a meu ver, a obra de sete volumes, hoje um clássico, encerra uma espécie de ciclo do indivíduo, de leitura individual, aquela que começou com o romantismo alemão, para apresentar, em contato de choque, uma nova realidade, ainda que muito incipiente: lemos para mostrar aos outros que lemos.

Quem volta a triunfar hoje não é o autor, e sim o leitor — que mostra eloquência, conhecimento, inteligência, que não é filisteu. Enquanto o autor se perde e se desespera por reconhecimento. Não importa o que lemos, se um artigo interessante ou um livro de 800 páginas, precisamos mostrar o que estamos lendo e o quanto aquilo que estamos lendo é interessante — e, no limite, o quanto somos todos interessantes (mais do que o conteúdo compartilhado). Voltamos àquele período que precede o romantismo.

Como se pudéssemos traçar, em uma linha do tempo, uma curva que se inicia em 1750, suspende-se e começa a declinar em 1913 (com Proust) e cai vertiginosamente no século 21, com a experiência que gosto de chamar de “ultracompartilhada” da leitura. Ou algo mais ou menos previsto por Marshall McLuhan há algumas décadas, do fenômeno de “we become what we behold”.

Lembro-me de uma entrevista mais ou menos recente com Bruno Maron, em que o autor diz que a pseudo-erudição é um mercado aquecido. Fernando Gabeira, nos idos de 1960, na Ilustrada, disse sobre Glauber Rocha e Terra em Transe que era “realizado para uma minoria intelectualizada e que se supunha capaz de entender e interpretar suas alegorias, mas dele nada pode aproveitar em tempos de compreensão de uma realidade nacional ou latino-americana”. Ambas as entrevistas, separadas por 50 anos, dão uma boa noção deste fenômeno, que celebra o leitor (ou espectador, no caso de Glauber Rocha), muito mais do que o autor.

Apesar de vivermos em uma era de massiva superprodução de livros, de muito papel para manter a ilusão perdida mais crucial, que é a de que um escritor sempre será uma figura séria em um mundo ignorantão, parece-me que o autor morreu e vive nas citações ou referências daquele que o consome. Essa quantidade enorme de papel serve para o leitor, não mais para o a glória do autor. Como uma teoria antropofágica às avessas, o autor é devorado pelo leitor, que o mastiga a ponto de destruí-lo em seus círculos sociais, redes sociais, funções sociais. Mais importante do que Glauber Rocha sou eu que falo de Glauber Rocha.

Flaubert dizia que o discurso humano mais parece uma chaleira rachada da qual tiramos melodias para os ursos dançarem, quando, no fundo, desejaríamos mesmo era comover as estrelas. E Hannah Arendt, em um ensaio sobre a reputação literária, pergunta se é possível haver de fato um gênio não reconhecido. Ou se é um caso de delírio daqueles que não são gênios. Ainda não há filosofia o bastante que possa nos fornecer hoje uma resposta a esse fenômeno em que o leitor figura acima do autor.
Não há psicanálise possível pois precisamos de um distanciamento histórico para melhor observarmos as razões e as motivações sociais do leitor. Por ora, estamos todos sendo sugados, os vivos, os mortos, a literatura, os deuses que inventamos, as memórias, as histórias, os amores.


Thiago Blumenthal é doutor em Teoria Literária pela Universidade Mackenzie e um dos fundadores da Editora Lote 42.

Ilustração de Carolina Nazatto.

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