A impossibilidade da intimidade

 

Quando Philip Roth completou 80 anos, em 2013, grandes escritores foram convidados para falar a seu respeito. Já não me lembro quem, ao ser questionado se o considerava misógino, respondeu que não. Que a questão era que Roth lançava uma lente de aumento potente demais sobre a intimidade entre homens e mulheres e a intimidade é sempre, de alguma forma, um campo de batalha.

O campo de batalha da intimidade é o cenário de Engano. Ao longo das páginas, o leitor acompanha conversas íntimas de um casal. Ele se chama Philip, dela não sabemos o nome. Ela é inglesa e cristã; ele, um judeu americano. Ambos são adúlteros, mas enquanto ela é infeliz no casamento, ele parece encarar a traição mais como algo tão completamente cotidiano que não depende do estado do relacionamento oficial.

As conversas não seguem uma encadeamento lógico e o livro não possui uma trama. É um recorte, um apanhado de instantâneos. Conversas sobre o marido dela e sobre a decoração do escritório em que se encontram, sobre antissemitismo na Inglaterra e férias me estações de esqui. É possível depreender a passagem do tempo não pelos acontecimentos na vida dos personagens, mas pelos altos e baixos da intimidade entre eles.

O romance abre com o casal criando um questionário que lhes permitiria conhecer totalmente um ao outro. O próprio ato reafirma, para os personagens e para quem lê, a impossibilidade de tal empreitada. A ficção envolvida nos relacionamentos. A ficção da intimidade.

Todo relacionamento íntimo se baseia em certas mentiras. Mentiras essenciais, sem as quais a convivência se tornaria impossível, porque nenhum de nós está totalmente preparado para conhecer a total verdade do outro. O questionário dos amantes é absurdo porque no segundo mesmo em que eles o escrevem, já sabem que jamais será respondido com sinceridade. Quando a mulher sugere a pergunta “25 coisas que você não me conta”, Philip rapidamente afirma que disso só podem sair coisas triviais. Ao mesmo tempo, as mais fáceis de esconder, desimportantes o suficiente para que mintamos sobre elas sem achar que isso constitui alguma contravenção, e as que mais podem causar tensão. As coisas triviais erodem o falso equilíbrio e revelam o artifício, pois na ficção, mais do que em qualquer lugar, o diabo está nos detalhes.

Essa intimidade criada por Roth invade e é invadida pela vida real. Em determinado momento, sua esposa encontra o caderno de anotações que constitui o que lemos do romance até aqui. Ela fica transtornada e o acusa de traição. Ele afirma que é só ficção.

“Mas por que o personagem precisa ser Philip? Por que não pode ser Nathan?”. Porque, Roth responde, quando escreve ficção pensam que é autobiografia, quando escreve autobiografia pensam que é ficção, então por que se preocupar com classificações? Por que não deixar a escolha para quem lê? Outra resposta possível é: por que separar o que é inseparável? Como separar intimidade real e intimidade inventada quando as duas são, na essência, a mesma coisa?

Essa ideia é tão intrínseca ao romance que, na verdade, não há indicações de quem fala. Lemos cada trecho sem saber se quem começa é Philip ou a amante. Quando ela sai de cena e entra a discussão com a esposa, levamos alguns parágrafos para entender o que acontece. Entendemos porque, em parte, criamos tanta intimidade com essas personagens que reconhecemos seus tons e trejeitos. Mas essa também é uma intimidade fictícia, uma vez que a única intimidade que temos é com a escrita e a espantosa técnica literária de Philip Roth.

A maior pergunta desse livro é: o que é realidade o que é ficção? O caderno é mesmo um caderno? O que Roth apresenta como conversas fora do caderno são conversas de fato? Elas se ancoram na realidade ao fazer menção a O Avesso da Vida, um de seus romances. Mas não seria um truque ancorar esse livro justamente em uma obra que faz, desfaz e retorce sua lógica interna como forma de provar um ponto sobre a ficção de nossas narrativas pessoais?

Não é apenas a intimidade que é um campo de batalha para Roth, mas a construção do eu. Ser alguém e, especialmente alguém em relação a outros, é uma batalha que compramos no campo da ficção. Identidade é uma história que contamos para nós mesmos e para o mundo. Fabulada, ficcionalizada. Se somos todos seres construídos de histórias, a intimidade entre dois desses seres não pode ser diferente de um teatro, um campo em que dois encenam conhecer-se profundamente, sabendo da impossibilidade disso. Não é à toa que a estrutura do romance se parece tanto com uma peça. Não é à toa que ecoa, dentre os mestres de Roth, justamente Ibsen.

Philip tortura sua amante para saber o que ela, e a Inglaterra, realmente pensam dos judeus porque essa é uma pedra fundamental da história que ele conta sobre si mesmo. E é a pedra fundamental de diferença entre ambos. Ele é judeu, ela não é. Ele é americano, ela não é. Construir uma intimidade é um jogo constante de fundir-se e separar-se, criar um universo e reafirmar-se como independente dele.

Cada relacionamento é um mundo inteiro, construído talvez nas mesmas bases com que criamos os mundos de ficção. Engano é parte dos chamados “livros autobiográficos” de Roth, obras em que ele cada vez mais nubla a fronteira entre autor e personagem, obra e criação. Suas obras são quase como action paintings de Jackson Pollock, no objeto final há traços do processo que são também parte intrínseca da obra, algo a ser escancarado e não a ser escondido no espaço obscuro fora da página.

Nesse livro, o autor emparelha a criação de uma intimidade com criação literária. Não apenas porque ambas são construções com estrutura de ficção, mas porque nascem do convívio intenso, porque nunca são produto final. Um bom leitor constrói uma intimidade de amante com o livro. Um bom escritor mais ainda. É fascinante acompanhar um livro constituído apenas de conversas recortadas entre amantes, porque ele nos lembra da riqueza da ficção de toda intimidade. Quando um escritor fascinado pela manipulação o faz, o encontro entre vida, identidade, amor e literatura se transforma em uma obra estranha e rara.


Isadora Sinay é tradutora e doutoranda em literatura judaica na Universidade de São Paulo. Pesquisa sobre memória e Holocausto. 

Ilustração de Celeza Ramalho

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