Entrevistamos o tradutor Maurício Santana Dias, professor de Literatura Italiana na Universidade de São Paulo e um dos principais tradutores de língua italiana no Brasil. Nascido em 1968, em Salvador, Dias começou a estudar Letras na Universidade Federal da Bahia, concluindo o curso na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde também fez seu mestrado em Teoria Literária.

Mudou-se para São Paulo em 1998 e, durante o doutorado na Universidade de São Paulo, foi pesquisador visitante da Georgetown University, em Washington, e trabalhou na Folha de S.Paulo, primeiro como correspondente em Buenos Aires e, depois, como editor-adjunto do caderno Mais!. Fez seu pós-doutorado em Italianística pela Università degli Studi di Roma La Sapienza, quando viveu na Itália.

Finalista do Jabuti pelas traduções de O mal obscuro, de Giuseppe Berto (Editora 34) e de 40 novelas de Pirandello (Companhia das Letras), também recebeu o Prêmio Paulo Rónai da Fundação Biblioteca Nacional pelas novelas de Pirandello.

Responsável pela tradução bem-sucedida da tetralogia napolitana, conjunto de quatro romances de Elena Ferrante (Biblioteca Azul), Dias atualmente está às voltas com o novo romance de Domenico Starnone, que será publicado pela editora Todavia, e parte para um ambicioso projeto: uma nova versão para o português de A Divina Comédia, obra-prima de Dante.


Deriva  — Você parece transitar bem entre a literatura canônica e a literatura contemporânea. Como tradutor, participa de projetos com perfis distintos: do ganhador do Nobel, Luigi Pirandello, a Elena Ferrante, fenômeno editorial. Traduz diversos gêneros literários: dramaturgia, romance, poesia. Do mesmo modo, se movimenta entre múltiplos ambientes e linguagens: de professor e pesquisador universitário a editor e colaborador de revistas e jornais, escreve e se dirige a públicos distintos. Como tem sido a experiência de construir esse percurso entre diferentes mundos, que algumas vezes se colocam em oposição?

Maurício de Santana Dias — Não sei se transito bem, mas sem dúvida eu gosto de me mover por vários gêneros literários e por épocas diferentes, do mais canônico ao mais contemporâneo. Isso vale também para minha relação com a música, o cinema, as artes visuais etc. Acho que, sobretudo para um tradutor, que tem de o tempo todo lidar com os imponderáveis de um texto, essa experiência da diversidade e heterogeneidade pode resultar numa, digamos, amplificação da experiência que pode beneficiar o trabalho final.

Entendo quem prefira trabalhar apenas com determinado tipo de literatura, como o romance, ou o ensaio, ou a poesia. Há tradutores excepcionais que, por exemplo, se dedicam quase exclusivamente à poesia ou ao ensaísmo. No meu caso, o próprio percurso de leituras, desde muito novo, acabou me levando a traduzir em várias frentes, e devo dizer que me sinto muito bem com isso que, para muitos, pode parecer um excessivo ecletismo ou “diletantismo”, sobretudo entre colegas da academia.

Se eu, como leitor, acho que um determinado texto é bom, é relevante, não importa muito se ele faz parte da chamada “alta literatura” ou da “literatura de entretenimento” ou de tantos outros rótulos que circulam por aí. Como leitor, e tradutor, o que me interessa é poder compartilhar com outras pessoas essa minha experiência do texto.

No entanto, há mais de vinte anos, esse meu trabalho com a diversidade textual tem se dado quase exclusivamente dentro do campo da cultura italiana, o que sem dúvida demanda um certo “especialismo”— linguístico e cultural. Nesse sentido, tudo o que traduzo está de algum modo relacionado ao trabalho e às pesquisas que desenvolvo na universidade. Trocando em miúdos, tento na medida do possível conciliar o especialismo necessário ao trabalho acadêmico com essa versatilidade que você apontou, porque a meu ver esse duplo movimento, de concentração e de expansão, enriquece o trabalho. Portanto, mesmo reconhecendo que se trata de diferentes mundos, procura não enxergá-los numa relação de oposição, mas de complementaridade e diálogo. Afinal de conta, traduzir é um processo permanente de confronto e contato com a alteridade, o estrangeiro, o estranho — que não vejo como inimigos.

 

Deriva  — A tetralogia napolitana, de Elena Ferrante, é composta por quatro romances que, juntos, somam mais de mil e seiscentas páginas. Depois de vivenciar essa experiência de intimidade com o texto de Ferrante, a que você atribuiria o sucesso editorial de seus livros? 

Maurício de Santana Dias — É sempre difícil dizer a que se deve um determinado sucesso editorial, ou qualquer outro “sucesso”. No caso da Série Napolitana, eu arriscaria a hipótese de que, para além do marketing obviamente bem-feito — e não vamos aqui ter medo das palavras —, a tetralogia incorpora de modo muito sofisticado à grande tradição da máquina romanesca as questões contemporâneas mais prementes, formando um amplo painel ao mesmo tempo complexo e simples, palatável e indigesto, cativante e repulsivo, coerente e contraditório. Tudo isso com uma extrema habilidade na dosagem que mistura a vida privada das personagens, sobretudo de Lenu, Lila e seus amigos mais próximos, e a vida pública da Itália, e não só, do último meio século. Então, numa época em que a experiência pessoal de cada um parece estar, malgrado toda conexão, desconexa, acredito que os leitores, ao se deparem com as histórias particulares daqueles indivíduos napolitanos, percebam simultaneamente o que há de comum, banal, ridículo e excepcional na experiência coletiva contemporânea. Posso estar totalmente equivocado, mas acho que a coisa vai meio por aí.

 

Deriva — De literatura italiana contemporânea, você também traduziu Laços, de Domenico Starnone, romance que tematiza o casamento e as relações familiares. O livro é dividido em três partes: a primeira é epistolar, composta por cartas escritas na década de 1970 pela esposa, Vanda, em um momento de crise; a segunda, e mais longa, é narrada pelo marido, Aldo, que rememora, nos dias atuais, o período turbulento que viveram no passado, com desdobramentos no presente; e a última, que traz a perspectiva dos filhos, testemunhas precoces de uma dor que deixa marcas. Quais diferenças entre essas três vozes, do ponto de vista formal e temático, você destacaria como as mais significativas?

Maurício Santana Dias — Laços de algum modo condensa em 150 páginas um meio século de situações, problemas e impasses que também atravessam de modo central a Série Napolitana. O breve romance é um verdadeiro tour de force, sua composição é de uma habilidade impressionante, começando com uma narrativa epistolar — como aliás nos primórdios do romance moderno, no século 18  — e terminando com a peça tragicômica (pirandelliana?) da terceira parte, e o monólogo autobiográfico de Aldo de permeio. Para o tradutor, que desmonta e remonta o texto em seus componentes mínimos, é surpreendente ver todo esse rigor aristotélico, quase cartesiano, a serviço de uma destruição total. É como se a própria perícia técnica da arte romanesca fizesse a crítica de si, e o autor no fim das contas nos soprasse no ouvido: chegamos a um ponto em que somos capazes de tudo, e aí mesmo está nossa ruína. É uma obra inquietante.

No momento estou traduzindo o romance mais recente de Starnone, Scherzetto, que retoma e dá mais uma volta nesse parafuso prestes a espanar. Aqui Starnone inclui ilustrações ao texto, que toma como ponto de partida o famoso conto de Henry James The Jolly Corner, traduzido por José Paulo Paes como A bela esquina. Mas agora numa esquina de Nápoles, claro.

 

Deriva  — Você também traduz poesia — como os poemas de Pier Paolo Pasolini e os de Cesare Pavese, ambos publicados pela Cosac Naify, o que pede conhecimentos e técnicas específicas. Como é virar essa chave entre projetos?

Maurício de Santana Dias — Do ponto de vista estritamente formal, sem dúvida é um processo bem diferente, embora o poema tenha um espectro muito amplo de formas, que vai da métrica quantitativa dos clássicos latino ao sistema silábico-acentual, que está na terza rima dantesca ou no soneto de Petrarca, para não falar das muitas e quase infinitas figuras com que se faz um poema, mesmo em versos livres. Então o tradutor de poesia tem de, no mínimo, saber reconhecer os procedimentos formais e os lugares-comuns do texto que ele está traduzindo, senão fica complicado (especialmente para o leitor).

No momento, eu e mais dois colegas, Emanuel Brito (professor de Italiano da UFF) e Pedro Heise (professor de Latim da UFSC), estamos começando uma tradução em versos da Divina comédia a seis mãos. Não sabemos ainda qual vai ser o resultado dessa aventura tremendamente arriscada, mas estamos muito entusiasmados e concentrados no poema e sua longa tradição de comentadores-tradutores. Obviamente o tempo da tradução de poesia também é diferente, mas, no fim das contas, a experiência com o texto não difere tanto: em prosa ou em poesia, o tradutor sempre vive uma experiência de imersão total no outro. Ou seja, a chave é sempre a mesma: trouxeste a chave?

 

Deriva — Em uma entrevista concedida à tradutora Denise Bottmann publicada na revista Peixe-elétrico em 2015, você lembrou que Cesare Pavese escreveu um ensaio intitulado “Narrar é monótono” (1949), em que o autor buscava “aproximar a literatura do mito, entendido em sua acepção antropológica e quase etimológica como uma narrativa mínima, baseada num conjunto restrito de ações e procedimentos, que busca oferecer uma explicação do mundo. Daí as repetições de temas, procedimentos formais e sobretudo de ritmo que se veem na poética de Pavese, que naquele mesmo ensaio aproximava a escrita dos versos às braçadas contínuas de um nadador”. Nesse sentido, que diferenças você apontaria entre a poesia de Pavese e a poesia de Pasolini?

Maurício de Santana Dias — Eu diria que, apesar de compartilharem características temáticas comuns, Pavese e Pasolini são o que pode haver de mais diferente em termos de atitude diante da poesia. São poéticas antagônicas mesmo, e o próprio Pasolini fez questão de sublinhar esse antagonismo — em seu favor, claro — quando qualificou Pavese de escritor mediano, um “decadente de província”, um pouco na linha da crítica de Alberto Moravia, de quem era muito amigo.

Pavese é um autor que se constrói e calcula lentamente cada palavra, cada frase, cada linha, tentando neutralizar ao máximo o que ele mesmo via como capricho, arbitrariedade. Para ele tudo devia ser submetido a um rigor e a um ritmo cerrado, que bebe o tempo todo da tradição antiga, dos mitos, como se a literatura pudesse ser uma resposta ao que há de caótico e imponderável na vida. Já Pasolini é alguém que, mesmo tendo um enorme repertório das formas clássicas e tradicional, prefere corre riscos o tempo todo, porque entende a arte acima de tudo como risco, confronto com o imponderável, perquirição dos limites. Por isso, para recorrer a uma imagem, se Pavese é o maratonista aquático, que acumula braçada a braçada sempre no mesmo rumo, para não afundar, Pasolini é aquele mergulhador de Acapulco, que se tira de alturas vertiginosas sem temer o impacto da queda.


Fabiane Secches é editora da Deriva, psicanalista e mestranda em Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo.

Ilustração de Carolina Nazatto

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